Um poeta é aquele que vive sua morte
todos os dias, num adentramento profundo em si. Ser poeta é um ensimesmar-se no
que supostamente se considera ser o repetido do cotidiano. Não existe
repetição, mas presentificação constante da própria morte que é. Ou então,
podemos pensar, a verdadeira experiência da repetição é aquela que exerce em sua
constância a diferença, como lemos em Manoel de Barros: “Repetir repetir – até
ficar diferente”.[1]
16 de outubro de 2013
9 de setembro de 2013
Acontecimentos poéticos – As margens do poético
Entre os dias 09 e 11 de setembro,
ocorrerá no Curso de Letras da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques a IV
Edição do Projeto Acontecimentos Poéticos,
com a temática “As margens do poético”. Aproveito para divulgar que no dia 10
participarei da mesa-redonda “A poética na margem” com um trabalho intitulado “O
homem e sua condição de margem”, tendo início às 20h30. Para quem se
interessar, é só aparecer! Segue a programação do evento:
PROGRAMAÇÃO
09/09 – 19h
– Abertura
19h 15 – Conferência de Abertura – “O caminhar poético como margem da poética”,
com o Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM - UFRJ)
20h – Café
20h 15 – Mesa-redonda – “Lançamento do livro Caminho, Poética,
Acontecimento, de Fábio Galera” – Moderador Prof. Me. Sc. Tarso do Amaral
(FTESM - UERJ)
Participantes:
– Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM
- UFRJ)
– Prof. Me. Luís Felipe Castro
Alencastro (FTESM - UFRJ)
10/09
19h 15 – Mesa-redonda – Poesia em Língua Inglesa – Moderador
Prof. Me. Sc. Tarso do Amaral (FTESM - UERJ)
– “Allen Ginsberg e a Contracultura”, com o Prof. Dr. Marco Alexandre
de Oliveira (PUC-Rio)
– “A Recepção Criativa de Dover Beach”, com o Prof. Me Alexander
Rezende Luz (UFRRJ)
– “Poesia Confecional: A Vida e Obra de Sylvia Plath” , com o Prof. Me.
Davi Ferreira de Pinho (UERJ)
20h 15 – Café
20h 30 – Mesa-redonda – “A
poética na Margem” – Moderador Prof. Me. Sc. Fábio Galera (FTESM - UFRJ)
– “Um olhar de menino nas margens da poética”, Prof. Me. Sc. Fábio Galera
(FTESM - UFRJ)
– “O homem e sua condição de margem”, Pesquisador Me. Fábio Santana
Pessanha (UFRJ)
– “O poético e os limites da Poética”, Pesquisador Me. André Lira (UFRJ)
11/09
19h 15 – Apresentação de Trabalhos dos
alunos da Graduação em Letras da FTESM
20h 30 – Recital, sorteio de livros etc.
19 de agosto de 2013
Palavra é corpo
Palavra é corpo. Falamos com a profundidade do que somos e não somos em cada desenvoltura de letra, mais ainda, em cada inspiração que infla os pulmões e corrompe o diafragma para se exultar em fonemas, morfemas ou sílabas. O corpo vai junto a cada espasmo de fala, e isto significa que o corpo está se pintando poeticamente na palavra.
Passagem
retirada do ensaio “A ciranda da poesia: palavra: corpo: homem: poeta”, que escrevi para compor o livro Poética e Diálogo:
Caminhos de Pensamento, organizado por mim e outros professores. Tal livro foi publicado em 2011 pela Tempo Brasileiro.
22 de junho de 2013
Tempo e poesia
Meus amigos, quero
dividir com vocês o texto que escrevi para a orelha do livro A Poética do Tempo, de Angela Guida,
editado pela Tempo Brasileiro. Tal livro integra a Coleção Pensamento Poético
que, sob coordenação do Prof. Manuel Antônio de Castro, “[...] tem por
finalidade acolher obras em que se faça presente a unidade poética de arte e
pensamento. Trata-se de obras que têm como horizonte o questionar e o unir
saber e ser. Dessa maneira o pensamento crítico, que as orienta e é inerente a
toda obra poética e de pensamento, se inscreve no originário, onde criticar diz
o vigorar da verdade da realidade em seu dar-se e retrair-se
dialético-existencial.”[1]
Sem mais delongas,
fiquemos abaixo com o que escrevi para a orelha de A Poética do Tempo. E aviso que o meu livro já está em processo
de produção! Aguardem!!
