23 de maio de 2016

Aquecimento para oficina em junho!

Galera, mês que vem (junho) terá oficina poética a partir do Caeiro na Biblioteca Parque de Niterói! Será mais um momento do projeto Poéticas!! Aguardem!!
Por enquanto, adianto a ementa e a programação do que vai rolar:

Oficina de poesia: “A palavra como material corporal do verbo”
(carga-horária: 10h)

Ementa: A partir do poema XLVI de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, iremos nos despir das palavras usuais, “raspando a tinta com que nos pintaram os sentidos” e nos lançaremos aos imprevistos da palavra poética.

01/06 - Encontro 1: Despindo a palavra dos seus lugares-comuns.
08/06 - Encontro 2: Exercícios para desencaixotar palavras.
15/06 - Encontro 3: Apropriação das palavras pelo exercício de ser.
22/06 - Encontro 4: Escritos para as várias eternidades que somos.

Atenção!!! As inscrições já podem ser feitas no endereço:




29 de abril de 2016

Módulo 2: Paulo Leminski – Projeto Poéticas

Para quem quiser continuar a descascar o visível das palavras, no próximo módulo do projeto Poéticas  Formação de Leitores Literários nossa conversa será com o poeta curitibano Paulo Leminski. Serão quatro encontros, realizados nas quartas-feiras de maio, na Sala de Multiusos da Biblioteca Parque de Niterói, das 16h30 às 19h, e começará já na próxima quarta (04/05).

Para se inscreverem, acessem o formulário online, disponível no endereço:


Adianto aqui o cronograma das aulas, que está disponível na ficha de inscrição:

04/05 - Encontro 1: Apresentação do poeta e discussão sobre o sentido de poesia em Leminski, a partir do poema “Limites ao léu”.

11/05 - Encontro 2: Discussão sobre o tempo poético e a palavra na poesia a partir dos poemas “não sou o silêncio [...]” e “um poema [...]”.

18/05 - Encontro 3: O imprevisto e o ser poeta a partir dos poemas “soprando esse bambu [...]” e “pare / eu confesso [...]”.

25/05 - Encontro 4: O poema e o poeta: trânsito e interferências a partir do poema “eu te fiz [...]” e do vídeo “poesia etária”, disponível em <http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/07/paulo-leminski-1944-1989.html>. 

Estão todos convidados!



4 de abril de 2016

Projeto Póeticas - Formação de Leitores Literários

Convido a todos que se interessem por se deixar tocar pelo poético a participarem do meu projeto de extensão: Poéticas – Formação de Leitores Literários. As inscrições são feitas por módulos, nos respectivos links disponibilizados tanto lá na página do Facebook da BPN quanto mais abaixo, aqui no blog. Curtam, divulguem e se inscrevam!!! Abaixo, seguem os links para inscrição. Neles há também a ementa e o programa do que trabalharemos em cada módulo, e da oficina! Acessem!


21 de março de 2016

"Quando ler é ser" - resenha do livro Leitura: Questões, de Manuel Antônio de Castro

Foi ao ar hoje a o volume 17, nº 30 da Revista Língua & Literatura – Literatura, leitura e formação de leitores, na qual participei com o texto “Quando ler é ser”. Este escrito diz respeito à resenha que escrevi para o livro Leitura: Questões, de Manuel Antônio de Castro, e se trata de uma obra que mergulha muito densamente na leitura como a questão primordial do ser humano.


Então, fica o convite para aqueles que se interessarem em conhecer a revista. Segue o link direto para minha resenha: http://revistas.fw.uri.br/index.php/revistalinguaeliteratura/article/view/1972/2054. Mas não deixem de visitar os artigos quem compõem a revista em questão. Boa leitura!

Formação de Leitores Literários - Projeto de extensão

No dia 06 de abril terá início meu projeto de extensão, intitulado Poéticas – Formação de Leitores Literários!!!
Vinculado à Pró-Reitoria de Extensão da Unirio – PROExC e em parceria com a Fundação Municipal de Educação de Niterói e com a Biblioteca Pública de Niterói, o projeto acontecerá todas as quartas, das 16h30min às 19h, na sala de Multimeios da Biblioteca Pública de Niterói. Abaixo, a divulgação do projeto e a chamada para o 1º módulo do projeto:



Os interessados deverão entrar em contato e solicitar a ficha de inscrição para o(s) respectivo(s) módulo(s) de interesse. Abaixo, segue o cronograma completo:











12 de fevereiro de 2016

Quando somos instantes num poema inacabado...

*Texto originalmente postado em minha página Verbo In-Verso, na Obvious Magazine.

