9 de setembro de 2013

Acontecimentos poéticos – As margens do poético

Entre os dias 09 e 11 de setembro, ocorrerá no Curso de Letras da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques a IV Edição do Projeto Acontecimentos Poéticos, com a temática “As margens do poético”. Aproveito para divulgar que no dia 10 participarei da mesa-redonda “A poética na margem” com um trabalho intitulado “O homem e sua condição de margem”, tendo início às 20h30. Para quem se interessar, é só aparecer! Segue a programação do evento:

PROGRAMAÇÃO

09/09 – 19h – Abertura

     19h 15 – Conferência de Abertura – “O caminhar poético como margem da poética”, com o Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM - UFRJ)


     20h – Café


     20h 15 – Mesa-redonda – “Lançamento do livro Caminho, Poética, Acontecimento, de Fábio Galera” – Moderador Prof. Me. Sc. Tarso do Amaral (FTESM - UERJ)

Participantes:
            – Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM - UFRJ)
            – Prof. Me. Luís Felipe Castro Alencastro (FTESM - UFRJ)


  10/09

     19h 15 – Mesa-redonda – Poesia em Língua Inglesa – Moderador Prof. Me. Sc. Tarso do Amaral (FTESM - UERJ)

            – “Allen Ginsberg e a Contracultura”, com o Prof. Dr. Marco Alexandre de Oliveira (PUC-Rio)
            – “A Recepção Criativa de Dover Beach”, com o Prof. Me Alexander Rezende Luz (UFRRJ)
            – “Poesia Confecional: A Vida e Obra de Sylvia Plath” , com o Prof. Me. Davi Ferreira de Pinho (UERJ)


     20h 15 – Café


20h 30 – Mesa-redonda – “A poética na Margem” – Moderador Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM - UFRJ)

            – “Um olhar de menino nas margens da poética”, Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM - UFRJ)
            – “O homem e sua condição de margem”, Pesquisador Me. Fábio Santana Pessanha (UFRJ)
            – “O poético e os limites da Poética”, Pesquisador Me. André Lira (UFRJ)


  11/09

     19h 15 – Apresentação de Trabalhos dos alunos da Graduação em Letras da FTESM


     20h 30 – Recital, sorteio de livros etc.

19 de agosto de 2013

Palavra é corpo

Palavra é corpo. Falamos com a profundidade do que somos e não somos em cada desenvoltura de letra, mais ainda, em cada inspiração que infla os pulmões e corrompe o diafragma para se exultar em fonemas, morfemas ou sílabas. O corpo vai junto a cada espasmo de fala, e isto significa que o corpo está se pintando poeticamente na palavra.

Passagem retirada do ensaio “A ciranda da poesia: palavra: corpo: homem: poeta”, que escrevi para compor o livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento, organizado por mim e outros professores. Tal livro foi publicado em 2011 pela Tempo Brasileiro.

22 de junho de 2013

Tempo e poesia

Meus amigos, quero dividir com vocês o texto que escrevi para a orelha do livro A Poética do Tempo, de Angela Guida, editado pela Tempo Brasileiro. Tal livro integra a Coleção Pensamento Poético que, sob coordenação do Prof. Manuel Antônio de Castro, “[...] tem por finalidade acolher obras em que se faça presente a unidade poética de arte e pensamento. Trata-se de obras que têm como horizonte o questionar e o unir saber e ser. Dessa maneira o pensamento crítico, que as orienta e é inerente a toda obra poética e de pensamento, se inscreve no originário, onde criticar diz o vigorar da verdade da realidade em seu dar-se e retrair-se dialético-existencial.”[1]
Sem mais delongas, fiquemos abaixo com o que escrevi para a orelha de A Poética do Tempo. E aviso que o meu livro já está em processo de produção! Aguardem!!



