3 de abril de 2015

Palavras sopradas para Clarice Lispector

Está no ar na Obvious Magazine um texto meu, intitulado "Um sopro de palavras para Clarice Lispector", que nasceu do impacto que o livro Um sopro de vida, da mesma autora, causou em minhas palavras. Por ora, deixo a chamada do texto, e quem quiser conferir na íntegra um pouco dessa vertigem, é só acessar aqui: http://lounge.obviousmag.org/verbo_inverso/2015/03/um-sopro-de-palavras-para-clarice-lispector.html

Do início da leitura do romance Um sopro de vida, de Clarice Lispector, nasceram palavras encantadas por dúvidas. Um olhar tornou-se vários e o arrebatamento deu-se repentino. Aqui se encontra um momento de morte, um instante-já onde a vida se torna palavra e devires.

Matéria

*Este é um dos 121 ensaios que compõem o livro Convite ao pensar.


Das quatro causas aristotélicas – material, formal, final e eficiente – para a constituição das coisas no âmbito dos entes, ou seja, na dimensão do que é insuficiente para sua própria existência, a causa material diz respeito à matéria pelas quais tais coisas são criadas. Exemplificando, temos a madeira (matéria) extraída para se construir (causa final) uma cadeira (forma). E quem executará tal tarefa (causa eficiente) será o marceneiro. Portanto, a cadeira não existe por si. Foi necessária a intervenção técnica do homem para suprir aquilo que a natureza (phýsis) não é capaz de fornecer. E ainda é preciso dizer que natureza não é só isso que aparece aos nossos olhos e constitui uma paisagem ou a fonte material para um objeto. O sentido grego empreendido pela phýsis é mais amplo e foi esquecido desde sua tradução para o latim natura, de onde temos “natureza” enquanto o que está circunscrito ao limite de nossos olhos. Phýsis não está apenas no que aparece, mas na antecedência do que surge. É o surgimento em sua ação originária.
A tensão entre matéria (hylé) e forma (morphé) estabelece o caráter primeiro da constituição dos entes, principalmente no que diz respeito à relação entre serventia e inutilidade de uma coisa. Queremos dizer com isso que tal tensão empreende uma relação interna na realização de uma coisa, haja vista que tanto o fim a que se determina uma produção coisal quanto aquele que a produz caracterizam sua ambiência externa por não estar presente na composição elementar de um ente.
Matéria diz aquilo que está na antecedência de um produto, na condição para realização de uma serventia. À matéria se confere o caráter de constância, na medida em que trata do repouso concernente a uma coisa. Mais ainda, essencializa-se naquilo que aparece, ou seja, tanto exerce o caráter primordial de habitação silenciosa do vir a ser de uma coisa quanto confere a essa coisa as características que a determinarão como algo específico: “Aquilo que dá às coisas o que é constante e é seu cerne, mas que ao mesmo tempo também causa o modo de seu afluxo sensível, o colorido, o sonoro, a dureza, o maciço, é a materialidade das coisas” (HEIDEGGER: 2010, p. 61).
A implementação formal de uma matéria está em íntima relação com o objetivo a que tal construção se refere. Ou seja, ninguém constrói uma cadeira pura e simplesmente para que ela exista. Há aí uma intenção, um fim, uma finalidade (causa final) a ser cumprida. Portanto, junta-se à tensão entre matéria e forma o objetivo a ser cumprido, o télos. E a essa palavra grega normalmente se atribui o sentido de finalidade, considerando o desgaste metafísico, na dimensão entitativa, a que foi submetida. Contudo, télos em seu sentido originário diz a plenitude de realização: “o télos, o sentido de toda ação, é consumar a atitude, é o sumo desenvolvimento do vigor de sua plenitude. Atitude, como a consumação de todos os sentidos das ações” (LEÃO: 1992, p. 156).
É possível pensar que matéria é a base para qualquer composição artística ou para criação de qualquer objeto, prevendo aí o aspecto de inutilidade ou serventia. Porém, conforme podemos observar em A origem da obra de arte, de Martin Heidegger, isso seria uma postura digna de desconfiança, pois o caráter de obra da obra de arte não pode se reduzir a uma conceituação determinante, considerando que a questão da matéria ocupa o que o pensador chama de terceiro conceito de coisa: “O constante de uma coisa, a consistência, consiste no fato de que uma matéria está reunida com uma forma. A coisa é uma matéria formada” (HEIDEGGER: 2010, p. 61). Daí, por se tratar de um conceito, algo limitado num enunciado, a obra perde sua vigência inaugural para se instalar nos limites de uma conceituação. Contudo, da mesma maneira que não se pode determinar um conceito que solucione uma indagação, também não se pode descartá-lo, pois se incorreria no mesmo problema, mudando apenas o ponto de vista. É uma questão paradoxal, sem dúvida alguma, e é exatamente nessa tensão inequívoca que a matéria prevalece, sendo a constância e a mudança perspectivada de sua enunciação na aferência tanto ao que dá suporte para uma obra de arte acontecer materialmente quanto à superação ou aparição em primeiro plano da materialidade da obra para que esta opere enquanto fundadora do real. E é nessa dimensão paradoxal que se pode afirmar que a matéria é um “princípio de criação” (Cf. CASTRO: 2011).
Matéria não é só essência, ela também se dissimula nas características de uma aparência. A partir do que aparece, entramos em contato com a estética fornecedora de sutilezas e nuances, com o que determina a singularidade presencial de uma coisa. Aqui, estética é colocada a partir de seu sentido originário, provindo de aísthesis, portanto, a abertura para a qual nos dispomos em receber a realidade i-mediatamente (Cf. FOGEL: 2007, p. 43) na pele, com nossos sentidos, que são – em primeira instância – a porta sensorial que nos liga ao que nos toca.
Trazendo a matéria ao centro nevrálgico de sua constituição, uma vez que habita a tensão vigente em seu desdobramento essencial na realização de uma coisa. Essa coisa também pode ser o homem, quando o que está em jogo é o princípio de criação a que se submete. Submeter-se à criação não quer dizer pôr-se como autor de uma obra, pois isso seria vestir-se da ilusão autossuficiente do humano enquanto suprassumo da realidade, ou seja, a realidade estaria em suas mãos.
O princípio criativo do homem está no fato de ele mesmo ser uma obra em deveniência, sendo a incursão histórica de sua exegese no inesperado de seus passos. A apropriação destinal do humano diz sua atuação na paisagem do real, tendo em vista que a obra de arte é o modo não de responder ou de assumir uma autoria, mas sim de, independente da vontade do homem, pô-lo como o aberto para a realização de mundo no operar da arte. E nesse operar, a matéria aparece no luzir de sua tensão com o real.
O homem ao se humanizar interpreta-se concretamente. A matéria subsiste e se instala na ação silenciosa de instauração de mundo pela obra de arte. Se toda matéria necessariamente ocupa uma forma, também necessariamente impõe a dúvida de sua constituição poética, seja desaparecendo num utensílio – dando espaço à sua utilidade – ou aparecendo na inaugurabilidade da obra de arte. A necessidade de outrar-se é própria da matéria, portanto, inerente ao homem.