O que diferencia uma frase usual de um verso? O que dá o estatuto poemático a uma construção verbal, desencadeando realidades, paisagens multiformes no universo das existências que povoam nossos olhares? Respostas são sempre imprecisas e efêmeras, o que interessa é o mergulho no questionamento e a brincadeira (muito séria!!!) de sermos um poema escrito a cada instante...
Um poema nos desafia à leitura de nós mesmos. E não nos enganemos, não é só uma elaboração métrica, classificada na medida de palavras certas. Um poema é perdição e abismo, salto para o infinito entre nuvens e calabouços... Instala mundo, sendo ação e meio do caminho para o existir.
Octavio Paz fala do ritmo como aquilo que determina a diferença entre uma frase prosaica – como ele chama o escrito comum – e uma frase poética: “a função predominante do ritmo distingue o poema de todas as outras formas literárias. O poema é um conjunto de frases, uma ordem verbal baseada no ritmo” (2012, p. 63). O poeta mexicano conduz o foco a uma concentração em que as palavras se erguem pela cadência de sua musicalidade ao se juntarem poematicamente. Nessa perspectiva, o ritmo dá sentido à palavra quando esta encena o devir para cujos rumos os caminhos ainda não foram delineados. No entanto, essa não é uma conclusão, algo cabal, e sim um encaminhamento para pensares. De dentro de um poema brotam virtudes e desimportâncias, dignas de explosões nucleares e escavações sem meio de chegada. Um poema é um fundo sem poço...
O desencadeamento musical de um texto dá margens para libertinagens de sentidos. Nesses empenhos, a natural degustação do paladar se reinventa para experimentações variadas, seja no âmbito da aparência, seja no da silenciosa recriação de nascividades. O poeta, ao dar as mãos à linguagem e ao absurdo das coisas, torna-se um inventor de inutilidades palavrais, e nessa habitação se coloca inteiro. Daí, ao ter em si um conjunto de frases, estas são rearranjadas numa harmonia própria, cujo ritmo já lhes era existente, precisando apenas ser desvelado.
Foi exposta a imagem do poeta, mas poderia ser qualquer um que fosse tocado pelo poético, principalmente se pensarmos com o poema “Glossário de transnominações que não se explicam alguma delas (nenhumas) ou menos”, de Manoel de Barros, que poeta é um “Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu / Espécie de um vazadouro para contradições” (2010, p. 182). Assim, não é necessária a excelência da alcunha de um nome que projeta afazeres letrais e linguísticos, mas basta uma verdade de existência na observância para os próprios vazadouros. A brincadeira verbal no arranjo musical de uma frase está para todo aquele que se escuta. E nessa autoescuta mora a poesia de amanheceres imagéticos, digna das mãos – calejadas ou não – por flores e cores tanto táteis quanto silenciosas.
Há um risco de humanidade em cada escrito que erigimos. Também há uma excessividade latente em todo verso que se firma corporalmente. O poema é um corpo inteiro, dotado de ritmo, morte e transbordamento. Por esse excesso, chega às pessoas e cada uma é tocada singularmente, dançando com as palavras num ritual que entremeia tanto a arrumação de sentidos quanto a inefável invenção de destinos.

Referências

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naif, 2012.

24 de janeiro de 2016

Malabares

Participei do último dia da oficina “Multiplicando Leminski”, na Caixa Cultural – RJ, que é parte do projeto “Experimentação Poética à Máquina de Escrever”, da poeta Aline Miranda. Desse belo encontro numa agradável tarde de sexta-feira, nasceu esse rascunho de poema, de escrita, de miragem verbal ou seja lá o que for... (foto abaixo) da leitura dos versos “deixem-me pensar / que tudo não passa / de uma terrível coincidência”, de Paulo Leminski. Então, resolvi dividir o momento com quem aparecer por este espaço.


O legal de uma experimentação é que ela quase sempre dá errado, mas dar errado é dar certo quando se experimenta! Experimentar e reinventar é nascer a cada segundo... e disso sabem os poetas...

20 de dezembro de 2015

O grito mineral da carne: memória

Ao revisitar meu livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos, lembrei-me de uma imagem que sempre mexeu comigo: “o grito mineral da carne”, presente no poema “Ouamisi”, do poeta homônimo. Na leitura que fiz, percebi também o sentido da questão da memória sendo trabalhada, imiscuindo-se na imagem do corpo, forte presença na poética virgiliana. Então, abaixo reproduzo a leitura que fiz de tal imagem e convido quem quer que seja a partilhar comigo sua leitura:

O “grito mineral da carne”, bela imagem poética que inflama na voz a exorbitância do corpo. Cava o cerne da carne, expurgando o arrebatamento de um bramido subterrâneo. Berro este que é atroz, que costura com dura mineralidade o que perfura e circunferencia fendas de sangue e voz: sumo que se consuma no entoar bravejo do nascimento: ilha. Sua força poética nos leva às profundezas da terra, onde não é possível discernir origem e originado. Nesta passagem, filho e mãe estão unidos pelo grito, são a reunião da progenitora com sua cria numa fala imprecisa – ‘Será que posso falar [...]’ –, cuja vida é o furor do que explode e emana em existência. O grito mineral da carne é o clamor da terra embebida de sangue e cravada de pele, da pele da história de quem suou e remexeu o chão nas culturas, de quem pisou e deixou suas pegadas na memória telúrica, de quem morreu e teve sua vida renascida nos frutos da colheita. Colher é ser histórico na medida em que não há revisita a fatos passados, e sim acolhimento daquilo que se apresenta no ato de uma experiência. Afundar as mãos na terra não é olhar para trás e imergir em recordações, mas trazer para a presença aquilo que se dá no exato momento de sua evocação, e esta é nossa relação com um poema: de presença. Memória é fundamentalmente presença do que se vela.
Assim se finaliza a segunda estrofe: “Será que posso falar de omnipresente osmose / entre o sagrado e o grito mineral da carne?”, pondo em questão a fala imprecisa que ressoa ao se perguntar pelo mistério entre o sagrado e o corpo, pois o grito mineral é também presença de corpo em gosto e cheiro de palavra. A osmose é um “entre” que se encaminha perenemente (permanência) num equilíbrio sempre buscado, porém nunca conquistado, haja vista o poema ser um corpo vivo em crescimento (mudança). A osmose terminaria junto com a morte do corpo, quando o poema não desencadeasse mais realidade alguma, quando não fosse a própria presença da memória. O mistério de irrupção da ilha habita a errância de um corpo que reúne em si o imprevisível de nomeações. Pisar numa terra cuja descendência se presentifica para além da codificação genética aponta à multiplicidade de vivências. Mais ainda, a terra não figura apenas como chão inerte, mas como solo de onde brotam as experiências de vida, o inalcançável e sempre presente no aceno de cada filho seu (Pessanha, 2013, pp. 106-7).

Também deixo o poema completo, pois seria muito injusto não partilhá-lo todo. Assim, cada leitor fica livre para se deixar levar por seus próprios caminhos, pelo corpo da interpretação.

Ouamisi

Será desta luz d’equinócio o manto verde azul
quem te confere teu ar de canto singular?
Será que o mistério vem mais da luz iridescente
que de tua alma errante em busca da vertigem?

Etiópia Sudão Novo Mundo e Extremo Oriente
escravos e canelas, baixelas de prata bordados.
Será que posso falar de omnipresente osmose
entre o sagrado e o grito mineral da carne?

Efebos e mulheres, conquistadores e naus
entre o simulacro de uns, de outros a firmeza,
neste santuário de almas, a génese irrompe

como se o génio da memória e da paisagem
se beijassem na imediatez do que reclamo
e do oceano imprevisível, nascesses tu, ilha.
(Virgílio de Lemos, 2001, p. 17)

Referências

LEMOS, Virgílio de. “Ouamisi”. In: Para fazer um mar. Maputo: Instituto Camões, 2001.

PESSANHA, Fábio Santana. A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2013.

20 de novembro de 2015

XII Simpósio de Pós-Graduação em Ciência da Literatura na UFRJ

No dia 17 de novembro apresentei um rascunho de ideias para minha tese de doutorado, cujo tema é a palavra poética, inventada a partir dos poetas Manoel de Barros e Paulo Leminski. Dessa tensão, muitas curvas farão pouso em minha escrita e cataclismos frasais serão desinventados... Enquanto o trabalho é feito, deixo abaixo o pequeno texto que levei para conversar com os colegas da mesa no simpósio. 

A PALAVRA POÉTICA EM MANOEL DE BARROS E PAULO LEMINSKI
Fábio Santana Pessanha

Manoel de Barros e Paulo Leminski: duas poéticas entrelaçadas por absurdos. Dois universos sobre os quais o debruçamento crítico exige permanência e paciência. Isso porque são realidades que se criam pela brincadeira com e sobre as palavras, quando estas são as meninas que sapecam nuvens nos ensolarados dias das certezas normativas.
A partir da tensão poemática que vejo existir na produção dos dois poetas, pensei em fazer um tipo de biografia da palavra, considerando o que Leminski escreveu em seu ensaio “Arte inútil, arte livre?”, que diz o seguinte: “Cada palavra tem sua história, sua biografia, sua etimologia. Seu uso deflagra uma constelação de subsignificados e sentidos que, em cada idioma particular, tem certo desenho próprio e intransferível” (2012, p. 46). Já em Manoel de Barros podemos observar a atenção e a peculiaridade de seu olhar em relação às palavras numa entrevista que ele concedeu à sua filha Martha Barros para o Correio Brasiliense:

O senhor não fala em público. Por quê?
Porque eu gosto de ser recolhido pelas palavras. E a palavra falada não me recolhe. Antes até me deixa ao relento. O jeito que tenho de me ser não é falando; mas escrevendo. Palavra falada não é capaz de perfeito. E eu tenho orgulho de querer ser perfeito (1990, p. 317).