Tempo
e poesia
Fábio Santana Pessanha
O tempo poético, podemos pensá-lo como sendo rascunho de poesia, a
tentativa de agarrar o pensamento no pulo. Então, como não é
possível enlaçá-lo, só nos resta vivê-lo com vistas de horizonte. Como?
Existindo, sendo...
O existir – como
entremeio de vida e morte – é o maior desafio do homem, na medida em que este
restitui sua humanidade ao imprevisto da própria existência. A tomada dessa
consciência é o instante do salto, momento fulcral em que o homem decide pelo
poético, e que Angela Guida soube perceber muito bem nesse livro. Aqui,
estamos diante das veredas que ela traçou e que permeiam a transitividade entre
o homem e si mesmo, como uma das possibilidades de o tempo se dar.
Conforme a autora
comenta, o tempo não será definido, tampouco classificado por inúmeras
categorias teoricizantes: quer seja o psicológico, o cronológico ou mesmo o
poético. O cuidado dela em não se deixar ludibriar pela sedução do já-dito é
evidente, e isso percebemos quando nos deixamos levar pelas mãos de sua fala.
Pois, pelo menor descuido, o poético se tornaria apenas mais uma maneira de se
classificar uma modalidade temporal.
Angela Guida dialoga
ainda com a perspectiva de vários pensadores. E mais uma vez resvala no tênue
limite de se pensar o tempo poético sem que o mesmo se torne mais um paradigma
de delimitação temporal, como já apontamos. Daí, surgem os desdobramentos, isto
é, questões que sinalizam a densidade do tempo, como esquecimento, instante,
memória, tédio, finitude, moira, kairós, impermanência etc. E segundo a
própria Guida: “[...] a busca pelo tempo poético, na verdade, é a busca pelo
pensamento, é a busca pela clareira. E para que tal busca se dê, faz-se
necessária uma ‘aprendizagem de desaprender’, a fim de que possamos nos
libertar de leituras e definições fechadas que, de alguma forma, tendem a
aprisionar o pensamento.”
Por ser todo trilhado
pela tessitura do diálogo, sua obra nos convida ao salto. Ou seja, não temos em
mãos um livro que soluciona – ou que define – o tempo poético. Ao contrário,
temos o embate se dando a olhos vistos, entranhando em nossa tez o inesperado
de um tempo que é sempre poético – por ser incessantemente inaugural –,
convidando-nos ao exercício de sermos poesia. Como? Despindo-nos de nossas vestimentas
conceituais e nos abrindo ao abraço do imprevisível: ficamos de corpo nu, sem
pudor, libertos para nos abandonarmos a nós mesmos, uma vez que somos a
realização do imprevisto em carne e gesto de humanidade.
Portanto, que nos
enredemos por nosso próprio movimento de queda, que nos abandonemos no abismo
de ser o pensamento que nos pensa, pois só assim poderemos exercer o desafio de
ser, ao mesmo tempo, vida e morte em ciranda: tempo.
8 de junho de 2013
Excerto poético III
Quando
o quando é tempo?
Sempre.
Desde
nunca nos perdemos
e
nos achamos nesse ínterim.
26 de maio de 2013
Excerto poético II
Duas camas amanheceram em meu corpo. Numa
delas, o pássaro da lua fez seu ninho; na outra, deu-se o desfecho do sol. Cantigas
rumaram para a cabeceira dos dois poentes...
21 de maio de 2013
Excerto poético I
Andando em colorações vulcânicas, abri o
peito à fulgurância das chamas. Das chispas transeuntes de meu corpo floresceu
um salto. No percurso entre queda e chão, dei-me nu de nomes. Chamamentos
se fizeram tatuagem em carne viva, e fiquei em pele de palavras...
14 de abril de 2013
Compartilhando minha "Disfunção lírica"
Meus amigos, divido com
vocês também aqui pelo blog o meu ensaio “Disfunção lírica”, publicado na
edição nº 31 do periódico trimestral Labirinto Literário (o link leva ao blog do Labirinto, porém o periódico é distribuído em pdf, depois de feito sua solicitação). Estou aberto a comentários! Segue o texto:
DISFUNÇÃO
LÍRICA
Fábio Santana Pessanha
Eu só sei que foi
assim: a poesia me fez poente; deixou-me por do sol em céu de canela e nuvens.
Quando eu era fala burocrática, arremedava uns gestos de outrora, umas pencas
de passagens, uns compassos de música ensandecida. Mas ainda ficava a bordo do
desaviso... Agora, sou verso em mãos crentes, em coração e boca quentes de
verbo.