Referências bibliográficas

CASTRO, Manuel Antônio de. “Aprender com a dança”. In: Travessia Poética. 2011. Disponível em: http://travessiapoetica.blogspot.com.br/2011/01/aprender-com-danca-prof.html. Acesso: 20 nov. 2013.
FOGEL, Gilvan. “O desaprendizado do símbolo (a poética do ver imediato)”. In: Revista Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, nº 171, pp. 39-51, 2007. Trimestral.
HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Tradução de Idalina Azevedo e Manuel Antônio de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. “O problema da ‘Poética’ de Aristóteles”. In: Aprendendo a pensar. Vol. II. Petrópolis: Vozes, 1992.

Referência do ensaio no livro

PESSANHA, Fábio Santana. “Matéria”. In: CASTRO, Manuel Antônio de et al. (orgs.). Convite ao pensar. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014.

24 de março de 2015

Amar... outrações...


22 de janeiro de 2015

Outro texto na Obvious Magazine! Agora é a vez do Leminski!

Caríssimos, saiu hoje mais um texto no meu espaço Verbo In-Verso, na Obvious Magazine! Dessa vez, trago um diálogo com o poema “desencontrários”, de Paulo Leminski. Estão todos convidados a lê-lo e, claro, divulgar o quanto quiser. Se houver comentários, melhor ainda!
Meu pequeno ensaio se intitula “O desencontro dos contrários em Paulo Leminski: quando o poeta se restitui à palavra que é”. 
Abaixo, a chamada do meu texto:

A partir do poema "desencontrários", de Paulo Leminski, é feito um enfrentamento. Mas não no sentido de uma batalha de onde saia um vencedor e um perdedor. Na trama que aqui se erige, todos somos vencedores da difícil condição poemática de ser a palavra que recolhe escombros em seu silêncio. Monumentar o voo linguístico do poema é tarefa de vida e morte para escutas em aprendizagem de abismos. O poeta insiste em sua existência, inscreve-se no que escreve; e de tudo que lemos fazemos parte, restituindo-nos à palavra que somos.

Aguardo vocês!

18 de dezembro de 2014

Existência...


16 de dezembro de 2014

Nó e ventania...