Como pudemos perceber, o enfoque se concentra na palavra escrita. Nessa que podemos usar formão para retirar excessos, retorcer, entortar até que uma realidade nova exerça sobre nós o domínio para encantamentos não palpáveis. É um processo tenso e difícil. Uma vez que haja empenho em se trabalhar a palavra, vamos só até onde nos é permitido, já que não conseguimos dominar seu voo, tampouco o sentido dela na leitura do outro, ainda que insistamos nesse feito.
Essa biografia da palavra à qual me referi quer dizer que ao concentrar meu foco na poética de Barros e Leminski, será feita uma fabricação de palavrares, tendo em vista o poema como experiência, e não apenas como objeto de análise. Diria que o processo é o inverso: não serei eu quem darei cara e endereço analítico aos poemas, destrinchando sua forma, contando suas peripécias, relegando-os a um dilema já inventando ou tido como insolúvel pela crítica; e sim que aprenderei com ele – poema – toda a dúvida que sua incomensurável história puder me conceder. Não se trata também de expressionismo ou subjetivismo arraigado, mas talvez de um processo de transposição, de atravessamento onde o excesso intelectual não tenha – espero! – a posição central. Desse modo, a expectativa é que poema, poeta e leitor convergirão para um lugar de mutualidade inequívoca e que por essa leitura a palavra poética seja quase surpreendida, e quase porque palavra não é coisa agarrável, tampouco elucidável num estame fixo. Sua ambiguidade nos permite pegá-la, torcê-la e até montá-la, mas isso que pegamos da palavra já é obsoleto no que dela se perdeu e se reinventou nos descaminhos da linguagem. Obviamente, a palavra dá as caras para as teorias, literárias e linguísticas, mas sempre encontra um jeito de escorrer pelos dedos de quem tenta encabrestá-la.
O que acabo de dizer quase entra em contradição com o já mencionado acima a respeito do uso do formão na escultura palavral, na retirada de seus excessos, e isso graças à ambiguidade existencial da palavra poética. Ainda que escrita e palpável por nossa visão, a palavra poética mora no seu declive para arranjos dos mais diversos. Então, objetivando a conversa para o teor da minha pesquisa, apesar do contraponto entre verso gráfico e verso sonoro apontado por Paulo Henriques Britto, ou seja, a distinção entre “a disposição de palavras impressas numa linha com começo e fim definidos” (2014, p. 33) e o “trecho contínuo de poesia que, lido em voz alta, tem um começo e um fim definidos” (idem), respectivamente – importantes para o enriquecimento interpretativo de um poema –, o meu enfoque recairá no sentido transversal da palavra que um poema suscita, no caso, referenciando-me aos poemas de Barros e Leminski. Assim, considerando essa referência, a pintura que o poema tatua em meu ver será corporalmente trazido para o desafio de uma tese que ora começa a dar seus primeiros passos, a qual pergunta por aquilo que se chama poema numa época em que a crise de versos se torna cada vez mais evidente, dada a produção poética contemporânea, quando o poema se excede na perda de expressividade ao tentar parecer um texto em prosa, ainda que essa questão já se mostre desde Baudelaire, com a publicação de seu Pequenos poemas em prosa e em Mallarmé com o texto “Crise de versos”.
Tanto em Manoel de Barros quanto em Paulo Leminski é possível encontrar características desse poema inexpressivo, mesmo que cada um tenha uma pegada bem singular. Assim, o mato-grossense-do-sul – com sua versificação justaposta e surrealizante pelo uso de incríveis imagens – e o curitibano – pela precisão do verso, contenção e concentração da forma em poemas curtos, além do abuso de haicais, sendo até assemelhado a um samurai pela leitura de Leyla-Perrone Moisés (Cf. Leminski, 2013) – apresentam uma interessante tensão ao trazer facetas múltiplas, onde o primeiro é extremamente expressivo na estruturação de seus versos enquanto o segundo alarga sua escrita por uma infinidade de técnicas, desde a densa expressividade até o uso não verbal de construção poética com a colagem de imagens e outras estruturas tipicamente concretistas. Então, arrisco em dizer que essa inexpressividade não é o aspecto central de suas poéticas, e sim características que podemos perceber tendo em vista as discussões atuais sobre o corte do verso e da intenção (ou falta dela) poemática contemporânea, tal qual é possível perceber