Tempo e poesia
Fábio Santana Pessanha

O tempo poético, podemos pensá-lo como sendo rascunho de poesia, a tentativa de agarrar o pensamento no pulo. Então, como não é possível enlaçá-lo, só nos resta vivê-lo com vistas de horizonte. Como? Existindo, sendo...
O existir – como entremeio de vida e morte – é o maior desafio do homem, na medida em que este restitui sua humanidade ao imprevisto da própria existência. A tomada dessa consciência é o instante do salto, momento fulcral em que o homem decide pelo poético, e que Angela Guida soube perceber muito bem nesse livro. Aqui, estamos diante das veredas que ela traçou e que permeiam a transitividade entre o homem e si mesmo, como uma das possibilidades de o tempo se dar.
Conforme a autora comenta, o tempo não será definido, tampouco classificado por inúmeras categorias teoricizantes: quer seja o psicológico, o cronológico ou mesmo o poético. O cuidado dela em não se deixar ludibriar pela sedução do já-dito é evidente, e isso percebemos quando nos deixamos levar pelas mãos de sua fala. Pois, pelo menor descuido, o poético se tornaria apenas mais uma maneira de se classificar uma modalidade temporal.
Angela Guida dialoga ainda com a perspectiva de vários pensadores. E mais uma vez resvala no tênue limite de se pensar o tempo poético sem que o mesmo se torne mais um paradigma de delimitação temporal, como já apontamos. Daí, surgem os desdobramentos, isto é, questões que sinalizam a densidade do tempo, como esquecimento, instante, memória, tédio, finitude, moira, kairós, impermanência etc. E segundo a própria Guida: “[...] a busca pelo tempo poético, na verdade, é a busca pelo pensamento, é a busca pela clareira. E para que tal busca se dê, faz-se necessária uma ‘aprendizagem de desaprender’, a fim de que possamos nos libertar de leituras e definições fechadas que, de alguma forma, tendem a aprisionar o pensamento.”
Por ser todo trilhado pela tessitura do diálogo, sua obra nos convida ao salto. Ou seja, não temos em mãos um livro que soluciona – ou que define – o tempo poético. Ao contrário, temos o embate se dando a olhos vistos, entranhando em nossa tez o inesperado de um tempo que é sempre poético – por ser incessantemente inaugural –, convidando-nos ao exercício de sermos poesia. Como? Despindo-nos de nossas vestimentas conceituais e nos abrindo ao abraço do imprevisível: ficamos de corpo nu, sem pudor, libertos para nos abandonarmos a nós mesmos, uma vez que somos a realização do imprevisto em carne e gesto de humanidade.
Portanto, que nos enredemos por nosso próprio movimento de queda, que nos abandonemos no abismo de ser o pensamento que nos pensa, pois só assim poderemos exercer o desafio de ser, ao mesmo tempo, vida e morte em ciranda: tempo.



[1] Citação retirada do livro em questão.

8 de junho de 2013

26 de maio de 2013

Excerto poético II

Duas camas amanheceram em meu corpo. Numa delas, o pássaro da lua fez seu ninho; na outra, deu-se o desfecho do sol. Cantigas rumaram para a cabeceira dos dois poentes...

21 de maio de 2013

Excerto poético I


Andando em colorações vulcânicas, abri o peito à fulgurância das chamas. Das chispas transeuntes de meu corpo floresceu um salto. No percurso entre queda e chão, dei-me nu de nomes. Chamamentos se fizeram tatuagem em carne viva, e fiquei em pele de palavras...

14 de abril de 2013

Compartilhando minha "Disfunção lírica"


Meus amigos, divido com vocês também aqui pelo blog o meu ensaio “Disfunção lírica”, publicado na edição nº 31 do periódico trimestral Labirinto Literário (o link leva ao blog do Labirinto, porém o periódico é distribuído em pdf, depois de feito sua solicitação). Estou aberto a comentários! Segue o texto:

DISFUNÇÃO LÍRICA
Fábio Santana Pessanha

Eu só sei que foi assim: a poesia me fez poente; deixou-me por do sol em céu de canela e nuvens. Quando eu era fala burocrática, arremedava uns gestos de outrora, umas pencas de passagens, uns compassos de música ensandecida. Mas ainda ficava a bordo do desaviso... Agora, sou verso em mãos crentes, em coração e boca quentes de verbo.
De tão absorto que fiquei, acabei chegando já chegado, porém sem desbocar a coisa dada em frases e conjunções. Mas vou contar o acontecido para que sua vista se festeje em comunhão com todo o corpo.
Eu sempre fui dita por boca desdentada, mas desdentada no pior dos sentidos: sem favas, manhas (mas com muitas artimanhas). Eu era tacada certeira em alvo errado, um achado de coisas desditas. Era uma fala parca, sem pronomes, gerúndios ou gerânios, contudo atacava o verbo de todos os modos. Diziam para eu deixar de ser tola, que não precisava de nada dessa coisa de efusão (confusão que era essa tal palavra que por não ser de mim, me era estranha, nem tão clara, mas muito cara!). Então, me achante que eu era, me fiz rogada e postulada das clarividências dos ditos e desditos. Com gorjeios espúrios, eu era aclamada pela certeza dos meus atos. Afinal, a fala também se desengana quando imersa nas cinzas dos descantos, na rubra febre do comum dos dias antros. Eu era fala na boca de erudito, amassava as curvas das palavras, rubricando nas quadradezas das frases retas. As palavras em dentes eruditos não brincam, são sermões consonantais ao forte sol de meio-dia. De uma infância florida com pulos e riachos, as corredeiras da minha senda se transformaram em relatórios listados e formatados, meus risos guardaram seus colares e meu encanto se enformou amianto. Uma fala sem cintura, não rebolava nem entoava os eflúvios de ninfas encantadoras; era tosca e desdenhosa, tão sem flor quanto chute descalço em pedra despercebida. Enfim, de passagens me tornei paragem. Uma alfinetada no estômago da palavra, cuja queda se fez arremedo de paraquedas. Mas isso foi num então que depois de uns outroras se tornou pois sim. E já digo como foi!
Fala empapuçada de gravata que eu era, com nós cegos, surdos, mudos, decentes e consequentes, um dia me esbarrei com um verso em desvario. De tão desconcertada que fiquei, fui atrás do dito cujo, achando o achado de sua repetilência. Corri atrás do seu rastro, me fazendo desusada de olhares certos. Tive que incorrer na errância para me aproximar da nuança de sua passagem! Que canseira me meti a atrever cores em meu cinza! Para me apegar na poesia, fui desdentrando a certeza que me ocorria e redesvendo a reteza dos meus passos. Dificílimo é desendireitar o direito, quando o antes de seu pleito já fora tão esquecido, que é tido como nunca havido! No de repente de um átimo, uma fagulha fez seu risco no meu céu... deixei-me liso de entraves e fui percorrer o rascunho desse desalinho. Ainda que manca de um olho só, retirei a cera dos ouvidos e me pus a escutar:

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 – Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 – Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 – Percepção de contiguidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 – Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 – Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 – Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.[1]