29 de novembro de 2014

Desde quando a palavra é verso? Brincações de palavras com Manoel de Barros


Desde quando a palavra é verso? Desde quando meu nome é pronome dado à alcunha de chamamento? Qual a beleza de uma palavra no rascunho de uma página, a ponto de se tornar canto em boca de poetas?
As tentativas para se dizer o que seja ou não poema são infindáveis. E ainda há a confusão entre poema e poesia para embaralhar ainda mais a situação. Bem, tentando esclarecer essa dúvida ainda que não seja de vez por todas porque o fim de toda vez só existe na fragilidade do rigor científico –, arrisco: poema é produto (??!!). Explico: uma feitura elaborada na costura entre presença, forma, ritmo, melodia, palavras e, se considerarmos o apelo da tecnologia virtual e visual, o manejo com as várias maneiras de um texto (seja ele verbal ou não verbal) se conformar num constructo poemático, ou seja, que inaugura um mundo a cada leitura. E essa ideia de “produto” diz respeito à terminação “-ma que, a partir do grego, tem-se ideia de algo feito, um produto.
Agora, o exposto acima só é possível pela poesia, e esta não está restrita à estética. A estética passa longe, principalmente quando perde seu apelo originário-etimológico: aístesis, que, do grego, diz “percepção”. Estética é o modo produtivo-conceitual da estesia, na medida em que esta perde sua força verbal pelo encarceramento conceitual das várias e muitas correntes teóricas. Poesia, então, não é gênero – ainda que assim muito se propague nos mais diversos estudos teóricos –, e sim movimento, ação. Poesia vem do grego poíesis e está presente não só nas manifestações artísticas, mas em todo acontecimento da realidade, pois o real se realiza poeticamente na medida em que nos apresenta a intangível dimensão daquilo que acontece sob a concretude (que concresce, ou seja, “cresce com”) da vida, da presença, da realidade.
Poesia possibilita o poema, pois é o verbo de toda ação. E verbo, por sua vez, não se restringe às categorias gramaticais. Aqui, sob nosso olhar, verbo se reinventa como tudo aquilo que é movimento, portanto, realidade; mais ainda: vida. O poético, podemos dizer, é um trânsito que trafega nas coisas (lembremos os numerosos estudos do filósofo alemão Martin Heidegger sobre a questão da "coisa") e se reluz em paragens e travessias. Mas não nos iludamos ao pretender arrebatar numas poucas frases o sentido do poético, ou a diferença luzidia entre poema e poesia. Ainda que tenhamos o respaldo da etimologia grega, onde poesia diz ação contínua e originária; e poema, um produto dessa ação, considerando respectivamente as terminações –sis (de poíesis) e –ma (de poema), a melhor maneira de se acolher tais (des)entendimentos é com as próprias obras poéticas. Assim, trago abaixo o poema “Experimentando a manhã dos galos”, de Manoel de Barros, onde encontramos uma possibilidade de se pensar essa questão:

… poesias, a poesia é

é como a boca
dos ventos
na harpa

nuvem—
a comer na árvore
vazia que
desfolha noite

raiz entrando
em orvalhos…

os silêncios sem poro

floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca

cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém

o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros

— e é livre
como um rumo
nem desconfiado…
(BARROS, 2010, pp. 109-10)

Como num suspiro de vento levantando as saias das mentes corroídas por certezas, esse poema de Manoel de Barros diz muito sobre a artesania poética, embora não abocanhe o título de sumo conceito acerca do fazer poético. E poesia não tem recantos, é puro acontecer nas pálpebras de cada dia. Faz seu ninho nos olhares inventivos de quem se permite trançar lua e sol em pleno entardecer, onde os sumiços são alongados no horizonte de quem se atreve a dilúvios verbais.
No poema, lemos que “a poesia é...” e daí se desdobram uma série de imagens impossíveis de serem retidas na linearidade razoável da razão (e digo isso sem medo de incorrer em redundâncias!), até chegar na liberdade “como um rumo/ nem desconfiado...”. Livre são as palavras em gorjeios semânticos, rumando para a inutilidade que nos fecunda libertos em nossas próprias vozes.
Poeta é aquele, arrisco dizer, que se deixa libertar de si no âmbito verbo-imagético, onde passa a ser o próprio prelúdio de sua escuta, o rumor inocente, devasso, infantil ou lúdico de sua perdição em palavras, imagens e silêncios.
Manoel de Barros foi um grande sabedor de inutilidades, deixando-nos o riso solto de palavras descascadas de duras semânticas. Isso, esses “vareios do dizer” (BARROS, 2010, p. 265. Verso da parte VI do poema “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada”), nos ensina mais da tensão poema/poesia do que qualquer compêndio acadêmico dos consagrados fazeres poéticos, com suas regras, infindas normas... E, voltando à pergunta inicial dessa pequena “proesia”, desde quando a palavra é verso?
Ainda não sei responder e espero nunca saber, pois se em algum dia tal resposta aparecer será o fim dos “vareios do dizer” e “vadiações com as palavras” (Id., p. 451)... Poesia não se explica, é para ser incorporada, como já dizia esse poeta das palavras inventadas!

Referências:

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

HEIDEGGER, Martin. “A coisa”. In: Ensaios e conferências. 2ª ed. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2001.