em poetas como Marília Garcia, Marcos Siscar entre outros. Acredito que mesmo tendo no bojo de suas produções esses lampejos de cortes não tradicionais de versos, são poemas ainda bastante expressivos, principalmente os de Manoel de Barros, cuja vitalidade imagética sobressai e ganha o leitor no susto e, talvez, na vontade que esse leitor até inconscientemente tenha de se tornar seu próprio verso. E aí o verso deixa completamente o estatuto das discussões especificamente poemáticas para abranger um sentido mais verbal, poético-ontologicamente falando, considerando o caráter originariamente grego dado à poesia – poíesis – ou seja, de criação, como Waly Salomão costumava dizer em sua tentativa de resgate desse sentido primeiro de poesia (Cf. o documentário Pan-cinema Permanente, de Carlos Nader, 2007).
Insistindo com minha questão, esta que deu origem à ideia da tese, pergunto: o que diferencia uma frase usual de um verso? O que dá o estatuto poemático a uma construção verbal, desencadeando realidades, paisagens multiformes no universo das existências que povoam nossos olhares?
Penso que um poema nos desafia à leitura de nós mesmos. E não nos enganemos, não é só uma elaboração métrica, classificada na medida de palavras certas. Um poema é perdição e abismo, salto para o infinito entre nuvens e calabouços, pois instala mundo, sendo ação e meio do caminho para o existir.
Octavio Paz fala do ritmo como aquilo que determina a diferença entre uma frase prosaica – como ele chama o escrito comum – e uma frase poética com os seguintes dizeres: “a função predominante do ritmo distingue o poema de todas as outras formas literárias. O poema é um conjunto de frases, uma ordem verbal baseada no ritmo” (2012, p. 63). O poeta mexicano conduz o foco a uma concentração em que as palavras se erguem pela cadência de sua musicalidade ao se juntarem poematicamente. Nessa perspectiva, o ritmo dá sentido à palavra quando esta encena o devir para cujos rumos os caminhos ainda não foram delineados.
O desencadeamento musical de um texto dá margens à pluralidade de sentidos. Nesses empenhos, a natural degustação do paladar se reinventa para experimentações variadas, seja no âmbito visível da aparência, seja no da silenciosa recriação de nascividades. O poeta é um inventor de inutilidades palavrais, e nessa habitação se coloca inteiro. Daí, ao ter em mãos um conjunto de frases, estas são rearranjadas numa harmonia própria, cujo ritmo já lhes era existente, precisando apenas ser desvelado.
Eu trouxe a imagem do poeta, mas poderia ser qualquer um que fosse tocado pelo poético, já que, conforme Paulo Leminski sempre defendeu, o poeta não é só aquele que faz versos, e sim quem se deixa tocar por um poema e ser a existência de seu próprio verso (Cf. Leminski, 2012, pp. 132-3).
Acima, Octavio Paz foi citado por considerar o ritmo como o quesito determinante na diferenciação entre um texto prosaico e um poema. Contudo, o esvaziamento rítmico que toma a poesia contemporânea brasileira, e cujos traços podemos perceber nos dois poetas centralmente aludidos aqui, vem tensionar a discussão, ampliando muito o horizonte dos possíveis estudos a serem realizados no percurso da tese. Com isso, aflora-se em meu olhar o desregulamento rítmico que as poéticas de ambos apresentam. Ficam, então, as seguintes dúvidas: se um poema difere de um texto prosaico pela musicalidade que apresenta, o que acontece quando não demonstra tal feitio, mas, mesmo assim, conserva sua essência poemática? E o que é isso que estou chamando de essência poemática? O que me faz dizer que um poema é um poema quando não denota as características próprias desse tipo de construção?
Tais perguntas são amplas e não é de hoje que são feitas, isso é claro. No entanto, o que me interessa aqui é perceber o quanto desse questionamento em larga escala se personaliza nas poéticas barriana e leminskiana. Portanto, o que tento aqui nessa pesquisa é perceber o traço, o movimento próprio de cada um dentro do mundo que criam em suas escritas.
Há um risco de humanidade em cada escrito que erigimos. Também há uma excessividade latente em todo verso que se firma. O poema é um corpo inteiro, dotado de morte e transbordamento. Por esse excesso, chega aos leitores e cada um é tocado singularmente, dançando com as palavras num ritual que entremeia tanto a codificação de sentidos quanto a inefável invenção de destinos. 