“A disfunção” dessas palavras me encantou... aí já era tarde e o perdido fez-se pronto! Duvidosa fiquei por esse encanto, pois eu que era manca de palavras, de repente me vi saliente em versos. Mais um outrora me ocorreu, daí pensei que isso, na verdade, já era meu. E fiquei contente!
Ainda descrente, demente, devente desse pranto que mentecaptou minhas vistas linguais, torta dos confusos, me achava presente... estava mesmo era parturiente... Em que cova me metia no desenredo desses meus dias? De nada em nada o muito me fitava há tempos, no entanto a caolhice dos meus atos favoreceu a despresença desse fato.
Sim, eu era zarolha! E o ferrolho dos verbais, mesmo fincando as vestes num corpo ornado em frias calhas, finalmente destravou a tranca dos trepostos à correção e desfechou o desassombro da fala falada, escutada e silenciada, tudo num gesto só. Era a poesia dando sua cara ao abraço...
Então era isso! Estava sofrendo de disfunção lírica! No enlace que tive com o poema, ele me desaguou: “Isso é flerte de palavra que é canto, embora emboscada no recanto do nó, faz de pó os entraves que a prendem. A palavra é lavra de gestação fecunda, não importa o quão se afunda a boca que a detém, é mera e parca a mira do além, pois, num aquém, ela rodopia em florido campal, dando adeus àquele mural de solidão sem igual.”
Fiquei toda sabedosa dessa fábula que era a verdade mais verdadeira de todos os tempos, épocas e chuvas. Não só sofria dos sete sintomas da disfunção lírica como tive multiplicado por incontáveis setes o ritual do palavrar. A fala que eu era, robusta de achados e achismos, propunha a clareza dos meandros formais. Era a etiqueta cravada na boca de quem se indispunha com o prazer de ser verbo. Eu não era verbo, era ponto de frequência no serviço público; roupa passada e engomada, desajeitando a brincação verbal e poesial. Fui aclamada pelo verso e me deixei poema... daí, não teve mais jeito, verti jorrados de palavras, aceitando a inércia; explorando os mistérios irracionais; casando anomalias entre verbos e substantivos; incestando as palavras; amando a desimportância das coisas; cantando as asperezas pedrais e, o melhor – não sei se mais importante, mas o mais divertido! –, comparecendo aos próprios desencontros! Tudo isso multiplicado por muitas outras substancialidades poemais, verbais e corporais. Agora, eu era fala na boca de poeta!
Desses tempos que eu era sem sal, sem curvas ou declives, ainda me lembro, mas com poucas saudades. Toda fala que se preze tem rabicho com poesia, entretanto se esquece desse seu recanto. A fala se engambela em seu próprio atropelo e se torna gagá de pestes roucas, deixando a infância de sua queda para trás, nos esquecidos das lembranças. Porém, basta um susto para que a presença se apresente! De cabelos desgrenhados e roupas amarrotadas por sono mal dormido, a fala da poesia – aquela da infância de outrora, colorida de repiques florais, com versos saindo pelas ventas – vem à tona e se torna dona de sua real palavra. O poema que me cruzou os passos deixou-me ainda mais dentro de mim, com isso fiquei ainda mais no meu encalço para não mais me deixar sem mim.
Com as vistas apropriadas para o imprevisto, eu que era fala desdentada, agora me pus poema de faces variadas. Dou-me em cores, tintas, imagens e palavras. Há quem diga que isso é papo de suporte, mas não mais suporto certas favas, pois de mim que agora sei que sou muitas e várias, dou-me pronta até nos concertos de ataques ornados em tintas. E estar pronto é estar andante... e sempre!
Sou palavra escrita – tanto desenhada no grafismo dos alfabetos quanto nas incertas do pincel em tela, muro, chão, parede ou piolho –, sou fala que vigora no incontável dos instantes, sou rascunho que elabora horizontes, sou qualquer coisa aceita ou desaceita porque estou no antes e depois do depois e do antes. A perda de tempo que se perde comigo em elaborações fulcrais de títulos e constelações também está presente no meu amém. Seja doutor ou escultor, pisante de andrajos ou locutor das ordens dos dias, estou neles e em seus contrários. Sou fala-poesia-escrita-corpo, e estendo meus braços nos abraços a quem não pertenço, porque pertenço aos meus despertencimentos! E nessas andanças, topei com outro eu que assim me cogitou:

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.[2]

A prosa da poesia é um amalgamado de gestos pungentes, cuja lírica prosaica se entretece com enlaces, namoros, sotaques, debates de uma prosódia irrestrita de labiais e consonantais. O poema me diz ser um romance cujo céu se deu em versos, e cujos versos se deram em mundos de ortofonias desusadas de correção, portanto, desortofonias! Porém não porque antagonizam, e sim porque se embrenham, se enfiam no dentro do som caudaloso e suculento do palavrar – que é canto e poema –, portanto, escrita e pintura, portanto, corpo de pele crua. O correto do som são galhos de linhas tortas, cujas rimas e métricas, parágrafos e acentuações, se perdem – ou se acham – no mesurado sem-fim do sol.