De tão absorto que
fiquei, acabei chegando já chegado, porém sem desbocar a coisa dada em frases e
conjunções. Mas vou contar o acontecido para que sua vista se festeje em
comunhão com todo o corpo.
Eu sempre fui dita por
boca desdentada, mas desdentada no pior dos sentidos: sem favas, manhas (mas
com muitas artimanhas). Eu era tacada certeira em alvo errado, um achado de
coisas desditas. Era uma fala parca, sem pronomes, gerúndios ou gerânios,
contudo atacava o verbo de todos os modos. Diziam para eu deixar de ser tola,
que não precisava de nada dessa coisa de efusão (confusão que era essa tal
palavra que por não ser de mim, me era estranha, nem tão clara, mas muito
cara!). Então, me achante que eu era, me fiz rogada e postulada das
clarividências dos ditos e desditos. Com gorjeios espúrios, eu era aclamada
pela certeza dos meus atos. Afinal, a fala também se desengana quando imersa
nas cinzas dos descantos, na rubra febre do comum dos dias antros. Eu era fala
na boca de erudito, amassava as curvas das palavras, rubricando nas quadradezas
das frases retas. As palavras em dentes eruditos não brincam, são sermões
consonantais ao forte sol de meio-dia. De uma infância florida com pulos e
riachos, as corredeiras da minha senda se transformaram em relatórios listados
e formatados, meus risos guardaram seus colares e meu encanto se enformou
amianto. Uma fala sem cintura, não rebolava nem entoava os eflúvios de ninfas
encantadoras; era tosca e desdenhosa, tão sem flor quanto chute descalço em
pedra despercebida. Enfim, de passagens me tornei paragem. Uma alfinetada no
estômago da palavra, cuja queda se fez arremedo de paraquedas. Mas isso foi num
então que depois de uns outroras se tornou pois sim. E já digo como foi!
Fala empapuçada de
gravata que eu era, com nós cegos, surdos, mudos, decentes e consequentes, um
dia me esbarrei com um verso em desvario. De tão desconcertada que fiquei, fui
atrás do dito cujo, achando o achado de sua repetilência. Corri atrás do seu
rastro, me fazendo desusada de olhares certos. Tive que incorrer na errância
para me aproximar da nuança de sua passagem! Que canseira me meti a atrever
cores em meu cinza! Para me apegar na poesia, fui desdentrando a certeza que me
ocorria e redesvendo a reteza dos meus passos. Dificílimo é desendireitar o
direito, quando o antes de seu pleito já fora tão esquecido, que é tido como
nunca havido! No de repente de um átimo, uma fagulha fez seu risco no meu
céu... deixei-me liso de entraves e fui percorrer o rascunho desse desalinho.
Ainda que manca de um olho só, retirei a cera dos ouvidos e me pus a escutar:
Se diz que há na cabeça dos
poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de
ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos
poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa
disfunção lírica.
1 – Aceitação da inércia para dar
movimento às
palavras.
2 – Vocação para explorar os mistérios
irracionais.
3 – Percepção de contiguidades
anômalas entre
verbos e substantivos.
4 – Gostar de fazer casamentos
incestuosos entre
palavras.
5 – Amor por seres desimportantes
tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 – Mania de dar formato de canto
às asperezas de
uma pedra.
7 – Mania de comparecer aos
próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam
por dar mais
importância aos passarinhos do
que aos senadores.[1]
“A disfunção” dessas
palavras me encantou... aí já era tarde e o perdido fez-se pronto! Duvidosa
fiquei por esse encanto, pois eu que era manca de palavras, de repente me vi
saliente em versos. Mais um outrora me ocorreu, daí pensei que isso, na
verdade, já era meu. E fiquei contente!
Ainda descrente,
demente, devente desse pranto que mentecaptou minhas vistas linguais, torta dos
confusos, me achava presente... estava mesmo era parturiente... Em que cova me
metia no desenredo desses meus dias? De nada em nada o muito me fitava há
tempos, no entanto a caolhice dos meus atos favoreceu a despresença desse fato.
Sim, eu era zarolha! E
o ferrolho dos verbais, mesmo fincando as vestes num corpo ornado em frias
calhas, finalmente destravou a tranca dos trepostos à correção e desfechou o
desassombro da fala falada, escutada e silenciada, tudo num gesto só. Era a
poesia dando sua cara ao abraço...
