11 de fevereiro de 2007

Sinos mnemônicos da antropofagia digital

...a memória me traz os acontecimentos. Melhor: joga-me neles ao mesmo tempo em que me faz acontecer como memorável. Se memória é sentido, aponta um caminho numa dinâmica que é também o próprio caminho...
Lembra-se daquela igreja? Sim, seus sinos ainda são pontuais. Cada badalar ecoa, num instante, as reminiscências de uma dimensão extra. Contudo, sou poeta. Sou a história acontecendo, sou a linguagem em pleno vigor, sou música e musical. Então, o tal instante insta, para, no mesmo momento, deixar de existir como lembrança sob a égide da aniquilação.
As reminiscências extrapolam o lugar do conceito e se abrem mnemonicamente (Mnemósine). É memória viva desde sempre presente. É a possibilidade de todo possibilitar.
Os sinos deixam o altar e se sacralizam no próprio infinito. Mas não se sacralizam como num mecanismo de antes e depois, ou seja, não se configura uma situação em que antes não eram para depois passarem a ser sagrados. Portanto, já desde sempre o são. O que houve foi a destruição da escada após cada degrau alcançado. Daí, os sinos continuam a bater independente de qualquer antropofagia: high-tech... high-tech... high-tech...

High-tech

Na travessia do que vejo,
ao fechar os olhos
o bocejo da musa
sussurra o absurdo do nada.

O dizer que se fala calado
escuta o grito do coma espiritual
dos que repousam a cética liturgia
na hipermodalidade do desigual reflexo

Um toque.
Um clique.
A máquina da evolução
trava o andamento do espanto
ao cerrar a imaginação de outrora.

Fábio Santana

Um comentário:

"(O) Branco" disse...

Na era high-tech, os sinos são mudos e os ouvidos surdos. Felizmente é o contrário com meu amigo!
No percurso ao infinito, conversaremos...