18 de novembro de 2014

Eu e Manoel de Barros no site Obvious

Acabei de estrear meu espaço no site Obvious. Como não poderia ser diferente, fiz minha homenagem ao querido poeta Manoel de Barros, tão importante na brincação do meu olhar para o mundo.
Quem se interessar em ler e comentar, abaixo disponibilizo o resumo do meu texto e o link da minha página. Sejam bem-vindos a este outro espaço das minhas palavras!

Começamos pela pergunta: desde quando a palavra é verso? Desdobramentos, incandescências palavrais, desvios, dilúvios e aflúvios verbais se fazem presentes numa tentativa de mergulho nesse questionamento. E deixo ainda outra questão que se insere nas entrelinhas do texto: quando nos tornamos poema durante orgias com as palavras? (ih, será que estraguei a surpresa??!!)


Minha página na Obvious: VERBO IN-VERSO

Travessuras


11 de novembro de 2014

Descoberta!


3 de novembro de 2014

Pensamento de chuva...


15 de outubro de 2014

Poesia...

“[...] a poesia é o que nos aproxima de nossa morte, pois finca raízes em nossa carne, pondo-nos também em questão. Quando isso acontece, o mundo deixa de ser a realidade estável do senso comum para se mostrar como paisagem de instabilidade. Pois a realidade não é estável, e sua mobilidade é o mistério que nos toma sempre inesperadamente, restando-nos o abismo”.

Referência:


PESSANHA, Fábio Santana. A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2013, p. 60.


2 de setembro de 2014

Lançamento dos livros Convite ao Pensar e O Educar Poético!

Está marcado para o dia 10 de outubro, a partir das 18h, na Livraria da Travessa de Botafogo, o lançamento simultâneo dos livros Convite ao Pensar e O Educar Poético, nos quais participo como ensaísta. 
Anotem o endereço: Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo - RJ.


Caso queiram conhecer um pouco dos livros, em postagens anteriores neste blog fiz uma pequena resenha de cada um deles.

Estão todos convidados!

18 de agosto de 2014

O Educar Poético

Mais um lançamento da Editora Tempo Brasileiro chega a público! Refiro-me ao livro O Educar Poético, organizado pelos professores Manuel Antônio de Castro (UFRJ), Igor Fagundes (UFRJ) e Antônio Máximo Ferraz (UFPA). Com o foco na Educação Poética, onde “Poética” não se resume a um simples adjetivo, neste livro vemos o despir-se do lugar-comum das teorias pedagógicas para o salto no abraço do mistério que reúne o “princípio e o sentido de todas as falas, de todas as escutas”[1] a partir da ação originária do poético; ação esta que aponta, sinaliza, o humano como “parte do mistério de ser”.[2]



Cogitando o educar a partir do poético, com vistas à fertilização de possíveis modos de percepção do sentido de educar, pensou-se numa reunião de diversos olhares para a composição dos textos que se enlaçam nesta obra:

Os professores, os artistas, os pensadores que aqui se reúnem em livro partem de tal horizonte: encontram-se lançados no livre-aberto, conduzidos pelo aberto, perfazendo a existência como esta poética educação. Antes verbo do que substantivo, antes ação (questão!) do que definição (conceito!), educar será toda palavra, corpo, rosto, sentido, destino que se reconheça mistério. Em liberdade.[3]

Contudo nenhuma formulação é criada, nenhum emblema é cunhando para fins de aplicabilidade teórica do que seja a educação. Não há receitas para professores ou profissionais de ensino, e sim a disposição à assunção de um vasto enigma, de um desafio a ser explorado pelo pensar, pela recondução do olhar do educador para si e, consequentemente, para o seu outro na condição de aluno:

Aos que ansiosamente aguardam uma decifração do enigma, seja o do aprender, seja o do ensinar; aos que confiam na sorte de encontrar por estes mundos de página uma nova cartilha, um novo modelo de ensino, respondemos com as peripécias e vicissitudes que atravessam o caminho meditativo das possibilidades. De cada um, intransferíveis, irrepetíveis, sempre singulares, as descobertas. Sobretudo, a descoberta do encobrimento permanente e imediato de si e das coisas todas. Em meio a esses desvelos e véus, o vir a ser mestre e o vir a ser aprendiz se alternam e se confundem nas encruzilhadas inesperadas do humano: pode ensinar apenas quem aprendeu e quem ainda aprende no instante em que ensina. E isso quer dizer: quem desaprende, aprendendo.[4]

Neste livro, participo com o ensaio “Agramática: a desgramaticalização no educar para o poético”, no qual tento pensar a gramática para além do reduzido e ceifador sentido normativo que há muito tempo nos reprime verbalmente. Se tivermos cuidadosa escuta e não nos deixarmos levar pelas retóricas vigentes do cotidiano, seja acadêmico ou das esquinas de nossas ruas, acredito que a gramática – que nos dá margens para pensarmos a agramática, conforme nos diz um poema de Manoel de Barros,[5] ou simplesmente a desgramática – é uma possibilidade de salto para o infinito do poético, quando nos valemos, melhor, nos apropriamos de nossa língua para com ela nos absurdarmos:

A gramática em sua desgramaticalização é um salto na profundidade verbal de ser tudo que se diz na vigência do não-dito. E pela pintura divina da escrita, devemos crer que o mundo se arremete em dores quando a sílaba rasga o silêncio ao acolher o grifo de uma letra. A palavra, em seu conjunto verbo-gramatical, brinca com as criações vindouras, sendo o meio de qualquer enleio, uma vez que sua ressalva é sempre pela alva ou também impura – visto que é gesto e sobressalto – de molecagens sintaticais.[6]

Que todos se sintam convidados a mergulhar nO Educar Poético, nesse desafio de repensar a si mesmos, que consequentemente aponta para a reinvenção do educar a partir do poético, crendo que inventar é o modo mais radical de estar na realidade, convivendo com as diferenças que nos formam, que nos constituem misteriosamente humanos.

Referências

CASTRO, Manuel Antônio de; FAGUNDES, Igor; FERRAZ, Antônio Máximo (orgs.). O Educar Poético. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014.
PESSANHA, Fábio Santana. “Agramática: a desgramaticalização no educar para o poético. In: ______. O Educar Poético. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014, pp. 199-216.





[1] Trecho do texto de apresentação do livro, p. 9. Darei a referência do livro no final da postagem.
[2] Idem.
[3] Idem, pp. 9-10.
[4] Idem, p. 10.
[5] Poeta que regerá o andamento do meu ensaio.
[6] PESSANHA, 2014, p. 210.

27 de julho de 2014

Convite ao pensar

Acaba de sair pela editora Tempo Brasileiro o livro Convite ao pensar. Sob organização dos professores Manuel Antônio de Castro (UFRJ), Igor Fagundes (UFRJ), Antônio Máximo Ferraz (UFPA) e Renata Tavares (UNESPAR), nasceu esse mosaico palavral, fecundado por poesia, filosofia, silêncio e gesto, do qual tenho a grande felicidade de participar como um dos ensaístas.


A ideia desse livro surgiu da necessidade de dar aos alunos – em princípio, de graduação, ainda que não esteja restrito ao âmbito acadêmico – a possibilidade de se infestar de verbo e acontecências semânticas para além do já desgastado sentido comum das palavras. Evidentemente, nada do que já se trabalha teoricamente nas instituições de ensino se exclui, contudo, a grande novidade está na linkagem entre o que se diz ou se pode dizer sobre ideias engessadas conceitualmente e o que advém do mergulho ao fundo vocabular das palavras, numa investida originária que procura o útero do verbo a partir da costura realizada pelos pequenos, mas densos, ensaios presentes neste Convite. Assim, este livro é engravidado pelo horizonte no qual se vê o avesso ambíguo, mas não dicotômico, das já tão batidas determinações dicionarizadas. Audacioso, infestado de circularidade, entradas, entrâncias e reentrâncias, a poesia da palavra se consagra numa rede fundada em 121 possibilidades de quedas e abismos.
Além da necessidade de dar aos alunos perdições por escrito, o grande estímulo para tal exaustivo trabalho partiu de Guimarães Rosa, quando, na famosa entrevista concedida a Günter Lorenz, proferiu: “Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente” (ROSA in LORENZ, 1973, p. 20). E mais adiante nessa mesma entrevista, temos um dizer fulcral e que foi usado como epígrafe do livro: “Cada palavra é, segundo sua essência, um poema.”
Acima mencionei 121 possibilidades abismais. Mas qual mistério por trás desse número, 121? Arrisco um palpite: autonomia de voo na e com a linguagem durante a grafia encantada pelo poético! Sim, 121, não 122 nem 456. São 121 palavras que foram criteriosamente selecionadas para integrar este livro:

O leitor tem em mãos um livro constituído por um conteúdo aparentemente estranho: 121 palavras, às quais correspondem 121 pequenos ensaios de, no máximo, duas páginas. Não se trata de um dicionário, pois não se reduz a um mero levantamento de significados. O que é, então, ou melhor, o que pretende ser este livro? A tal pergunta responde seu título: um Convite ao pensar. Desse modo, não pretende introduzir nada, pois o pensar não depende de introdução. Vivendo, já nos movemos no pensar. Por ele, no questionar, vigoramos.[1]

O trecho acima foi retirado da apresentação do livro, na qual, mais à frente, encontramos:

Procurou-se em cada palavra estabelecer uma dialética, na qual nada se exclui, muito embora se desconfie dos significados dominantes e engessados. Dessa maneira, todas as palavras se interligam e procuram estabelecer um círculo poético de abertura para se compreender melhor o que somos e nos cerca histórica e conjunturalmente. A ligação entre elas dependerá do interesse do leitor, o que será ajudado pelo Índice Remissivo e pelas indicações bibliográficas. Estas têm a finalidade de permitir o aprofundamento das questões.