Então era isso! Estava
sofrendo de disfunção lírica! No enlace que tive com o poema, ele me desaguou:
“Isso é flerte de palavra que é canto, embora emboscada no recanto do nó, faz
de pó os entraves que a prendem. A palavra é lavra de gestação fecunda, não
importa o quão se afunda a boca que a detém, é mera e parca a mira do além,
pois, num aquém, ela rodopia em florido campal, dando adeus àquele mural de
solidão sem igual.”
Fiquei toda sabedosa
dessa fábula que era a verdade mais verdadeira de todos os tempos, épocas e
chuvas. Não só sofria dos sete sintomas da disfunção lírica como tive
multiplicado por incontáveis setes o ritual do palavrar. A fala que eu era,
robusta de achados e achismos, propunha a clareza dos meandros formais. Era a
etiqueta cravada na boca de quem se indispunha com o prazer de ser verbo. Eu
não era verbo, era ponto de frequência no serviço público; roupa passada e
engomada, desajeitando a brincação verbal e poesial. Fui aclamada pelo verso e
me deixei poema... daí, não teve mais jeito, verti jorrados de palavras,
aceitando a inércia; explorando os mistérios irracionais; casando anomalias
entre verbos e substantivos; incestando as palavras; amando a desimportância
das coisas; cantando as asperezas pedrais e, o melhor – não sei se mais
importante, mas o mais divertido! –, comparecendo aos próprios desencontros!
Tudo isso multiplicado por muitas outras substancialidades poemais, verbais e
corporais. Agora, eu era fala na boca de poeta!
Desses tempos que eu
era sem sal, sem curvas ou declives, ainda me lembro, mas com poucas saudades.
Toda fala que se preze tem rabicho com poesia, entretanto se esquece desse seu
recanto. A fala se engambela em seu próprio atropelo e se torna gagá de pestes
roucas, deixando a infância de sua queda para trás, nos esquecidos das
lembranças. Porém, basta um susto para que a presença se apresente! De cabelos
desgrenhados e roupas amarrotadas por sono mal dormido, a fala da poesia –
aquela da infância de outrora, colorida de repiques florais, com versos saindo
pelas ventas – vem à tona e se torna dona de sua real palavra. O poema que me
cruzou os passos deixou-me ainda mais dentro de mim, com isso fiquei ainda mais
no meu encalço para não mais me deixar sem mim.
Com as vistas
apropriadas para o imprevisto, eu que era fala desdentada, agora me pus poema
de faces variadas. Dou-me em cores, tintas, imagens e palavras. Há quem diga
que isso é papo de suporte, mas não mais suporto certas favas, pois de mim que
agora sei que sou muitas e várias, dou-me pronta até nos concertos de ataques
ornados em tintas. E estar pronto é estar andante... e sempre!
Sou palavra escrita –
tanto desenhada no grafismo dos alfabetos quanto nas incertas do pincel em
tela, muro, chão, parede ou piolho –, sou fala que vigora no incontável dos
instantes, sou rascunho que elabora horizontes, sou qualquer coisa aceita ou
desaceita porque estou no antes e depois do depois e do antes. A perda de tempo
que se perde comigo em elaborações fulcrais de títulos e constelações também
está presente no meu amém. Seja doutor ou escultor, pisante de andrajos ou
locutor das ordens dos dias, estou neles e em seus contrários. Sou
fala-poesia-escrita-corpo, e estendo meus braços nos abraços a quem não
pertenço, porque pertenço aos meus despertencimentos! E nessas andanças, topei
com outro eu que assim me cogitou:
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público
com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr.
diretor.
Estou farto do lirismo que para e
vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os
barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as
sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os
inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao
que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de
cossenos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as
diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos
bêbedos
O lirismo dos clowns de
Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo
que não é libertação.[2]
A prosa da poesia é um
amalgamado de gestos pungentes, cuja lírica prosaica se entretece com enlaces,
namoros, sotaques, debates de uma prosódia irrestrita de labiais e
consonantais. O poema me diz ser um romance cujo céu se deu em versos, e cujos
versos se deram em mundos de ortofonias desusadas de correção, portanto,
desortofonias! Porém não porque antagonizam, e sim porque se embrenham, se
enfiam no dentro do som caudaloso e suculento do palavrar – que é canto e poema
–, portanto, escrita e pintura, portanto, corpo de pele crua. O correto do som
são galhos de linhas tortas, cujas rimas e métricas, parágrafos e acentuações,
se perdem – ou se acham – no mesurado sem-fim do sol.
Não me importo com as rimas.
Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao
lado da outra.