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...[3]

Dão nomes e apelidos aos repetidos espasmos de coerência; são doenças bufônicas, estratosferas de vertigens preocupantes de conceitos. Depois que me encontrei no perdido – ou me perdi no meu achado – eu que era fala na boca de sem-dentes, agora me guarneço de despropósitos. Mas despropósitos necessários à vida de um verso, este que se extingue no depois de um sopro de aleluia.
Sou fala de poesia falada, cantada, grifada, grafada, ornamentada, desdenhada, desenhada, pré-ocupada, pintada nas quitandas dos mestiços esquivos de poentes, e disso me dou conta! Eu que era tola, agora sem querelas sou por elas – aquelas de paixão latente, porém bastante condescendentes –, as musas, de fato. Mitos, artefato de labor lingual, gestual ou mundal, são com elas que me percebo diferente, isto é, bastante presente no prelúdio dos meus dias, assim como no presságio das auroras.
Eu que era preocupada com grifes e composturas, agora ouço as desigualdades das árvores. Os poemas me trazem a mim o propósito de ser nada, com bastante afeto, e digo isso bem direto. Sou fala na poesia da canção, e me permito o erro de uma gramática que, quando bem usada, nada tem de redução. Para usá-la bem, é preciso perder o medo do confuso, ser com este o guardião do desuso ao qual o contínuo uso fez de regras e perfeições a referência de uma moção. A língua é minha casa, o Português o meu refrão, com ele penso, choro, amo, desfruto, gozo, sou todo eu e muito outro. Não posso temer as incongruências, não posso correr das regências, faço eu minha própria música, pois, esta sim, é escrita de perdição. Ser corpo, ser palavra, ser coisa jogada ao vento tal qual voo de pássaro em rasgação urânica: isso também é escrita, isso também é gramática, só que com outro nome, dada de outro jeito.
De tanto lirismo comedido me alimentei, sinto na pele a dificuldade de dizer “não” ao preciso e correto, mas me percebi farto dele. Como rogou a mim o poema que cruzou minha andança, “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”! E libertação, percebi com o rascunho dos versos, é também assunção do golpe, salto no fundo da palavra, quando a estrutura do nome se funde, se confunde, na criação de invencível pronome. Sim, “olho e comovo-me”, me movo com o andante perdiz do verbo... sou fala na poesia e na escrita, pois sou rabisco e borrão, merda e palavrão. Quero a beleza do estrondo, o gosto do escarro, o oco do nervo que me faz gozar. Não quero mais nada que não seja a brincadeira de ser palavra, seja lá como a palavra for!
Esse foi acontecido daquele meu dito! Assim me fiz presente! De arrogante soco no lábio da palavra, agora sou beijo na nuca do amor. E sem “motivo” algum me despeço já no apreço de mais um verso, este que deságua e se multiplica em ouvidos e corações prementes:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.[4]



[1] BARROS, Manoel de. “A disfunção”. In: Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, pp. 399-400.
[2] BANDEIRA, Manuel. “Poética”. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 129.
[3] PESSOA, Fernando. “XIV”. In: O Eu profundo e os outros Eus: seleção poética. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 148.
[4] MEIRELES, Cecília. “Motivo”. In: Viagem – Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967, p. 9.


2 de abril de 2013

Disfunção lírica

Saiu a 31ª edição do periódico trimestral Labirinto Literário, e nela participo com o ensaio “Disfunção lírica”. Daí, convido-os a dividir sua leitura comigo!
Para quem se interessar, é possível receber as edições do LL por e-mail, inclusive o presente número. Para isso, basta se inscrever no site do Labirinto Literário.


27 de março de 2013

Ensaio sobre Virgílio de Lemos na Revista Gláuks


Foi ao ar ontem a Revista Gláuks, Volume 12, nº 2. Nessa edição, participo com o ensaio “O encorpar-se poético em Virgílio de Lemos”. A revista está disponível em http://www.revistaglauks.ufv.br/edicao/12/Vol12-N2--JULDEZ-2012.
Confiram!

14 de março de 2013

Um poema para Virgílio de Lemos

Um poema para meu amigo, o poeta moçambicano Virgílio de Lemos. Sua obra alimentou minha escrita, deu impulso às minhas letras. Com seus poemas, amadureci meu olhar para o mundo, num momento em que me debrucei sobre seus versos e, em diálogo, compus meu próprio horizonte. Obrigado, caro amigo!
Antes que se perguntem, esta não é uma postagem por homenagem fúnebre. O Virgílio está vivo, vivíssimo em corpo, alma, música e poesia. Se hoje tem a saúde fragilizada por conta da corrida cronológica que a todos têm; embora hospitalizado, sua verve não tem fim, sua canção continua forte no tempo do sem-igual.
A você, querido amigo, dou este poema e mando bons fluidos para que volte à urgência do caos dos dias:


Entre mar e ilha: poesia
Para meu amigo Virgílio de Lemos

Uma onda bate em meu mar,
nuas mãos percorrem meu olhar
diante do infinito anoitecer.