Quanto à construção, organização interna do livro, o mosaico se estende à diversidade do pensamento encontrado nos 16 autores que escreveram os pequenos ensaios que integram essa rede de 121 palavras:

propusemos o presente livro, convidando diferentes autores para pensarem a poética de cada palavra, contrapondo-a com seu uso banal, cotidiano, desgastado, e resgatando suas possibilidades de inaugurarem sempre novas e poéticas realizações. Assim como os autores se viram livres para dialogar conosco no pensar de cada palavra que lhes coube, os leitores também estarão livres para questionar e que, no diálogo com todas, entrevejam em si as possibilidades que já receberam para se realizarem, de maneira que a vida de cada um se torne um autopoema.

Portanto, não foi erigido apenas um livro teórico, e sim um rearranjo léxico que desempoeira a estabilidade vocabulatória do nosso idioma. As palavras são saltos, fecundações aurais, aórgicas e orgíacas entre realidades que desempenham limites e florações semânticas. O convite está aberto a todos, que sejam bem-vindos!

Referências

CASTRO, Manuel Antônio de et al. (orgs.). Convite ao pensar. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014.
LORENZ, Günter. “Guimarães Rosa”. Diálogo com a América Latina. São Paulo: E.P.U., 1973.




[1] Daqui em diante, todas as citações foram retiradas do texto de apresentação do livro.

26 de junho de 2014

Poema...

“Um poema não quer dizer, ele diz. E esse dizer não é um ‘fazer como’, uma indicação de um caminho a seguir, mas é o próprio caminhar. Ler um poema é se abrir ao indizível, por isso, como podemos dizer que um poema retrata, caracteriza ou luta por algo?
O impacto de um poema não se restringe apenas à explosão subjetiva das sensações, isto é, o poema não está a serviço da sensibilidade, do sensório. Mais do que isso, ele nos convoca a adentrarmos naquilo que não conhecemos sobre nosso próprio; um caminho de procura cuja busca se dá na peregrinação do que estamos sendo, portanto, um ato contínuo de desencobrimento.
Um poema é uma abertura, então devemos lê-lo sem querer respostas, mas de maneira questionante. Devemos ser com o poema”.


PESSANHA, Fábio Santana. A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2013, p. 44.

8 de maio de 2014

Insight

Corpo não serve só para ficar nu.
Muita gente não entende porra nenhuma...
ou quase nada...
ou muito do mesmo.
Às vezes,
sou uma delas,
e nos (des)entendemos.

Se as primeiras imagens que vierem à minha cabeça
quando eu pensar em corpo forem

buceta,
pau,
sexo,

então ainda não cheguei
ao estatuto de pele.

1 de maio de 2014

I Simpósio Internacional de Filosofia Pop

Entre os dias 7 e 9 de maio de 2014, acontecerá na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO o I Simpósio Internacional de Filosofia Pop – Corpos, Imagens e Culturas Híbridas, e no dia 8 (quinta-feira), a partir das 16h, participarei desse evento com a comunicação “Poesia: alucinação poética da palavra”. Abaixo, segue o resumo do meu trabalho. Estão todos convidados!

POESIA: ALUCINAÇÃO POÉTICA DA PALAVRA

A partir da epígrafe “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina” – verso que integra a primeira parte do poema “Seis ou treze coisas que eu aprendi sozinho”, de Manoel de Barros (2010, p. 257) –, partiremos para um percurso no qual tentaremos escutar o sentido poético das palavras, tendo como principal referência os poemas do poeta citado. Isso posto, enfocaremos na tensão entre a palavra acostumada a seu arcabouço dicionarizado e a revisitada pela imersão poética de se pensar em declive de escombros. Provocaremos o sentido “normal” das palavras no intuito de incitar sua corporeidade poética, dialogando ainda com a habitação verbal do humano. Assim, a poesia não será abordada como construção artística, tampouco confundida com poema, e sim aproximada de seu vigor originário: poíesis. Portanto, ao trazermos a ideia íntima, originária, de sua manifestação a partir do que em grego diz a movimentação do que surge e se eleva por si mesma – quando a phýsis é considerada a máxima poíesis, conforme podemos ler no ensaio “A questão de técnica”, de Martin Heidegger (Cf. 2001, p.16) –, teremos como divergir do patamar empoeirado das estéticas ruminantes de conceitos, a fim de nos deixar cair numa procura pela palavra descabida de normalidade. E nessa empreitada inevitavelmente passaremos pela tensão entre homem e poeta.
Considerando o exposto acima, poesia, filosofia, literatura darão as mãos num caminho que se fará dialogante com os estudos tradicionais, porém com ênfase primordial na hermenêutica poética, observando a leitura que faremos de poemas de Manoel de Barros e/ou outros poetas que se fizerem necessários no decurso de nossa escrita.
Retomando a epígrafe citada, cremos que a única maneira de se enfrentar um poema é estando alucinado!  E é este mesmo o verbo a ser usado: enfrentar. No entanto, tratamos de um enfrentamento no sentido de disputa, na qual a vigência da tensão provedora da realidade se dá. Mas não me refiro a qualquer disputa, e sim, por exemplo, à que Heráclito de Éfeso traz em seu fragmento 53, quando menciona a guerra, do grego polemós: “De todas as coisas, a guerra é pai, de todas as coisas é senhor; a uns mostrou deuses, a outros, homens; de uns fez escravos, de outros, livres” (1980, p. 83).
Estamos em disputa todo o tempo, afinal somos o exercício tensional entre morte e vida durante a arquitetura dos instantes em que vivemos. E poesia, conforme já nos referimos a seu sentido mais íntimo, poíesis, diz essa movimentação. É o que deflagra a singular morada do homem no interior de si mesmo, melhor, no crepúsculo onde real, realidade e realização se intimizam pela costura de suas fendas.
Insistimos em nossa existência e, por isso, reiteramos a procissão límbica de nossos pés aos sermos conduzidos sempre ao instante anterior de uma palavra ser despida por nossa boca. E como diz Heráclito, lembrando do fragmento supramencionado, estamos sempre em guerra, em disputa, num meio do caminho para todas as coisas, inclusive para nós mesmos. Então, o que propomos neste momento? Que pensemos um pouco nossa habitação poética, nossa condição errante de ser um infindo rascunho de poema. Portanto, trataremos do sentido poético da palavra, quando ela se nega a permanecer na castidade dos rótulos empoeirados para saltar no abismo da humanidade, cujo salto se refere à disputa, à liminaridade de sermos o acontecimento do “entre-ser”, talvez até em sermos um poema acontecendo, sendo escrito na permanência paradoxal de nossos dias.