Penso e escrevo como as flores
têm cor
Mas com menos perfeição no meu
modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade
divina
De ser todo só o meu exterior
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre
quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o
levantar-se vento...[3]
Dão nomes e apelidos
aos repetidos espasmos de coerência; são doenças bufônicas, estratosferas de
vertigens preocupantes de conceitos. Depois que me encontrei no perdido – ou me
perdi no meu achado – eu que era fala na boca de sem-dentes, agora me guarneço
de despropósitos. Mas despropósitos necessários à vida de um verso, este que se
extingue no depois de um sopro de aleluia.
Sou fala de poesia
falada, cantada, grifada, grafada, ornamentada, desdenhada, desenhada, pré-ocupada,
pintada nas quitandas dos mestiços esquivos de poentes, e disso me dou conta!
Eu que era tola, agora sem querelas sou por elas – aquelas de paixão latente,
porém bastante condescendentes –, as musas, de fato. Mitos, artefato de labor
lingual, gestual ou mundal, são com elas que me percebo diferente, isto é,
bastante presente no prelúdio dos meus dias, assim como no presságio das
auroras.
Eu que era preocupada
com grifes e composturas, agora ouço as desigualdades das árvores. Os poemas me
trazem a mim o propósito de ser nada, com bastante afeto, e digo isso bem
direto. Sou fala na poesia da canção, e me permito o erro de uma gramática que,
quando bem usada, nada tem de redução. Para usá-la bem, é preciso perder o medo
do confuso, ser com este o guardião do desuso ao qual o contínuo uso fez de
regras e perfeições a referência de uma moção. A língua é minha casa, o
Português o meu refrão, com ele penso, choro, amo, desfruto, gozo, sou todo eu
e muito outro. Não posso temer as incongruências, não posso correr das
regências, faço eu minha própria música, pois, esta sim, é escrita de perdição.
Ser corpo, ser palavra, ser coisa jogada ao vento tal qual voo de pássaro em
rasgação urânica: isso também é escrita, isso também é gramática, só que com
outro nome, dada de outro jeito.
De tanto lirismo
comedido me alimentei, sinto na pele a dificuldade de dizer “não” ao preciso e
correto, mas me percebi farto dele. Como rogou a mim o poema que cruzou minha
andança, “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”! E libertação,
percebi com o rascunho dos versos, é também assunção do golpe, salto no fundo
da palavra, quando a estrutura do nome se funde, se confunde, na criação de
invencível pronome. Sim, “olho e comovo-me”, me movo com o andante perdiz do
verbo... sou fala na poesia e na escrita, pois sou rabisco e borrão, merda e
palavrão. Quero a beleza do estrondo, o gosto do escarro, o oco do nervo que me
faz gozar. Não quero mais nada que não seja a brincadeira de ser palavra, seja
lá como a palavra for!
Esse foi acontecido
daquele meu dito! Assim me fiz presente! De arrogante soco no lábio da palavra,
agora sou beijo na nuca do amor. E sem “motivo” algum me despeço já no apreço
de mais um verso, este que deságua e se multiplica em ouvidos e corações
prementes:
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se
fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.[4]
[1] BARROS, Manoel de. “A
disfunção”. In: Poesia completa. São
Paulo: Leya, 2010, pp. 399-400.
[2] BANDEIRA, Manuel. “Poética”. In:
Estrela da Vida Inteira. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 129.
[3] PESSOA, Fernando. “XIV”. In: O Eu profundo e os outros Eus: seleção
poética. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 148.
[4] MEIRELES, Cecília. “Motivo”. In:
Viagem – Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967, p. 9.
2 de abril de 2013
Disfunção lírica
Saiu a 31ª edição do periódico
trimestral Labirinto Literário, e
nela participo com o ensaio “Disfunção lírica”. Daí, convido-os a dividir sua
leitura comigo!
Para quem se
interessar, é possível receber as edições do LL por e-mail, inclusive o
presente número. Para isso, basta se inscrever no site do Labirinto Literário.
27 de março de 2013
Ensaio sobre Virgílio de Lemos na Revista Gláuks
Foi ao ar ontem a Revista Gláuks, Volume 12, nº 2. Nessa edição,
participo com o ensaio “O encorpar-se poético em Virgílio de Lemos”. A revista
está disponível em http://www.revistaglauks.ufv. br/edicao/12/Vol12-N2--JULDEZ- 2012.
Confiram!
14 de março de 2013
Um poema para Virgílio de Lemos
Um poema para meu amigo, o poeta moçambicano Virgílio
de Lemos. Sua obra alimentou minha escrita, deu impulso às minhas letras. Com seus
poemas, amadureci meu olhar para o mundo, num momento em que me debrucei sobre
seus versos e, em diálogo, compus meu próprio horizonte. Obrigado, caro amigo!
