3 de setembro de 2017

poema para um poema de ricardo domeneck


abstrai-se abstrai-se a cama
vazia abstrai-se o luto
abstrai-se o lampejo dos
seus pelos nos meus da minha
pele na sua fala-se às
escuras ama-se às avessas
moldam-se os lençóis nas curvas
de um corpo que não mais está
aqui que deixou um rastro
de presença na memória do
meu toque que acorda na fúria
de um pesadelo repentino
que deixa o dia anoitecido
nas horas de inverno abstrai-se
abstrai-se a abstenção cala
a forma fugaz da mão que afaga
a quentura vazia de um
lugar antes preenchido sente
a névoa oblíqua da presença
que um dia foi um corpo pesado
sobre o meu que um dia foi a
partilha de segredos a
olhos entreabertos pelo sono
que um dia foram as horas
de um filme interminável no
apartamento vazio abstrai-se
relevam-se os braços quando
não há mais pescoço para se
envolver as mãos quando não
há mais dedos para se enroscarem
em figuras indizíveis abstrai-se
o dia em que noites eram fuga
em que tardes eram ilhas
no meio de tantas palavras
ditas de tantas falas frias
abstrai-se abstrai-se o
firmamento das horas dos
instantes do fogo que ardia
lento durante nossas bocas
abstrai-se a lembrança de uma
abstração do que poderia
ter acontecido dos cabelos
que deixaram de amanhecer
largados em meu ombro que
não desceriam mais pelo meu
peito até o lugar em que serão
apenas um monte juntado
ao lixo abstrai-se abstrai-se
abstrai-se abstrai-se a
“celebração de tudo que é
incompleto”

fábio pessanha


18 de agosto de 2017

Rodas leminskianas de leitura poética


Galera, em setembro, além da minha oficina na Bienal, vou fazer as “Rodas Leminskianas de Leitura Poética” na Biblioteca Parque de Niterói!!
Acessem o facebook para terem mais informações e se inscrever ou vão direto no link abaixo pra que a gente possa pensar e trocar umas ideias sobre poesia até ficarmos com a cara igual a do Leminski aí na foto!! Aguardo vocês!

Inscrições: http://bit.ly/2w33Y2N

6 de agosto de 2017

Paulo Leminski e as paisagens da poesia: uma leitura de "Limites ao léu"


Saiu na Revista Garrafa, nº 38, meu ensaio sobre a leitura que fiz do poema “Limites ao léu”, do Leminski! Foi um desafio transitar e costurar interpretações sobre as leituras que o poeta fez para o que seja poesia. Mas essa tentativa passa longe de uma elucidação que se pretenda determinar um conceito para poesia. É uma viagem, um salto, um mosaico que aponta para o incomensurável, para o nunca sempre quase de uma questão das mais importantes para o homem, porque o homem é um poema sempre a se escrever.

Então, quer ler todo o ensaio? Tá a fim de conhecer a galera que compõe a revista? Passa aqui, ó: http://bit.ly/2uX7JnL

29 de julho de 2017

Vassouras piaçavas a cinco reais e de pelos a seis reais


alguém por favor compre uma vassoura desse carro de vassouras com vassouras piaçavas a cinco reais e de pelos a seis reais que não sai da minha rua que não me deixa pensar em outra frase que não seja vassoura piaçava a cinco reais e de pelos a seis reais que não me deixa escrever minha tese ou decidir o que vou comer que não seja vassoura piaçava a cinco reais e de pelos a seis reais que me faz querer nunca mais varrer minha casa que me causa horror só de pensar em piaçavas e que porra é essa de piaçava que nasceu só para se fazer a vassoura do carro de vassouras que não sai da minha rua com vassouras piaçavas a cinco reais e de pelos a seis reais um dia quando eu crescer eu quero ser uma vassoura piaçava de cinco reais e se de repente eu me der bem na vida consigo chegar a uma vassoura de pelos a seis reais do carro de vassouras com vassouras piaçavas a cinco reais e de pelos a seis reais que não sai da minha rua