Referências bibliográficas

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
HEIDEGGER, Martin. “A questão da técnica”. In: Ensaios e conferências. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

HERÁCLITO. Fragmentos: Origem do pensamento. Tradução, introdução e notas de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1980.

27 de abril de 2014

A violação poética da poesia*

Há quem diga que poesia se explica. Há quem mapeie de gramáticas, semânticas e sintaxes o salto mortal de um verso ao fundo do estômago. Há quem faça de tudo, até rotina de parapeitos em geografia de escadas. Estes existem sim, são muitos e aos montes. Mas há outros também: os que se fecundam por nuvens, que absorvem na pele o fôlego do vento.
Aos primeiros se costuma atribuir listas de nomenclaturas, jargões precisos de títulos, manias e costumes pré-datados. Já os segundos são crias de invenções: forjados por nascentes de sol, são o cultivo do absurdo mediante a esquizofrenia da razão. E são estes que me interessam: os resultantes do amor entre pôr do sol e horizonte.
Indagando o ventre por onde escoam as palavras ainda jamais pronunciadas, confessam-se alegrias de outonos em vertentes de epifania. Nesse lugar, o céu é o alforje em que se guardam rajadas de cores ensandecidas.
Rumo ao epíteto do nome, pensa-se no jardineiro das palavras lavrando num canteiro lógico – de lógos – parafernálias de injunções verbais. A todo troço criado na plantação de sua alcunha, florescem cristas adnominais no cume de orações ao sagrado sentido do silêncio. A esses colhedores de linguagem chamamos poetas, cujo traçado corporal rabisca de luz as paredes do tempo, criando espaços de ubiquidade indelével.
Aos poetas são dadas as confissões de pecados nunca cometidos, mas vividos na pureza de auroras. Mas que fique claro: não me refiro às tolices morais confiscadas de decências que tanto falam por aí. Os pecados da poesia estão na infestação de seu nome, no incesto próprio de reinventuras para os casos, ocasos e acasos de som e travessia. O pecado rompe da própria pele para percorrer os recantos onde a saliva não alcança. O pecado é a palavra travestida de queda e violação.
O poeta viola o cerne do verbo ao cantar o mundo em suas vestes ancestrais. Um corruptor da eloquência dos bons hábitos, onde esses – os bons hábitos – não passam de castidade imprópria para o humano. Uma castidade que deturpa, que ceifa o aroma de maresia do mar.
O poeta é um violador. Corrói com sêmen verbal a brancura falsa de moralidades para reinventar a sujeira de uma vida em chão feito de sonhos e terra batida. O sujo não é o impuro. Na verdade, é o repleto de experiência, o pulo no canteiro do sol, pegando no percurso do seu salto pedaços de música, lixo, incoerências, imprevisibilidades, confetes, palavrões, banho nu de mar, pedrada na janela da vizinha chata, corrida após tocar a campainha de uma casa qualquer, beijo roubado da menina distraída, sorvete de madrugada, o entardecer com um amor... e todas essas coisas ditas e vividas que sempre nos lembraremos como se fossem o agora.
A violação poética da poesia está no peito inflado do vento ao abrir a porta dos fundos de casas transeuntes e fundar o império dos sustos em corpos espantados. Daí, montanhas são levantadas pelo voo de borboletas em trajetórias enigmáticas de paragens, cujo traçado límbico de seu frágil corpo incendeia de absurdo a calmaria de vestes protestantes. O espanto é a transformação do silêncio em ação grávida de escombros palatais, cujo céu da boca é o véu do poético em dias de sol e mar nublado.
O pecado da carne é pressuposto de poesia. Num viril olhar onde o soslaio se apresenta de corpo inteiro, qualquer castração se torna importuno para fluência verbal. O gosto de sal do suor na boca é parte integrante do verso que reclama para si o seu outro durante o orgasmo múltiplo entre corpos, prelúdios e gestos. Nessa orgia de costumes inventados, o que vale é o olhar, e também a pele sentida no frêmito da voz nascida nos instantes da palavra. A poesia está nesse tenso enlace, onde o primogênito do verbo insiste em nascer a cada virada de esquina, a cada sorriso perdido nas dobras de roupas atiradas ao relento de poentes.
