5 de maio de 2012

Invenção


Invento minha rua,
caminhando passos de caracol.
As pedrinhas vão colando em meus pés,
a areia se transforma em minha pele:
sou chão.

O tamanho do meu horizonte
cabe nas asas de um passarinho.
Sou largo como margens de rio,
profundo como oceanos desconhecidos:
sou folhas de árvores à espera do vento.

Invento minha sina,
desconheço minha face,
desformo as pegadas largadas na terra.
A criação é respaldo de poema:
sou poesia.

28 de fevereiro de 2012

Entre gramática e céu... poesia, miado e mundo!


Hoje eu ia escrever um gato, mas seu miado roubou minhas letras. Daí, tive que descobrir palavras com os dedos no chão. Foi quando a terra saltou com verbo e pululou gotinhas de poesia no céu. Finalmente descobri o que são as estrelas!
Mas uma pergunta logo assustou minhas ideias: e a lua? Demorei-me sonhos e presságios deitado sob a barriga da noite até que muito tempo depois me dei conta de que esquecera do gatinho que travessurou minha escrita, embaralhando minha gramática.
Espantei-me, dando um salto de felicidade, quando percebi que o gato me olhava o tempo todo: seus olhos eram a lua!... E a gramática, poesia para aqueles cuja palavra não se amarrou no poste vernacular.

6 de janeiro de 2012

Ser criança...


Às vezes...
sou tomado por pensamentos de outono...
Talvez porque esteja outonando,
me envergando para dentro...

... daí, me dou em folhas secas ao chão,
sirvo então de adubo,
de alimento à terra...

Quando eu crescer...
Ah... quando eu crescer...
... quero ser criança...

14 de dezembro de 2011

Palavra


“A palavra não se detém em cabrestos gramaticais, os quais tentam registrar com normas a insurgência de assonâncias sintáticas e coerências. A palavra não tem coerência, o que tem coerência é o que se diz sobre a palavra, mas o que se diz sobre a palavra se afunda no seu próprio enunciado, pois quando um morfema aparece para reter o sentido nevrálgico de uma sílaba, a palavra – menina travessa com pés descalços e cabelos ornamentados com flores – se liberta do jugo semântico-sintático para fundar um novo nome, um novo sentido, um novo chão para pisar e fazer traquinagens. A palavra é travessa por natureza, rumina inconstâncias, tange com mel o labor sinestésico de uma escrita, é fugaz, contraditória, avessa a fórmulas e dicionários. A palavra é a liberdade se dando ao vento, fazendo-se onda no mar, salto sem paraquedas no fundo do céu.”

PESSANHA, Fábio Santana. “A ciranda da poesia: palavra: corpo: homem: poeta”. In: PESSANHA, Fábio Santana et al. (orgs.). Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 234.

8 de dezembro de 2011

Inesperado


“o inesperado é a flecha lançada no escuro, cujo alvo vai se inventando durante a trajetória do voo; o inesperado é o primeiro beijo na adolescência infantil, quando o mundo ainda sussurra puras incoerências ao pé do ouvido; é a molecagem de se palavrar brincadeiras, de se ritualizar o corpo, de dançar com a linguagem”.

PESSANHA, Fábio Santana. “A ciranda da poesia: palavra: corpo: homem: poeta”. In: PESSANHA, Fábio Santana et al. (orgs.). Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 237.

28 de outubro de 2011

Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento

Meus amigos, segue o cartaz de divulgação do lançamento do livro em homenagem ao Prof. Manuel Antônio de Castro, à Poética, à arte, ao pensamento! Quem quiser aparecer, é só chegar!


20 de outubro de 2011

Evento de lançamento do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento

Meus amigos, saiu hoje uma nota no site da UFRJ a respeito do evento de lançamento do livro que organizo junto a outros professores: Bianka Barbosa, Antônio Máximo Ferraz e Maria Ignez Calfa. Tal livro é uma homenagem ao professor Manuel Antônio de Castro.


Reproduzo abaixo a notinha:

Será realizado, no dia 11 de novembro, o lançamento do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento, em homenagem ao professor Manuel Antônio de Castro. A programação do evento contará com atividades interativas, dentre elas uma mesa-redonda de tema “Pensamento em questão” com Gilvan Fogel e o próprio Manuel, que completa 70 anos de vida e 40 de UFRJ dedicados à Poética.

O livro, o qual é constituído por ensaios escritos pelos membros do Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Poética (Niep), foi coordenado também pelo homenageado. “Trata-se de demonstrar que a Poética está num modo de percepção da realidade, considerando que o poético está em todo lugar, não se restringindo ao reduto erudito ou a uma cadeira institucional”, disse Fábio Pessanha, um dos organizadores, que participará da mesa de abertura com o restante da organização.

A programação do lançamento terá início às 8h30 no auditório C-3 da Faculdade de Letras da UFRJ. As pessoas que adquirirem o livro poderão conferir também uma entrevista com o professor Manuel feita pelos organizadores, que trata de temas como educação, arte e Poética.

fonte: http://www.ufrj.br/mostraNoticia.php?noticia=12351_Poetica-e-dialogo-caminhos-de-pensamento.html

18 de outubro de 2011

Canto para chuva

Ah, chuva que cai
Leva minha angústia embora
Para dentro de onde nasce o choro
Regue minhas lágrimas com sua queda
Com seu jeito poente de cair

Chuva que anima os solitários
Que fecunda a terra de pés descalços
Lave o pranto que se finda
Leve o canto para sua aurora

Meu fastio é seu desenredo
Minha sina, sua verticalidade
Quero ser oblíquo como seu caminho
E me entortar com o vento que me plange

17 de setembro de 2011

Prelúdio de aurora


Chamamento de vento
se diz prelúdio de aurora.
Seu habitual repouso está
nos cabelos desgrenhados
da criança a céu aberto.

Se o vento dança no arremesso
do corpo em seu passeio,
então, como seguir uma linha
cujo destino é o horizonte?

Como permanecer razoável
se sua lógica se refaz em descaminhos,
mergulho na praia,
cabelo na cara,
saia levantando,
papel voando
ou curva de chuva?

O vento é a entrega do corpo
no movimento de ser instante.
O vento é uma experiência de aprendizagem,
é um amar que se dá sem poste,
sem sim ou não.

O vento venta
tal qual o amor ama,
nos ama.
E nos amamos no amor...
Nos amamos no vento.