Antes que se perguntem, esta não é uma postagem por
homenagem fúnebre. O Virgílio está vivo, vivíssimo em corpo, alma, música e
poesia. Se hoje tem a saúde fragilizada por conta da corrida cronológica que a
todos têm; embora hospitalizado, sua verve não tem fim, sua canção continua
forte no tempo do sem-igual.
A você, querido amigo, dou este poema e mando bons
fluidos para que volte à urgência do caos dos dias:
Entre mar e ilha: poesia
Para meu amigo Virgílio de Lemos
Uma
onda bate em meu mar,
nuas
mãos percorrem meu olhar
diante
do infinito anoitecer.
Para
ser a língua que me habita
dou-me
todo à sutileza e ferocidade da palavra,
sendo
voz e gesto na criação,
anúncio
em cor e pele de gestação.
Pela
música e outonais bacantes,
sou
todo lavra no labor dos versos:
anversos
cingidos pelo sal do meu oriente,
pelo
sol do meu poente.
Sou
ilha em mar alado,
universo
mítico na mística da canção;
uma
composição dual,
uma
dissonância que me retém,
deixando-me
fértil para o além do imprevisto.
Sou
poeta,
sou
poesia nascente,
sou
onda que bate em terra
na
escrita de paisagem latente.
Um
pintor de palavras,
cuja
tela é o rascunho de um punho,
cuja
obra é a errância dos silabais:
erotismos
minerais de corpo pungente.
Sou
ilha andante,
crepúsculo
jamais findo,
pois
do átimo de um meio-dia
me
refaço inteiro pelo canto
dos
outeiros da poesia.
30 de dezembro de 2012
Corporal
Poesia corporal é
música de palavra nua. Suas vestes recaem aos pés de semitons ornados em
crepúsculo, alçando o levante dos ensurdecidos gritos de silêncio. São campos
vastos onde a vermelhidão do sol colora o inalcançável dos olhos, onde os ouvidos
registram apenas sussurros de cantos impronunciáveis.
De quem é a voz que
toma o poeta na urgência do seu corpo? Quem corre nos arvoredos ensandecidos
mediante os sazonais de auspícios canoros? Que pele pede o canto do verbo
durante o interlúdio do suor?
A boca está nua... os
dentes desenham o desejo no corpo que tocam, compondo uma tez de sorrisos
largos e perdidos. O gosto está no corpo todo, gestualizando o inefável de uma
palavra. O corpo é todo nu, todo pele, vento, furor e abismo. O corpo não teme,
o corpo não sabe. O corpo erra... reluz a sinfonia de cores mudas, de ondas profundas
num mar que é todo fundo e raso.
2 de novembro de 2012
Corpo e suas contradições: poesia
Poesia que me recobre,
me descobre corpo fértil para o nada, para o imprevisto de ser a acontecência
do real. Realidade improvável, incerta na composição da terra onde se plantam
os pés e se colhem arvoredos de imagens e sons. Uma antiga floresta cultivada
no interior do que não se vê no olhar, presente no gesto único e inefável da
pele, e esta não se diz apenas limite físico, mas horizonte em que se perde o
que nunca se ganhou.
Perder não é deixar de
ter. Perder é ingerir a inconstância do real ao se dar contrária à nossa
vontade. Perder é perder-se no inominável sentido de ser o que não somos. Ser o
que não somos diz vida se dando naturalmente, e o natural é isto que não sei
dizer.
Falo, volteio, indago o
próprio existir. Lanço-me nu em seus braços: poesia que se diz no calado dos
passos surdos, na clemência por um algoz sem voz que me afaste da tentativa de
acertar o ritmo; que me destitua do razoável senso prático em ser apenas o que
está ao alcance do meu olhar.
Mas como ser o que não
sou? Como dar o que não tenho? Como impedir que a noite recubra o que vejo nos
lampejos de lua?
Às vezes a lua se
oculta nos braços da noite, fazendo amor com as estrelas e gozando em pleno
sol. Aparece redonda e brilhante, pronta para a escassez de sua forma,
preparando seu corpo para outro momento de plenificação: gestação. Sua forma é
seu corpo, e forma é o modo como o corpo se dá, aparecendo no limite do que se
revela. O corpo é a diferença de ser o que não é quando se lança na figuração
do olhar do outro, ou seja, o corpo é o abismo onde se perdem todas as lógicas
racionais, todas as certezas pautadas no desenho impreciso da visão. Enganam-se
aqueles que conferem ao visto a inteireza do que aparece, pois o que se dá a
ver é inteiro não porque é completo, mas porque traz consigo o que não se pode
nunca alcançar: o não visto. Dessa forma, o inteiro não está circunscrito no
limite da aparição; ao contrário, está disposto naquilo que no limite
transborda o visível, que se doa enquanto corpo na aparição ambígua do que é e
não é.