Há quem diga que poesia se explica, há quem pense que o peixe nada ao contrário em noites de lua cheia, há quem afirme que beija o cotovelo com os pés nas costas. Há sempre uma possibilidade para o absurdo. Mas de qual absurdo se trata aqui? O poético, recriado a cada vento que espreita a intimidade dos segredos? Ou o conceitual, perdido na poeira das estantes intelectuais?  
O absurdo ao qual nos entregamos é fonte de versos e canções. Porém a dureza da definitiva certeza dos dias refuta o absurdo enquanto nascente de acontecências, tratando-o como o que está à parte da realidade. Daí, é preciso que se diga, esbraveje, berre: nada está à parte da realidade, pois o dentro e o fora compõem o real em sua essência de surpreendimentos, ou seja, tudo que se dá ocorre por intermédio de uma finura inatingível de olhos, porém concreta no que possibilita o ver, velando-se, resguardando-se, vislumbrando-se na multiplicidade que aparece enquanto realidade. A realidade é uma possibilidade de absurdos.
Quero o absurdo para dentro de minhas dúvidas ao desbravar semânticas em concertos de metafonias, pois só assim poderei libertar do jugo do palpável o grito da poesia inflamada desde o peito até o leito de batentes corpos. A poesia mora nessa explosão e também no depois do baque. Na verdade, não há um lugar para sua habitação, pois a poesia é a própria insurgência do habitar. Habitamos poeticamente o mundo enquanto homens encarcerados em nossa singular maneira de ser. Travados entre pele e dentes, o limite de nossos passos se conduz ao desenho dos pés na caminhada para o nada. O nada é o quando de nossa morte, a medida voraz da passagem entre o cravo de uma beligerância e o crivo de remitências consonantais.
Na fala, uma boca se enseja. Na reunião entre pedra, flor e espinho se resigna o absurdo das simultaneidades. A fala se permite em lábios atrevidos de palavras. Em tonais de melodias incandescentes, orações são forjadas ao sagrado infinito dos ventos. E esses vão criando moradas no cerne das pessoas deixadas ao acaso por sua humanidade. Deixar ao acaso, aqui, significa o abandono necessário à morte, e morte é o abandono necessário ao renascimento dos dias de todo instante.
Todo poeta é encontrado por seu desencontro, é deixado de lado pela precisão das horas de refrões batidos, já conhecidos antes mesmo de sua composição. Esquecer a canção conhecida é uma necessidade de criação, uma vez que em todo criar se funda uma perspectiva de ver e ser. Na criação, cria-se o criar, reinventando correnteza de rios nos caminhos sempre trilhados e nunca conhecidos. O que há é reconhecimento, um apetrecho de momentos em que se identifica na diferença o cerne que conduz ao nada o sentido de ser habitação poética.
Poesia não se explica por ser acontecimento sempre acontecente. E na tentativa de se dizer o que é, perdeu-se o fio da meada em trajetórias de cordilheiras. Da poesia nasce o poema e todas as coisas que circundam a cintura da realidade. Agarrar o braço do poema quando ele passa em nossa boca é um estupro desconcebido, sem órgãos genitais, sem suor, sem respiração ofegante. Só há violência e verborragia: falatórios incessantes, descrentes de linguagem.
Diferente do que agora se disse é fazer amor com o poema, pois aí não há necessidade de nomes nem horas marcadas, só há é êxtase infindo, liberdade em ser limite para o salto. Há também reconciliação do não com todo sim pensado e não dito, há corpo inteiro sendo espasmo de infinitude. Não há como haver poema se não houver amor, e na impossibilidade de dizê-lo – o amor –, criam-se tentativas de prisões. O amor não cabe no poema, pois é o sentido anterior ao primeiro canto dos versos.
Um poeta é morte ambulante porque não há amor sem morte. Talvez por isso seja tão difícil ser poema, seja tão doloroso amar com verdade.


*Publicado originalmente na 35ª edição do Labirinto Literário.