21 de julho de 2017

raízes


por se romper o chão desde os nervos das manhãs por se querer
um horizonte ruindo nos cabelos encrespados da melancolia por se
desejar o gosto encorpado de deus
resgatam-se as vozes guardadas no peito do silêncio por
se burlar os baques das traves em minhas costelas rejo
rumo a terra a sinfônica angular das raízes por se alimentar
o céu mais que o ventre por se beijar o rosto
das avenças numa disputa ergo
os dedos para a alvorada e desenho o cansaço
das flores nas falhas do teto por se ruminar
o vestígio dos lábios por se levar o destino dos fatos
em procissão deixo o vento lamber a força oculta das patas
enterradas no barro de onde tive moldados
meus castelos ósseos por se calarem as pedras
plantadas no refluxo do tombo por se andarem
os galhos na verticalidade do prumo
devolvo os ombros ao luto no incansável espanto
por se inventar a fuga das mãos
de onde não posso agarrar

fábio pessanha

11 de julho de 2017

Entrevista no programa Os Descabelados, na Rádio Revolução FM (Instituto Nise da Silveira)


dez de julho de 2017. hoje a manhã foi para se descabelar. hoje a ordem foi perder o eixo dos penteados rijos, quebrar o sentido farto de mesmices. hoje estivemos juntos – poetas, músicos, pessoas de almas largas – numa manhã que celebrou a diversidade, a arte, o apropriar-se daquilo que inevitavelmente somos. hoje um início para outros devires, outros cantares, outros sonhares floresceu, pois é o que acontece quando aqueles que acreditam em poesia, que percebem o mundo – para além dos rígidos ditames conceituais – se reúnem. hoje o paradoxo ganhou vez. assim: de dentro do instituto municipal nise da silveira – cujas paredes são cheias de dores, cujas celas ainda guardam cenas de horrores, cujas pesadas lembranças ainda se encarceram no cinza das paredes – a rádio revolução fm provocou luzes, aqueceu o cinza num luzir iridescente quando, ao se iniciar o programa Os Descabelados, um novo mundo se ergueu. no espaço de uma pequena salinha, os limites físicos se redimensionaram para além: celebrou-se a vida, o afeto, as trocas, o diálogo; fomentou-se amores, alargaram-se horizontes para o inesperado de um trançado de palavras, estas que nasceram – e continuam nascendo – carregadas de porvir. claro, isso tudo hoje foi possível porque um dia uma mulher acreditou que a realidade é muito mais do que isso que se vê no rente dos olhos. nise da silveira deixou um legado que ainda se cumpre, que se espraia no peito acolhedor de abraços onde o sentido do real como aquilo que incessantemente nasce e provoca realidades é insistentemente revisto, renascido, revivido. então, só me resta agradecer aos queridos kátia pires chagas e bruno black pelo trabalho colossal que realizam e por darem continuidade a esse patrimônio humano plantado em solo há algum tempo tido como infértil, contudo, que mesmo aos trancos e barrancos vêm mostrando desde o trabalho da nise que a fertilidade está no olhar de quem se doa à própria queda. só posso agradecer pelo convite a mim feito de poder viver essa experiência mágica numa manhã de segunda-feira com tantos outros corações repletos de infinitudes. um trabalho como esses não é fácil. mas se continuar a ser feito com a imensidão da força que eles têm – kátia, bruno e quem mais for responsável por botar o programa no ar –, não há dúvidas de que naquele espaço o mundo sempre se renovará pela alegria do que não se pode tocar ou mensurar, mas que aquece a alma de quem se lança ao sentido abismal de ser. sejamos! gratidão!

para quem quiser assistir o que rolou na rádio, é só clicar nos links para a ENTREVISTA SOBRE MEU LIVRO e para o PROGRAMA NA ÍNTEGRA

2 de julho de 2017

a encruzilhada é meu guia...


a encruzilhada é meu guia. “Nada me faltará”. as ruas me cortam e me levam com elas. o destino dos joelhos seguem o avesso dos pés. nada que não passe de retravés é digno de desvio. o chão é o senhor de todos os passos. o chão acolhe as pessoas quando se tornam restos. todas as pessoas se compõem para o fim. todas as pessoas são um resto. gerar um filho é aumentar o nada. o nada tem voz nos pulmões do absurdo. eu sou um absurdo.

