31 de março de 2017

Corujão da Poesia em Niterói!!


Minha participação numa noite especialíssima do Corujão da Poesia, que aconteceu no dia 30 de março, no Bizu Bizu, Reserva Cultural, em comemoração ao mês da poesia em Niterói!

Foto do João do Corujão, idealizador do Corujão da Poesia.

26 de março de 2017

MicroEnsaioPoético: Platão



MicroEnsaioPoético: Platão

Tudo que se apruma em declive, pondo-se à deriva de ponderados leitos, cai. Imerge na bravura escura de uma queda; vai ao encontro do profundo estranhamento epitelial, quando a carnadura do toque reveste o espaço ambíguo do que existe e é corpo.
Tudo que enverga uma sapiência, que habita a morada fronteiriça entre o vivido e o postulado; isso que não tem sangue, mas pulsa na história não linear do gesto, tem profundidade e é corpo.
Corpo não é carne, apenas. Não apodrece, não deixa resto por onde passa. Mas é rastro quando sempre recomeça porque é princípio infindo em morte eterna. Corpo, quem sabe, é uma integração. Uma unidade dual – não opositiva, e sim ambígua –, poliunívoca na querência do que antecede o afeto, porque é antes e depois do afago. Contudo, é no durante que reverdece, que abre fundos à profecia de asas em voo.
Deita. Seu peso é sua existência. Atravessa margens, e atravessar quer dizer rasgar, trazer consigo, no rasgo, a experiência do que lhe tangeu, iridesceu e compôs passagem. Atravessar não é só ir de um lado ao outro, mas também trazer no lado a que se chega todo o futuro guardado em seu passado caminhante. O corpo é tempo. Presente constante nas possibilidades do que foi e será. Memória.
Tudo que é da espécie do corpo tem profundidade e é memória. Para além das mnemônicas imagens, memória é isso que abre; que excede e se consagra no circuito poético do verbo, quando poético diz o que se cria, alarga e se exerce, mas sem ponto de partida, tampouco de chegada. Sem um alguém que destrave seu ritmo porque qualquer alguém é, previamente, um ato criativo nascido antes de seu parto.
Um alguém é um lugar. Um imprevisto espaço donde se chega e para onde se vai isso que não tem nome, mas tem profundidade e é corpo.

Fábio Santana Pessanha

Referência da citação (imagem)


PLATÃO. Timeu-Crítias. Tradução do grego, introdução e notas de Rodolfo Lopes. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011, p. 140.

23 de março de 2017

CORPOemado V: umbiguidade



Um rascunho de umbigo. Invenção de lhe enfiar o dedo e meter um aceno em sua rugosidade. A confidência de mentiras às verdades não te cabem. Revela o arrepio que antecede o toque. Irrompe

de dentro do umbigo, sol. De fora, a noite num ritmo de cabelos desgrenhados. As mãos, pela passagem do que antes era e já se foi. Restos. As paredes compunham transparências. O chão limitava o elo entre risco e sobriedade. Não há espaço para calma na eloquência dos saltos

ao mirar o centro. A borda carcomia a longevidade do que se apresentava. Unha, pelos, pele, tudo consumido pelo buraco negro do ventre. Um covil luminoso. O tempo se envergava para dentro do princípio. Principiar é um gesto ambíguo de morte. E se morria a cada infestação de chuvas

pelas nebulosas que elaboram labirintos. Traços luminosos se perdiam entre vilas e paragens. Todo lugar é caminho para nudez. A cegueira decompõe apalpabilidades. O rio lunar está nos olhos de quem se deixa elevar ao préstimo de presságios.

O umbigo é um esboço. Um círculo malfadado na tangência de línguas. Atropelos. Muitos. Esquivava-se ao parapeito dos joelhos. Recompunham-se os alicerces dos beijos. Uma cena. Quem sabe. De amor.

Fábio Santana Pessanha



19 de março de 2017

CORPOemado IV: olhos



Eu não sei meu nome. Quando me toco, não sei minha pele. Não há o que saber pelo desvio dos olhos. Não há como prover o sensível prenome, presente neste homem forjado a sêmen e sol. Há sabor, e só. Um degustar na experiência de um dia encarnado em corpo antinômico. Ao me tocar, metamorfose. Ao transitar entre chuvas, o ruir das certezas. Cada gota resvala o orifício sacro do verbo perdido em letras e véus. Uma enxurrada que varre céu afora o desejo de me caber num chamamento.

Me perco quando ouço meu nome. Divirjo da letra que me inicia numa existência palavral. Dispo a veste do que se chama eu a cada precipício aberto em meu peito. E nele, meu peito, cabem muitas quedas. O esborrachamento me compõe. O delírio me eleva. O tônus da voz alardeia o itinerário entre assunção e epifania, quando no percurso entre ser e perder-se, encontro-me dentro do nome que me convoca. No entanto, eu não sei meu nome, duvido do meu encantamento para ser, retiro às pressas o toque das minhas mãos em corpos alheios ao meu.