Drummond já toca nessa
questão em seu poema “As contradições do corpo”. Então, ouviremos o que se diz na
primeira estrofe do mesmo:
Meu corpo não é
meu corpo,
é ilusão de
outro ser.
Sabe a arte de
esconder-me
e é tal modo
sagaz
que a mim de mim
ele oculta.
O corpo encena sua
própria contradição de ser, uma vez que na aparência em que se apresenta rascunha
a sutileza do imprevisto. Sua insustentável leveza é sua morada, sua
incompletude é a marca com a qual se tange de – e no – tempo, de
incomensurabilidade. O que do corpo é meu se perde naquilo que não tenho, pois
tudo que tenho só assim posso considerar por já estar pronto, acabado, definido
em seu modo de ser e aparecer. Exemplificando: conforme disse o pensador
brasileiro Emmanuel Carneiro Leão em uma conferência dada na Universidade do
Estado do Rio de Janeiro – UERJ,[1]
posso dar um objeto que tenho em minha casa, pois o mesmo está definido em seu
formato, em sua objetualidade palpável. Mas não posso dar o que sou, já que
isso não tenho. Se o que sou é uma doação do Ser que se dá a ver na
constituição do meu corpo, então sou a vigência do vir-a-ser de mim enquanto o
sendo, portanto, o próprio do que sou. E o que sou nem a mim cabe dizer, pura e
simplesmente porque não me sei.
Outra questão
importante que vemos no poema de Drummond é que somos o outro de nós mesmos. Se
por um lado podemos pensar numa descompassada cisão entre corpo e alma, Id e
Ego, ou qualquer dessas oposições que encontramos no percurso do pensamento
moderno;[2]
por outro, percebemos que não há oposição na realização do corpo, e que a
corporeidade do real é em si o próprio paradoxo de ser o que não é. Em outras
palavras, “o que a mim de mim ele [o corpo] oculta” é aquilo que inevitavelmente
já é meu, porém que ainda não se deu a ver. Na assunção do meu próprio (do que
inegavelmente sou) é que isto que não sei, que está oculto, se revela ao mesmo
tempo em que se resguarda na essência do Ser. Portanto, sou – e cada um é –
simultaneamente salto e vertigem, luz e sombra reunidas na clareira misteriosa
do nada: o nada criativo: o tò mé ón[3]
de Platão, ou seja, o vazio necessário para que algo se dê, o vir-a-ser do que
é e não é. Na conferência à qual nos referimos, o professor Emmanuel Carneiro
Leão nos lembrou de que só há música quando há pausa, e essa pausa é o silêncio
para onde vão e de onde vêm as notas musicais.
O poema faz referência
à “ilusão de outro ser”, e disso podemos cogitar o modo como a interpretação
viva e originária de mim se dá no olhar do outro. O que o outro vê de mim é uma
imagem criativa, da mesma forma que o que vejo de mim é uma interpretação doada
daquilo que não sei e que a todo instante se dá a ver tanto em pele quanto em
poesia. Isto é, o poético é a inaugurabilidade do real, manifestando-se em
realidade. E isto quer dizer que o que sinto é uma tinta que se soma ao
incontável luzente da paleta de um pintor e, nesse caso, o “pintor” é o real.
Não por ser um agente, mas por resguardar e ser a essência do que se realiza. E
isto que se realiza, assim o faz como nota musical, como verso de um poema,
como corpo que se lança no improvável de si mesmo. Portanto, somos o outro de
nós mesmos tanto quanto percebemos o outro que se difere de nós por este se
realizar como nossa diferença. O que quero dizer é que ao tocarmos em algo nos
consumamos ao mesmo tempo em que nos consumimos. Contudo devemos nos atentar ao
fato de que se o consumar nos leva à plenificação (cum-summare: chegar ao sumo, realizar-se essencialmente), o consumir
nos leva à ruína (cum-sumere: chegar
ao que esgota). Entretanto, um e outro estão muito próximos e, por que não,
ligados; já que se dão mutuamente em tensão. Isto é, realizam-se como limite,
como precipício para o phármakon.[4]
Metabolizo aquilo que é
diferente de mim – o alimento, por exemplo –, mas só posso fazer disso meu
corpo porque já sou a realização de tal paradoxo. Isto é, se posso metabolizar
o que é diferente – portanto, daquilo que do alimento ainda não é meu
corpo –; ao mesmo tempo, para que tal metabolização ocorra, é necessário uma
pré-disposição do alimento em mim. Nesse caso, sou do alimento aquilo que é
diferente, mas conforma corpo. Isto nos leva a pensar que sou – somos –
radicalmente o vigor da diferença enquanto existência. Somos a contradição
viva, mas desvista. Ou seja, contradição não como mera oposição, e sim como
movimento incerto, impreciso, errante: agir essencial do poético ao nos tomar e
se realizar em nós.