a encruzilhada é meu guia. “Nada temerei”. a tarde queima crepúsculos nos tortos caminhos do dia. o dia é pôr do sol. a noite entra no recanto da luz. a noite insiste na escuridão luminosa das estrelas. as estrelas caem controversas no caminho do mar. as estrelas aquecem a rota para o eixo quadrilátero do assombro. o assombro reconhece o rosto dado ao tapa. o tapa investe na precisão dos dedos. o tapa reveste a pele de tangência. eu sou um tapa.

a encruzilhada é meu guia. “Tu estás comigo”. sozinho faço prece ao desconhecido. sozinho concebo fé a quem pediu por mim. sozinho percebo. sozinho. percebo. a luz entope de fôlego o estômago vazio. o estômago se enche de si na alegria da fome. o estômago come o corpo por dentro. o corpo introjeta o chão. a fome irriga a vontade de mais nervos. as bocas reagem ao fascínio do engasgo. o escarro assalta a trajetória da cara. eu sou um escarro.

a encruzilhada é meu guia. habitarei na tua casa por longos dias. dou aleluia ao festejo da véspera. o adeus me fertiliza de mãos ao vento. o pôr do sol é mais alguém. ninguém diz onde a sombra resvala. ninguém fala de onde reluz o poente. o escuro é grande e assalta o dorso de quem anda na contramão do presságio. o presságio contagia a luz de outroras. o quando é mais um porém na contradição do tempo. o tempo é uma encruzilhada. na encruzilhada me guio “todos os dias da minha vida”. amém.

fábio pessanha

fosse luz...


fosse luz o andar me deixasse atônito desde as surpresas desde o contraste o amargo leito dentre os solfejos fosse o sol em casas invadindo frestas reluzindo cantos fosse agora tão quanto nunca quente o beijo largado na boca aos domínios do hábito quando estradas dessem no intercâmbio sonoro dos braços os afagos dos fachos lunares na borda esquerda das ilhas que se dissessem o azul eu afogaria o mar em suas próprias ondas deixaria o céu repleto de janelas para em cada uma delas aportar os cotovelos e descansar o peso de noites afiveladas ao concerto acústico dos dentes durante a epifania das falas

fosse o brinde aquele lance esquálido entre seios fartos ante o gracejo amanhecido nas pontas dos dedos entre os vãos das costelas dentro da vontade de se fazer granizos na tarde em que eu desse parabéns por seus anos de vida que deus te abençoe e te guarde amém sempre não se esquecendo de perceber se as portas estão trancadas que o dia começa às cinco e meia da manhã depois de um café engolido junto ao pão esquecido na mesa recheado pela vontade de uma manteiga mais derretida

que os corações enamorados em dias de partida quando aí já não se calam os laços de despedida entre lágrimas entre raios luminosos a luz brilhando no metal do ônibus que partiu de pedaços infinitos a outros pequenos e agudos gestos com destino impresso nas costas de quem me deu o passaporte para perto do acorde dissonante embebido nas ruelas que vão da nuca à vértebra que cisma na envergadura da chegada que é sempre vã que é sempre longa a espera numa caminhada que é sempre fim que é outono lançado entre folhas entre as cascas das mansidões deixadas ao acaso em mansões onde a porta abre o osso exposto na contramão da via que é sempre queda que é a cena da moeda dada ao moribundo

fábio pessanha

Poema deixado na exposição Poesia Agora, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro


A palavra, esta marca
amarga, aquela ponte larga entre o
silêncio – o turvo enredo ao meio – e
a crise ruidosa da fala – da
grafia envenenada no papel – o
grito encrespado no vocábulo.

Palavra
de todos os nós
a que nunca desata.

