27 de dezembro de 2018

Uma conversa sem eira nem beira


UMA CONVERSA SEM EIRA NEM BEIRA[1]
fábio pessanha

te perguntaria com os olhos como desenhar aquilo que falta nas coisas. se é que falta. se é que coisas. já tentou dizer uma frase sem palavras? como envergar o silêncio nas pernas? você precisaria ver. convite? aceito. mas é preciso ter gramado. as folhas colam nos pés como se fossem galhos. a pele entra no espinho de tal maneira que só ficam rastros pelo caminho. e tudo que se abre rasga. o fio que passa preciso desfaz os vincos da pele. o sangue abre fendas no fundo opaco das retinas.

bebia-se vinho durante as horas de espera enquanto um rinoceronte lia as notícias do dia. entendo por galáxias aquilo que não me chama no nome. às vezes deita, outras some. só com fome se ri sem os dentes. depois me conta com qual arpejo se monta um arco-íris. é preciso quanto para chegar até? vai de ônibus ou de uber? tem mais? e quando chegar, avisa? sei lá quanto tempo leva a metamorfose do barulho no silêncio. nem sei se é metamorfose porque barulho é silêncio. em suspensão. então é um caso de metáfora? quem carrega nos ombros o crespo das palavras não sai ileso delas.

“Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia”

nem sei se é verso essa linha que não chega. essa linha que. essa linha. só sei que é retorno. um ritornelo. volta sempre ao que já era velho. um vício. mas de velho nem mesmo a palavra que nasce a todo instante. obscena. vou escrevendo sem querer. tal qual o gesto daquele corpo cheio de entornos. a gente vai vivendo e vê que é tudo história. ou poema.

                                          “Queria estar com você em Madri
levitar pelo Paseo de la Castellana
degustando um Rioja
comer uma paella
y fazer um poema concreto
com as cascas de mariscos”

e deixar pelo caminho restos de tudo que acendemos naqueles postes impossíveis. subi na contramão de quem dizia ter atropelado a vontade de descer até o fundo de qualquer coisa. quando terá chuva? tem medo de água? quero molhar meus segredos e dançar. mas amanhã é segunda. você vai? depois de torcer os tornozelos até alcançar a nota mais aguda.

já? nem respirar queria. ser eterno no tempo de um fôlego engolido não é para tantos. com quantos dentes se morde a carcaça do que se deixou para dentro da. você fuma? estou tentando começar. acendo todos os dias meia hora de descaso. contanto que me pare estou disposto a dar o troco. e quanto é? quanto não é a pergunta porque é preciso ser menos metafísico e mais ontológico. é preciso entender que

“no bombardeio do instante
enlaçamos com a força de mil tentáculos
o corpo e a exata palavra”

é necessário matar as moscas que entupiram os ouvidos de tanta gente cega. só enxergam palmos e deixam o corpo todo de fora. mas como sair de fora do corpo? deixar a realidade? dá? não é de hoje que te digo isso. não adianta. a avenida já está escura e o relógio marca a hora de dizer que já foi o tempo em que o tempo cabia num ponteiro. é preciso regar a agonia das flores e convidar os pagãos a beber mel descalços. é preciso acender a encruzilhada com atores que vistam a nudez dos joelhos cristãos. à meia-noite? as velas não têm vez na encenação dos leds. então é tudo mentira? como se existisse a verdade.

a exata palavra de um poema concreto sem pensar em que o sinto. o instante enlaçado a tentáculos entre as cascas de mariscos. tentar encostar a palavra na ideia. essa conversa sem eira nem beira. acabou? quando muito se começa a hora se vai no roxo daquela pancada na porta. era tudo vão. o poeta é puro oco. igual à música do Raimundos.

P.S. por causa de uma conversa se vai longe. o quanto se pode dentro do impossível. muita gente passou por aqui, alguns mudos, outros desencontrados. mas dá para mencionar uns, os mais visíveis. o primeiro foi Alberto Caeiro, com o poema XLVI de O guardador de rebanhos. muito difícil ficar longe do Pessoa em tempos de tanta gente cega e de bem. depois veio a Monique Brito, poeta e professora de química da UFF, com o poema “Devaneios clandestinos no lab”, que integra seu livro de estreia (de poemas) Retrato da FARMACÊUTICA quando ARTISTA (Rio de Janeiro: Autografia, 2018), o qual foi finalista do Prêmio Rio de Literatura 2018. depois chamei pra conversa o poeta Carlos Orfeu, com um poema que integra seu livro (in)visíveis cotidianos (Marabá: LiteraCidade, 2017). no mais, não sei de nada.


[1] Publicado na coluna “palavra :alucinógeno”, que assino na Revista Vício Velho.


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