11 de março de 2017

CORPOemado III: pulso





Que as palavras lentifiquem o dia
numa chamada de invernos.
Façam da cor a morada do tempo,

esse deus que alarga o braço
num compêndio de mãos e laços,
envergando-se entre veias,

músculos e sangue na escrita
do verso que é mar reverso,
rio imerso em suas próprias águas.

No interior do pulso lateja o poema,
vibra o devir da palavra lumiada
desde o terreno remorso da escrita

até o rubro calor sanguíneo da voz.
Percorre silenciosamente o grito
epitelial da fala que, ambígua,

eleva-se no fruir gestual do verbo;
afunda-se no vigor temporal da letra
e chega ao rascunho do que é textura

e som no amálgama entre pele e palavra.
O pulso se enche de vias, elabora artérias
quando o poema respira o instante carnal

ante o fôlego farto, peito inflado, no dizer
desguarnecido entre a fronteira que reúne o poeta
e o abismo de sua presença mediante o nada.


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