Para ser a língua que me habita
dou-me todo à sutileza e ferocidade da palavra,
sendo voz e gesto na criação,
anúncio em cor e pele de gestação.

Pela música e outonais bacantes,
sou todo lavra no labor dos versos:
anversos cingidos pelo sal do meu oriente,
pelo sol do meu poente.

Sou ilha em mar alado,
universo mítico na mística da canção;
uma composição dual,
uma dissonância que me retém,
deixando-me fértil para o além do imprevisto.

Sou poeta,
sou poesia nascente,
sou onda que bate em terra
na escrita de paisagem latente.

Um pintor de palavras,
cuja tela é o rascunho de um punho,
cuja obra é a errância dos silabais:
erotismos minerais de corpo pungente.

Sou ilha andante,
crepúsculo jamais findo,
pois do átimo de um meio-dia
me refaço inteiro pelo canto
dos outeiros da poesia.



30 de dezembro de 2012

Corporal


Poesia corporal é música de palavra nua. Suas vestes recaem aos pés de semitons ornados em crepúsculo, alçando o levante dos ensurdecidos gritos de silêncio. São campos vastos onde a vermelhidão do sol colora o inalcançável dos olhos, onde os ouvidos registram apenas sussurros de cantos impronunciáveis.
De quem é a voz que toma o poeta na urgência do seu corpo? Quem corre nos arvoredos ensandecidos mediante os sazonais de auspícios canoros? Que pele pede o canto do verbo durante o interlúdio do suor?
A boca está nua... os dentes desenham o desejo no corpo que tocam, compondo uma tez de sorrisos largos e perdidos. O gosto está no corpo todo, gestualizando o inefável de uma palavra. O corpo é todo nu, todo pele, vento, furor e abismo. O corpo não teme, o corpo não sabe. O corpo erra... reluz a sinfonia de cores mudas, de ondas profundas num mar que é todo fundo e raso.

2 de novembro de 2012

Corpo e suas contradições: poesia


Poesia que me recobre, me descobre corpo fértil para o nada, para o imprevisto de ser a acontecência do real. Realidade improvável, incerta na composição da terra onde se plantam os pés e se colhem arvoredos de imagens e sons. Uma antiga floresta cultivada no interior do que não se vê no olhar, presente no gesto único e inefável da pele, e esta não se diz apenas limite físico, mas horizonte em que se perde o que nunca se ganhou.
Perder não é deixar de ter. Perder é ingerir a inconstância do real ao se dar contrária à nossa vontade. Perder é perder-se no inominável sentido de ser o que não somos. Ser o que não somos diz vida se dando naturalmente, e o natural é isto que não sei dizer.
Falo, volteio, indago o próprio existir. Lanço-me nu em seus braços: poesia que se diz no calado dos passos surdos, na clemência por um algoz sem voz que me afaste da tentativa de acertar o ritmo; que me destitua do razoável senso prático em ser apenas o que está ao alcance do meu olhar.
Mas como ser o que não sou? Como dar o que não tenho? Como impedir que a noite recubra o que vejo nos lampejos de lua?
Às vezes a lua se oculta nos braços da noite, fazendo amor com as estrelas e gozando em pleno sol. Aparece redonda e brilhante, pronta para a escassez de sua forma, preparando seu corpo para outro momento de plenificação: gestação. Sua forma é seu corpo, e forma é o modo como o corpo se dá, aparecendo no limite do que se revela. O corpo é a diferença de ser o que não é quando se lança na figuração do olhar do outro, ou seja, o corpo é o abismo onde se perdem todas as lógicas racionais, todas as certezas pautadas no desenho impreciso da visão. Enganam-se aqueles que conferem ao visto a inteireza do que aparece, pois o que se dá a ver é inteiro não porque é completo, mas porque traz consigo o que não se pode nunca alcançar: o não visto. Dessa forma, o inteiro não está circunscrito no limite da aparição; ao contrário, está disposto naquilo que no limite transborda o visível, que se doa enquanto corpo na aparição ambígua do que é e não é.
Drummond já toca nessa questão em seu poema “As contradições do corpo”. Então, ouviremos o que se diz na primeira estrofe do mesmo:

Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.

