19 de março de 2017

CORPOemado IV: olhos



Eu não sei meu nome. Quando me toco, não sei minha pele. Não há o que saber pelo desvio dos olhos. Não há como prover o sensível prenome, presente neste homem forjado a sêmen e sol. Há sabor, e só. Um degustar na experiência de um dia encarnado em corpo antinômico. Ao me tocar, metamorfose. Ao transitar entre chuvas, o ruir das certezas. Cada gota resvala o orifício sacro do verbo perdido em letras e véus. Uma enxurrada que varre céu afora o desejo de me caber num chamamento.

Me perco quando ouço meu nome. Divirjo da letra que me inicia numa existência palavral. Dispo a veste do que se chama eu a cada precipício aberto em meu peito. E nele, meu peito, cabem muitas quedas. O esborrachamento me compõe. O delírio me eleva. O tônus da voz alardeia o itinerário entre assunção e epifania, quando no percurso entre ser e perder-se, encontro-me dentro do nome que me convoca. No entanto, eu não sei meu nome, duvido do meu encantamento para ser, retiro às pressas o toque das minhas mãos em corpos alheios ao meu.

Todo corpo que me toca é meu. Compõe o lugar do não saber quem sou. Se você sabe quem é, não me dedique olhares. Não pressuponha o amanhã como porvir. Não há amanhã, apenas amanheceres no instante em que se cruzam nossas escuridões. O escuro é pôr do sol e amém.


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