Fábio Pessanha

CORPOemado X: escuta


escuta a voz que te chama
ao peito, pergunta à
palavra que te invoca qual
porta desce ao leito, qual
falha ante o efeito
hipocondríaco do
que te come do

que te arrasa o rim do
que te alarga a fronte
corrupta ao descompasso das
pernas que te carregam ao
lírio baço do teu queixo.

escuta, canta
o grito atonal do apelo. deixa
perdurar o abraço que te afeta
impreciso. finge
o rosto em tuas
mãos, sente
cada curva, cada
dúvida.

espera a fala, deixa
a palavra se erguer ante
a boca. carrega
nos ombros o peso
veloz do lábio, infringe
o céu no gosto
surdo dos braços e
escuta.

fábio pessanha

Crítica poemática: Arrival – (A Chegada) –, de Denis Villeneuve

eu sou a primeira vez de um caminho já trilhado.
eu sou a primeira vez do que ainda não houve primeira vez,
do que é sempre a primeira vez.

linhas se encontram nos desencontros mnemônicos
quando tempo traduz língua ante
a fonte retilínea dos fatos.

“a chave para o estabelecimento de
qualquer
cultura é
a língua”

não há só fatos. história não é sucessão.
ainda quando se contrapõe:
“a chave
para o estabelecimento de uma
cultura é
a ciência”

quem sabe,
escombros perdidos nos achados do que é
antes e agora.
quem sabe,

qualquer sucessão possa ser
uma concepção tardia de esquadros passantes:
o que se vive no que se viveu e se viverá.
memória laços traços tranças linguagem

que se presenteia em língua, em

várias
muitas
todas

as que não são nunca
e se atropelam no ainda.

eu sou a primeira vez de uma palavra
que cisma em me nascer.

as voltas do seu tempo desencadeiam presságios.

verbos destinam imagem
versos conjugam memória

o agora,
um andamento múltiplo
que é para nunca e sempre.

fábio pessanha

Angústia (CORPOemado IX)


preservar o peso da palavra a extensão do brio
durante a onda que leva o pedaço mordido
e frio do fruto à saliva de quem me empresta
os dentes guardar o peso da ausência de
um coração que bate noutro peito
sequer querência um jeito uma
frase um leito que se quer sempre
quente nunca ausente da força
do voo do lance do arremesso
pela janela daquele corpo daquele pouco
aperto a contragosto aquele gesto
aquele rosto

em tantas feições tatuadas
arquipélagos dentre muitos outros
fora entre muitos poucos ardentes risos
numa face numa expressão que não
existe que não dorme no enlace
entre coxas entre orquestras
múrmuras que não descansa que usa pernas
alheias em corridas que não são suas que querem chegar
sempre querem chegar e nunca chegam não podem
não conseguem

deixam a esmo a antipatia em
largos olhos em fartos ventres em cuja cara
se faz ninho a saída o adeus o tchau
o fôlego some o arfar adentra o ar resfria
em respiração que não é sua que não é minha
antes fosse quem me dera um lenço quem sabe
um imenso atalho para onde se pode rir bem alto
para onde se poder ir a um assalto bem-sucedido
onde se pode querer sempre querer mais
e nada a menos onde não haja lago para saltos
sequer vertigens para altos partos e não nascer
seja um desejo

Fábio Santana Pessanha

Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017

futuro
retrocesso de mim
minha extinção

quando
não estou no que olho
não me sinto no que vejo

se
meus passos me contradizem
trago no peito o paradoxo

largas
são as curvas que me levam
distintas as voltas que me trazem

hoje
um passado reside em minha fronte
dando as mãos ao que defendo

paro
em rouco silêncio
num movimento que me berra

Fábio Santana Pessanha

sempre muda alguma coisa...

sempre muda alguma coisa
sempre são outras pessoas
somos muito diversos e nunca
somos todos convexos e sempre

a gente se perde exatamente nisso que a gente é
a gente consegue ser a imagem do espelho
dar as mãos a estranhos ir pra cama com avessos
a gente sempre se concentra nisso que a gente não é

algo estranho acontece no peito de quem se olha
algo diferente se desenrola na cara de quem se vê
toda piscadela registra um ato falho da pálpebra
o que a gente enxerga foge do alcance do tapa

Fábio Pessanha

Carta para o coração (CORPOemado VII)