O corpo encena sua própria contradição de ser, uma vez que na aparência em que se apresenta rascunha a sutileza do imprevisto. Sua insustentável leveza é sua morada, sua incompletude é a marca com a qual se tange de – e no – tempo, de incomensurabilidade. O que do corpo é meu se perde naquilo que não tenho, pois tudo que tenho só assim posso considerar por já estar pronto, acabado, definido em seu modo de ser e aparecer. Exemplificando: conforme disse o pensador brasileiro Emmanuel Carneiro Leão em uma conferência dada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ,[1] posso dar um objeto que tenho em minha casa, pois o mesmo está definido em seu formato, em sua objetualidade palpável. Mas não posso dar o que sou, já que isso não tenho. Se o que sou é uma doação do Ser que se dá a ver na constituição do meu corpo, então sou a vigência do vir-a-ser de mim enquanto o sendo, portanto, o próprio do que sou. E o que sou nem a mim cabe dizer, pura e simplesmente porque não me sei.
Outra questão importante que vemos no poema de Drummond é que somos o outro de nós mesmos. Se por um lado podemos pensar numa descompassada cisão entre corpo e alma, Id e Ego, ou qualquer dessas oposições que encontramos no percurso do pensamento moderno;[2] por outro, percebemos que não há oposição na realização do corpo, e que a corporeidade do real é em si o próprio paradoxo de ser o que não é. Em outras palavras, “o que a mim de mim ele [o corpo] oculta” é aquilo que inevitavelmente já é meu, porém que ainda não se deu a ver. Na assunção do meu próprio (do que inegavelmente sou) é que isto que não sei, que está oculto, se revela ao mesmo tempo em que se resguarda na essência do Ser. Portanto, sou – e cada um é – simultaneamente salto e vertigem, luz e sombra reunidas na clareira misteriosa do nada: o nada criativo: o tò mé ón[3] de Platão, ou seja, o vazio necessário para que algo se dê, o vir-a-ser do que é e não é. Na conferência à qual nos referimos, o professor Emmanuel Carneiro Leão nos lembrou de que só há música quando há pausa, e essa pausa é o silêncio para onde vão e de onde vêm as notas musicais.
O poema faz referência à “ilusão de outro ser”, e disso podemos cogitar o modo como a interpretação viva e originária de mim se dá no olhar do outro. O que o outro vê de mim é uma imagem criativa, da mesma forma que o que vejo de mim é uma interpretação doada daquilo que não sei e que a todo instante se dá a ver tanto em pele quanto em poesia. Isto é, o poético é a inaugurabilidade do real, manifestando-se em realidade. E isto quer dizer que o que sinto é uma tinta que se soma ao incontável luzente da paleta de um pintor e, nesse caso, o “pintor” é o real. Não por ser um agente, mas por resguardar e ser a essência do que se realiza. E isto que se realiza, assim o faz como nota musical, como verso de um poema, como corpo que se lança no improvável de si mesmo. Portanto, somos o outro de nós mesmos tanto quanto percebemos o outro que se difere de nós por este se realizar como nossa diferença. O que quero dizer é que ao tocarmos em algo nos consumamos ao mesmo tempo em que nos consumimos. Contudo devemos nos atentar ao fato de que se o consumar nos leva à plenificação (cum-summare: chegar ao sumo, realizar-se essencialmente), o consumir nos leva à ruína (cum-sumere: chegar ao que esgota). Entretanto, um e outro estão muito próximos e, por que não, ligados; já que se dão mutuamente em tensão. Isto é, realizam-se como limite, como precipício para o phármakon.[4]
Metabolizo aquilo que é diferente de mim – o alimento, por exemplo –, mas só posso fazer disso meu corpo porque já sou a realização de tal paradoxo. Isto é, se posso metabolizar o que é diferente – portanto, daquilo que do alimento ainda não é meu corpo –; ao mesmo tempo, para que tal metabolização ocorra, é necessário uma pré-disposição do alimento em mim. Nesse caso, sou do alimento aquilo que é diferente, mas conforma corpo. Isto nos leva a pensar que sou – somos – radicalmente o vigor da diferença enquanto existência. Somos a contradição viva, mas desvista. Ou seja, contradição não como mera oposição, e sim como movimento incerto, impreciso, errante: agir essencial do poético ao nos tomar e se realizar em nós.
A contradição do corpo não está na divergência antagônica de si em relação à alma ou a ele mesmo. Ao desvermos a contradição que o corpo encena, tomamos posse de nossa própria errância enquanto humanos poeticamente habitantes de nós mesmos. Somos divergência e convergência, somos corpo para muito além de um constructo orgânico, até porque o sentido de corpo que aqui pensamos é o de mundificação. A errância que envia nossos passos ao desaviso de viver é a música que nos leva a cantar nosso próprio nome: poesia.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. “As contradições do corpo”. In: Corpo. 17ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
A INSUSTENTÁVEL leveza do ser. Direção: Philip Kaufman. Roteiro:  Milan Kundera (romance) / Jean-Claude Carrière / Philip Kaufman. 1988.