Referências

BARROS, Manoel de. Manoel de Barros. Organização de Adalberto Müller e apresentação de Egberto Gismonti. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2010a. (Encontros).
______. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010b.
______. “Conversas por escrito”. In: Gramática expositiva do chão – Poesia quase toda. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1990.
BRITTO, Paulo Henriques. “O natural e o artificial: algumas reflexões sobre o verso livre”. In: eLyra: Revista da Rede Internacional. Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, n. 3, 2014. Disponível em: <www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/40>.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. “Leminski, o samurai malandro”. In: LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

10 de setembro de 2015

O poeta existe na escultura das palavras

Texto originalmente publicado em: 

Há poucos dias, acordei com estes versos do Manoel de Barros repetidamente em meus ouvidos:

Porque a gente também sabia que só os absurdos
enriquecem a poesia.
(2010, p. 450)

Daí, comecei a pensar que todo poeta é sua palavra, levando-o a diferentes existências. Afinal, existir não é só ocupar espaço no planeta, aumentar a fila da padaria ou encher o ônibus na hora do rush. Acredito que o existir é múltiplo, simultâneo, colorido, impreciso, e por aí vai... O existir não cabe no seu próprio verbo.
A palavra é matéria de existências. Em seu voo se compreendem vidas, em seus pés se constroem caminhos para cujos fins não há meios. A palavra se engravida de linguagem, tornando-se a prole do poético. Em seu peito figuram margens, descaminhos para horizontes.
Todo poeta se pergunta: como chegar à poesia? Como ser o meio de todo caminho, na medida em que o ritmo da palavra se compraz em silêncio? Quando parar de cair, se todo ver(-se) é um salto?
Poetas querem ocupar a latência do verbo, inscrever-se nos raios do sol quando este se põe em rascunhos de imaginação, perceber-se enquanto errâncias e (se) atravessar (com) os caminhos apresentados ao destino de suas dúvidas... No final das contas, todos são (e somos!) completamente pés e calcanhares...
Estar num poema é passear de mãos dadas com o absurdo, fazer amor com o amanhecer e entardecer com um dia nublado... Um poema é sempre um risco para quem se aventura nas esquinas de seus versos, e não tem essa de tema. Não existe poema social, existencial, hermético, monocromático etc... Há, isto sim, o poema e as leituras, e cada corpo poemático encontra o seu abraço... Sempre há um abraço nascido para cada um de nós, e quando o encontramos, realizamos uma leitura. Portanto, não podemos nos enganar com essa ideia de decifrar poemas ou de querer saber o que o poeta quis dizer! Entrar na cabeça do poeta é função de médium – e mesmo assim, fadada ao fracasso! O poema só requer seu abraço e, no cruzamento dos braços, quando os corpos se encontram nessa unidade ambígua chamada interpretação, um mundo acontece e a realidade se realiza como jamais acontecera.
A poesia enriquecida de absurdos monumenta tudo que está fora de esquadro, dá vazão ao riso preso por nomenclaturas. Independente de tamanho ou formato, um poema é uma concentração de porvires. É inefável ao paladar de razoabilidades, mandando às favas toda a arquitetura de cabrestos que tenta reter a poesia em determinada denominação. E aqui precisamos nos lembrar de Leminski, quando diz que poeta não é só quem escreve poemas, e sim todo aquele que se aquece com um verso. Só pra ninguém dizer que estou mentindo: “Poeta não é só quem faz poesia. É também quem tem sensibilidade para entender e curtir poesia. Mesmo que nunca tenha arriscado um verso” (2012, p. 132-3). E com palavra de poeta a gente não discute, quando muito, desconfia e se irradia em outras direções porque, insistindo, nenhum poema é manual de instruções. Poemas são caminhos para nossos descaminhos.
Errar é a condição de existência da palavra. Então, se estamos aqui compartilhando desse tecido de inconstâncias palavrais – e curtimos! –, somos poetas e, consequentemente, somos palavras. Posso ainda arriscar um improviso e dizer que um poema é um salto cuja queda é infinita, e nos encontramos no meio do caminho dessa eternidade... que sejamos sempre um recomeço...

Referências

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. 2ª ed. ampliada. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.

9 de agosto de 2015

Proema

Ando com uma necessidade de palavras, uma pujança que me lança ao caos de margens criadas por fluência de rios. Nessa vertente aural, o córrego que se firma afirma a dúvida constante de uma luz que nunca finda. A cor do brilho paradoxalmente opaco guarda mistérios em seu nome. Ao pronunciá-lo, acho-me perdido no antro de veios telúricos, onde a agonia do que nunca se dirá conduz o olhar ao encontro dum fecundo espelho. Olho minha cara e me transvejo inquieto. O gosto do pôr do sol que me atravessa o peito agora é leito de cânticos. Nunca antes uma palavra me apalpara com tamanho vigor, com ondas calefantes, um ardor verdejante em que rios e mares se transmutam em florestas, e cujas labirínticas folhas acampam ao redor de minha boca. Tudo que digo se perde em redemoinhos... corpos amontoando-se uns aos outros numa fome profícua de arredores. Não há centro, o cume de um enredo é a palavra perdida num tempo ainda por nascer; e o corpo que rompe a glória de existências fertiliza em etéreos úteros o gérmen de futuros passados.