A contradição do corpo
não está na divergência antagônica de si em relação à alma ou a ele mesmo. Ao
desvermos a contradição que o corpo encena, tomamos posse de nossa própria
errância enquanto humanos poeticamente habitantes de nós mesmos. Somos
divergência e convergência, somos corpo para muito além de um constructo orgânico,
até porque o sentido de corpo que aqui pensamos é o de mundificação. A errância
que envia nossos passos ao desaviso de viver é a música que nos leva a cantar
nosso próprio nome: poesia.
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de. “As contradições do corpo”.
In: Corpo. 17ª ed. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
A INSUSTENTÁVEL leveza do ser. Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Milan Kundera
(romance) / Jean-Claude Carrière / Philip Kaufman. 1988.
[1] Ocasião em que aconteceu o IV
Seminário de Filosofia Antiga, na UERJ, em 2010.
[2] Pensamento moderno que já se dá
por equivocado desde a afirmação que distingue os mundos sensível e inteligível,
cuja autoria de tal proposição se atribui a Platão.
[3] Segundo a interpretação do prof.
Emmanuel Carneiro Leão, podemos entender essa formulação de Platão como “o não
ser”.
[4] Aquilo que tanto pode matar
quanto curar, dependendo da proporção. Um remédio (fármaco), por exemplo.
Obs.: Este pequeno ensaio foi publicado originalmente na revista digital Labirinto Literário, na 29ª edição.
14 de outubro de 2012
Curso de extensão: "O sentido poético do corpo em Manoel de Barros e Drummond"
No dia 23 de outubro terá início o curso
de extensão O sentido poético do corpo em
Manoel de Barros e Drummond, que darei na Faculdade de Letras da UFRJ.
Serão oito encontros nos quais nosso único compromisso será com o poético, ou
seja, com a queda em nós mesmos! Quem se interessar e quiser maiores
informações é só entrar em contato comigo.
Ah, e para quem se apaixonou pela a ilustração do cartaz, inventada pela Juliana Gelmini, visitem seu blog Insólito Sólido e se encantem ainda mais!
Ah, e para quem se apaixonou pela a ilustração do cartaz, inventada pela Juliana Gelmini, visitem seu blog Insólito Sólido e se encantem ainda mais!
Confiram também a ementa do curso:
Coordenador: Antonio
José Jardim e Castro
Professor: Fábio
Santana Pessanha
Ementa: A
partir do livro Corpo, de Carlos
Drummond de Andrade, e de poemas de Manoel de Barros (Poesia completa), pensaremos o sentido poético do corpo na
tentativa de chegarmos a lugar algum. Brincaremos com a palavra e daremos as
mãos ao absurdo da vida. Nosso único compromisso será com o poético e com a
queda em nós mesmos que tal questão – o poético – provocará.
Dias: de
23/10 a 18/12 (terças-feiras) – 8 encontros
Horário: 15:50h
às 17:30h
Vagas: 30
Cronograma:
23/10 – Iniciação
à queda (possível diálogo com o poema
“Matéria de poesia”, de Manoel de Barros).
30/10 –
Rascunhando o corpo em notas a partir da leitura do ensaio “Notas sobre o
corpo”, de Gilvan Fogel (parte I).
06/11 –
Continuação de rascunho com “Notas sobre o corpo” (parte II).
13/11 –
Entrando em contradição – leitura e interpretação do poema “As contradições do
corpo”, de Drummond.
27/11 – Mergulho
no abraço – leitura e interpretação do poema “A metafísica do corpo”, de
Drummond.
04/12 – Atrás
do vento... – leitura e interpretação do poema “O vento”, de Manoel de Barros.
11/12 – Atravessando
o corpo: infância – leitura e interpretação do poema “Infantil”, de Manoel de
Barros.
18/12 – Coisas
que a gente ainda vai inventar...
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