[1] Ocasião em que aconteceu o IV Seminário de Filosofia Antiga, na UERJ, em 2010.
[2] Pensamento moderno que já se dá por equivocado desde a afirmação que distingue os mundos sensível e inteligível, cuja autoria de tal proposição se atribui a Platão.
[3] Segundo a interpretação do prof. Emmanuel Carneiro Leão, podemos entender essa formulação de Platão como “o não ser”.
[4] Aquilo que tanto pode matar quanto curar, dependendo da proporção. Um remédio (fármaco), por exemplo.

Obs.: Este pequeno ensaio foi publicado originalmente na revista digital Labirinto Literário, na 29ª edição.


14 de outubro de 2012

Curso de extensão: "O sentido poético do corpo em Manoel de Barros e Drummond"


No dia 23 de outubro terá início o curso de extensão O sentido poético do corpo em Manoel de Barros e Drummond, que darei na Faculdade de Letras da UFRJ. Serão oito encontros nos quais nosso único compromisso será com o poético, ou seja, com a queda em nós mesmos! Quem se interessar e quiser maiores informações é só entrar em contato comigo. 

Ah, e para quem se apaixonou pela a ilustração do cartaz, inventada pela Juliana Gelmini, visitem seu blog Insólito Sólido e se encantem ainda mais!



Confiram também a ementa do curso:


Coordenador: Antonio José Jardim e Castro
Professor: Fábio Santana Pessanha
Ementa: A partir do livro Corpo, de Carlos Drummond de Andrade, e de poemas de Manoel de Barros (Poesia completa), pensaremos o sentido poético do corpo na tentativa de chegarmos a lugar algum. Brincaremos com a palavra e daremos as mãos ao absurdo da vida. Nosso único compromisso será com o poético e com a queda em nós mesmos que tal questão – o poético – provocará.

Dias: de 23/10 a 18/12 (terças-feiras) – 8 encontros
Horário: 15:50h às 17:30h
Vagas: 30

Cronograma:

23/10 – Iniciação à queda (possível diálogo com o poema “Matéria de poesia”, de Manoel de Barros).

30/10 – Rascunhando o corpo em notas a partir da leitura do ensaio “Notas sobre o corpo”, de Gilvan Fogel (parte I).

06/11 – Continuação de rascunho com “Notas sobre o corpo” (parte II).

13/11 – Entrando em contradição – leitura e interpretação do poema “As contradições do corpo”, de Drummond.

27/11 – Mergulho no abraço – leitura e interpretação do poema “A metafísica do corpo”, de Drummond.

04/12 – Atrás do vento... – leitura e interpretação do poema “O vento”, de Manoel de Barros.

11/12 – Atravessando o corpo: infância – leitura e interpretação do poema “Infantil”, de Manoel de Barros.

18/12 – Coisas que a gente ainda vai inventar...