Fosse isso quase, dantes fosse curva, em que fora o cravo dentro em laço pouco fluido. Um vintém, quem sabe, ninguém além de um misto parco desse corpo inconformado. Um segredo. Quem, porém, não dissesse quando desde muito quase enquanto isto que se diz já se foi, e pronto. Um recado. Uma notícia que se queira dar. Um bocado. Um trocado para garantir migalhas. Mil navalhas na língua de quem não se cala, que traz no sangue jorrado a história de uma morte descabida. Gotas caídas num círculo contorcido a pés inchados. Uma sola. Solavanco instado a dedos. Arremedos em circuito côncavo para concertos trítonos. Chão. Marcas circundadas à lama pelo dejeto engastado em orifício pouco cônico. Nos mapas de suas veias um destino se fez vermelho. Interrompido. A flama dessas dores uma vez mais em arredores férteis d’escambos. Pinta a melancolia de uma rua escura à procura da lamparina incandescida a vácuo. Modernidade diz respeito à luz antes do clique, ao lenço antes do adeus, ao esporro antes do gozo. Uma carta se dirige ao peito de quem não a recebe. Nunca receberá. Porque já não é. Nunca foi. Instante. O rápido atropelo da canção a gagos leitos. Não há cama que fique arrumada. Nem sou romântico. Quando muito.

Fábio Santana Pessanha

MicroEnsaioPoético: Manoel de Barros


Realizo a metáfora da fome.
Meu corpo é pão e água à espera de colheita.

Uma brisa cinzenta ocupa o instante
de quando o céu de azul se tinge

e o sol decresce às águas,
guiado pela cor de abelhas

ante o som novembral das confidências
segredadas ao meu olho.

Imagens moram baças.

De tanta luz desfeita, úteros
se ocultaram em nascimentos fúlgidos.

A densidade do choque se equilibra
pela transparência do estômago, no soco.

Minhas ventas têm mania de seguir o zênite
aos sonoros acordes quando dezembram.

Meu olho vai... deita-se largo em camas cegas,
carrega o rumor do tempo em asas feito flechas

desde o ritmo cadente do disparo ante o bravo
amparo do colo, despido em carne, caule e flor.

O murmúrio me alarga e se alastra pelo dorso
até o liquefeito azul de deus. Entes voantes

polinizam os sussurros, cravam dentes nos pés
erguidos aos muros​ de escanteios visuais

para, num sono de metáforas desguarnecidas,
meu olho ouvir o cântico outonal de vozes fontes

e servir de plantio ao gosto da terra
incrustado no desejo de ser horizonte.

Fábio Santana Pessanha

Referência:

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 285.

MicroEnsaioPoético: Ana Cristina Cesar


... desde o perder-se, o poema é vital. Alongam-se os veios de uma repentina metáfora inventada para se estar com ele, para se desmedir, esquecer suas réguas... Um poema... uma fisionomia deitada ao longo dos desvios, um ser entrecortado dentro do limite forjado entre alívio e apelo.
Um risco seus versos me comporem... um alongar-se das minhas vistas ao seu corpo, poema... andor onde se penduram vestes trancafiadas na aparência da pele. Seu nome esvazia as chispas geradas por laços encrespados. Seu nome me agarra pelas ancas e me eleva ao céu, cujas estrelas desfazem brios nas minhas quedas... e me perco dentro de suas dúvidas... tudo que toco, cada verso, cada letra ou sinfonia aural é parte do que me depreende translúcido, poema...
... não sei mais o que não seja corpo... ante tua certa imprecisão, ponho os dentes no que minha fome alcança, lanço aos ventos o ritmo das dores em repetição agônica de lâminas; flores cortantes por cujo talho reconheço o mundo. Esse mundo, poema, que me descabela por dentro; esse do qual não vejo saída a não ser pelo verso que nasce do sangue de minhas gengivas.

Fábio Santana Pessanha

CORPOemado VI: sêmen


Pessoas fluidas
andam descalças. Dominam o espaço no lugar onde passos são arpejos bem-aventurados para saltos e titanomaquias.

Pessoas fluidas
não fodem no escuro. Dormem compondo sinas. Fazem liturgias entre Deus e Diabo. Gozam com eles.

Pessoas fluidas
acordam sonhos inatingíveis. Tatuam cor no peito luminoso da metafonia. Dizem:
“a voz me enrubesce no silêncio”.

Pessoas fluidas
se alimentam de sêmen. Brotam lírios derramando céu nos corpos curvilíneos. Recompõem metáforas.

Fábio Santana Pessanha