Atualização do dia 24 de janeiro de 2016:

Engraçado como são as coisas... esse título, “Proema”, estava na minha cabeça havia algum tempo e eu achei que realmente já o tinha lido ou ouvido em algum lugar, mas não lembrava onde... Passado um tempo, depois de discussões sobre os limites entre prosa e poesia em Mallarmé, Baudelaire, Paulo Leminski etc., fiz esse texto e o postei. Hoje, revendo o livro Toda poesia, do Leminski, ao preparar o cronograma do curso que vou dar, encontrei o lugar por onde eu já passara e ficara registrado em minha pele mnemônica. Abaixo segue o poema “Proema”, de Paulo Leminski:

Não há verso,
tudo é prosa,
passos de luz
num espelho,
verso, ilusão
de ótica,
verde,
o sinal vermelho.

Coisa
feita de brisa,
de mágoa
e de calmaria,
dentro
de um tal poema,
qual poesia
pousaria?

LEMINSKI, Paulo. “Proema”. In: Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 189.


17 de junho de 2015

O desencontro dos contrários em Paulo Leminski: quando o poeta se restitui à palavra que é

Texto originalmente publicado no site Obvious Magazine, em: http://lounge.obviousmag.org/verbo_inverso/2015/01/uma-cisao-se-abre-nas.html

Uma cisão se abre nas mãos de um colecionador de regras gramaticais para fazer jus ao nascimento do poema. O estratagema das rupturas infesta preceitos, rasga normas, fecunda absurdos, dá margens ao homem voltar a ser palavra.
O poema é tirano: cria reviravoltas no interior do céu e conclama o poeta aos rabiscos na pele da semântica. Seja rascunho, mar, folha, papel ou terra, o poema nasce na velocidade do inefável. O sol é risco luminoso no parapeito da frase encantada por escórias, o poema é glória. O contrário de sua trama funda “desencontrários” na escrita arredia que foge ao ritmo, ao empenho de ser forma fria de métricas e lúcidos porvires.
Paulo Leminski, poeta dos encantos tonais, mora nesse lastro. Sua palavra é cura, cuidado no nascedouro do verbo. No encontro com sua dicção, deixa-se ser linguagem e se confunde nos idos dos poemas. Sua casa é voz, sua cama é foz por onde espumam elocuções desencontradas de acertos linguísticos. O poeta reclama sua fala no vislumbre do verso encostado em absurdos. E confessa:

desencontrários

     Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
     Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
     Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

     Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
     Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
     para conquistar um império extinto.
(Leminski, 2013, p. 190)

A palavra não obedece. Quanto mais recebe ordens, mas urge parafernálias sintáticas. Seus escombros habitam fundos, sua rima exige cores. Mandar a palavra rimar é o mesmo que pescar no avesso do mar, quando peixes lançam anzóis para o fundo do infinito à procura do sentido humano da queda. O humano não tem reza, é fúria e correnteza. E disso a palavra sabe, disso o poeta desconfia, mas insiste! Manda a palavra rimar, e ela desobedece!
Fala-se de tudo: “em mar, em céu, em rosa,/ em grego, em silêncio, em prosa.” O poeta hesita ao se enfiar nesse labirinto de sentidos. Leminski tenta, imerge-se poemático... e insiste! Persegue a sílaba, e ela mostra seus trejeitos: “parecia fora de si”! No silêncio de sua presença, a palavra se desconstrói, reinaugura-se em sua estrutura, inventa o lugar de suas tramas por onde o poeta persiste em errar, e erra por desmando de coerências.
Poetas são serem imprecisos, dormem nos interlúdios das canções, abraçam o pôr do sol a cada entardecer verbal. O verbo é um insulto aos cabrestos normativos porque repercutem ocasos em suas entranhas. E apesar de tantos entretantos, os poetas obstinam-se! Existem no meio do caminho de cada pedra drummondiana, habitam os interstícios vegetais quando prendem o homem na prática do limo barriano, voam Galáxias em Campos de palavras, a fim de monumentar o voo linguístico do poema.
Leminski, tomado pela linguagem, sendo outrado por silêncios e desvãos, insiste! Atravessado pela voz do verbo, não desiste: “Mandei a frase sonhar/ e ela se foi num labirinto.” A frase não sonha o sonho ordenado... Pura ilusão essa intenção de pôr rédeas no ritmo solene da palavra quando ela se deriva em encantamentos! A frase sonha o sonho desencontrado, reinventa o caminho por onde passam os risos dos lábios que ainda não nasceram. Torna o tempo o andor das sagradas mãos, estas que se desenham espalmadas no infinito e por cujos dedos resvalam labirínticos versos. Veios por onde deságuam o prelúdio de uma nova imaginação.
A frase ida num labirinto reconduz a terra à fertilidade. Cada pé enterrado rediz o passo rumo ao seu desencontro, e este é errância palavral, escombros litúrgicos onde joelhos se corrompem sãos. Mas o “pauloleminski/ é um cachorro louco/ que deve ser morto/ a pau a pedra/ a fogo a pique” (Leminski, 2013, p. 102), por isso não cansa, não desanima e insiste: “Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.” Seu destino é ser estância, sua margem o predestina para correnteza, e vai galgando palavra por palavra até limiar o sumo, até descascar o sentido turvo de uma ideia. Sentir, apenas isso, é ser o que se inventa por imagens e imaginações, e disso o Pessoa – outro poeta de desencontros vários – muito bem sabe, conforme vemos no poema “Isto”:

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
(Pessoa, 1980, p. 104)

Tal qual o terraço alçado por cima daquilo sobre o qual não se empreende certeza, Leminski se ergue frontalmente palavral, marginal (de margem, no sentido mais guimarãesrosiano possível), e sua crise semântica vai desobedecendo ao que se chama imposição da ordem natural das coisas.
“Sinta quem lê!”, o comando foi dado pelo mestre do outrar-se – Fernando Pessoa – quando este se desdobrava identitariamente ao ser guiado pelo silencioso abismo da linguagem. Também desencontrado de identidades, Leminski colabora com o desafio de ser turbilhão constante, invencionando letras no emaranhado sintático da língua.
O desencontro dos contrários – “desencontrários” – redesenha a imagem do rigor. Aquilo que se evoca e ordena diverge do chão nos chamamentos rotineiros. É preciso ser torto para cair direito, é necessário perder-se nas próprias ordens para encontrar-se poeta, e sentir... Ser o sentido incoerente das coisas na ambiguidade de horizontes, pois nascer poeta não é fácil... Ser o destino para o que se nasce é mais difícil ainda, mas Leminski insiste!
Tomado pela poesia, esta lhe sopra aos ouvidos: “Dar ordens a um exército,/ para conquistar um império extinto.” A ordenança é um imperativo atado às suas vestes, é um ato que reitera o mandar e desmandar; requer a prestação de contas com seu interlocutor, ainda que este seja uma invenção mal formulada. No entanto, tudo que se extingue é poesia, e se extingue porque morre, porque é vivo. Mas não morre para acabar, e sim para continuar na transitoriedade do que amanhece e se põe ao longe. O longe não é o que está lá, distante dos olhos, mas isso que bate aqui, no peito da palavra; ser onda no mar que quebra inconstante nos olhos de quem sente e vê. Ver é ser mais que aparência, é habitar a imagem que se funda no interior do olhar, no corpo que se irradia a cada gesto, e gesto se remete a gestar: fecundar existências.
Podemos ousar e pensar que a conquista de um “império extinto” seja isso que fomente a imagem da inutilidade poética. Afinal, poesia serve para quê? E que bom que não seja útil para nada, pois se extinguiria (no solene sentido conceitual de não voltar a dar as caras) após findar sua necessidade prática. E o Leminski, fazendo as vezes de ensaísta, ratifica essa ideia:

Quem quer que a poesia sirva para alguma coisa não ama a poesia. Ama outra coisa. Afinal, a arte só tem alcance prático em suas manifestações inferiores, na diluição da informação original. Os que exigem conteúdos querem que a poesia produza um lucro ideológico (2012, pp. 86-7).

Lucrar com o poético seria o mesmo que promover o alistamento para exércitos bastardos de seus próprios colhões. Não há o que dizer da palavra feita para acabar: a poesia é restolho de fim, um fim fértil para nascimentos; e os poetas disso sabem muito bem. Vivem na contínua nascedura de suas falas, na intermitência de horas raras para o nada.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. “No meio do caminho”. In: Antologia Poética. 16ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.
BARROS, Manoel de. “Protocolo vegetal”. In: Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
CAMPOS, Haroldo de. Galáxias. 2ª ed. revista. São Paulo: Ed. 34, 2004.
LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
______. “Inutensílio”. In: Ensaios e anseios crípticos. 2ª ed. ampliada. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.
PESSOA, Fernando. O Eu profundo e outros eus: seleção poética. 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.