Todo corpo que me toca é meu. Compõe o lugar do não saber quem sou. Se você sabe quem é, não me dedique olhares. Não pressuponha o amanhã como porvir. Não há amanhã, apenas amanheceres no instante em que se cruzam nossas escuridões. O escuro é pôr do sol e amém.


11 de março de 2017

CORPOemado III: pulso





Que as palavras lentifiquem o dia
numa chamada de invernos.
Façam da cor a morada do tempo,

esse deus que alarga o braço
num compêndio de mãos e laços,
envergando-se entre veias,

músculos e sangue na escrita
do verso que é mar reverso,
rio imerso em suas próprias águas.

No interior do pulso lateja o poema,
vibra o devir da palavra lumiada
desde o terreno remorso da escrita

até o rubro calor sanguíneo da voz.
Percorre silenciosamente o grito
epitelial da fala que, ambígua,

eleva-se no fruir gestual do verbo;
afunda-se no vigor temporal da letra
e chega ao rascunho do que é textura

e som no amálgama entre pele e palavra.
O pulso se enche de vias, elabora artérias
quando o poema respira o instante carnal

ante o fôlego farto, peito inflado, no dizer
desguarnecido entre a fronteira que reúne o poeta
e o abismo de sua presença mediante o nada.


6 de março de 2017

CORPOemado II: cotovelo




Noite cai sobre o corpo
sozinho ante o silêncio

Pálpebras pendem para
o fundo escuro do dia

guardado na dobra de
um cotovelo engastado

mediante trovas com
soante curva das ruas

rubras em seio turvo
A noite faz seu ninho

na capela diária de um
corpo entregue à canção

iridescente entre mãos
perdidas dentre vãs

descidas ao gosto interno
da sombra de um rosto

deitado ao longo de esteio
braço forte firme infame

desde ante o tronco fálico
da voz até o gozo frêmito  

de esculpidos gritos em
cotovelos nascidos nas

noturnas ébrias idas ao
canto fugaz do corpo

CORPOemado I: boca




o beijo é um imprevisto.
duas quedas se mergulham,
o improviso do visto são lábios,
o viso dos queixos se deixam.

nasce um tempo no beijo.
o dentro do seu eixo
são moradas outras,
irromperam e já são nunca,
inventaram-se,
habitam o instante
em que salivas
se entornam mar.

um único mergulho,
o suficiente
para romper em braços o zelo
do que antes era atropelo
e agora carnificina.


10 de fevereiro de 2017

MicroEnsaioPoético: Leminski

De dentro do quase, morando no que é ainda, há o poema. Nasce a palavra fazendo curva, tramando contra os lugares-comuns do sentido. Nessa envergadura, a poética de Paulo Leminski tem espaço. E depois de eu ser, várias vezes, tomado pelas vertigens leminskianas, aqui vai um trecho dessa queda.
Esse MicroEnsaioPoético ganhou vida originalmente no meu Instagram: www.instagram.com/fabiospessanha a partir do poema abaixo:

incenso fosse música

      isso de querer
ser exatamente aquilo
      que a gente é
ainda vai
      nos levar além


MicroEnsaioPoético: Leminski

Incenso fosse música. Incêndio fosse quase. Branco fosse isso que na chama inflama, que na cama abocanha o algo além de um alguém. Quer-se um querer. Há uma vontade que atropela, que faz dos passos luzes poentes no destino dos pés. Querer quer querendo-se. Faz circular o que na vontade é só sujeito. Encardido.
Isso de ser exatamente é dissonância. Um nome dito tão distante quanto a pronúncia que destrava bordas; tanto quanto a saliva, que molha os dentes, que vibra no ato de fazer palavra se tornar voz. Isso de “querer ser exatamente” é um entroncamento, uma corrupção temporal que traz o depois para o agora, que faz do hoje o dia de todos os sempres… um além… um crescente agoral num querer que é ser, num instante que é possibilidade: ainda.
Desvia para o lado sonoro do espanto, quando ainda vai, ainda nos levará além, ainda brindará o pulso engastado em ressalvas, ainda, quem sabe, será o centro entre bemol e sustenido, entre a sustentação da lágrima e o apogeu do murro; entre o peso dourado do esporro e o firme nó do loro.
Isto que nos levará além é ainda, é querer, é se ter na distância entre o abutre e a borboleta, entre o afago e a fama; a cama desfeita, a preguiça pós-domingo, o elo entre a lama e o zelo. Palavra dita quando pronúncia desmedida.
Querer ser no que se está. Viver o agoral. O desarranjo. O tempo. O ato. Isso que nos derrama, que nos consagra firmamento no limiar do instante, eleva ao ventre do inconstante o que se quer, que é levante. Isso nos levará além, isso nos levará ao amém das preces oferecidas ante escombros, ante ruas encruzilhadas. O destino é agora e nada mais. Não há depois, o antes já se foi. Nem houve.
Ainda iremos além. Esse negócio de querer ser, exatamente, o que se é, no que se está, só pode dar confins, caso, música fosse incenso. Mas. Incenso fosse música.

Referência do poema:


LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 228.