26 de abril de 2010

O rio como insólito na terceira margem do homem*


Do outro lado do medo e da morte
a alma capta mais
do que se não vê

Para fazer um mar, Virgílio de Lemos

Toda leitura nos exige um aprofundamento, por isso, não devemos percorrer um texto levianamente. Muito mais do que uma varredura superficial, devemos nos aprofundar junto com o texto. Eis a dinâmica dialogal da leitura: estar junto, ler a obra a partir do que a mesma nos oferece como desafio de autoconhecimento. Então, sem o intento de separações dicotômicas, empreenderemos esta leitura. Neste texto não haverá delimitações entre uma suposta realidade real e outra “fictícia”. Procuraremos sempre o caminho do meio, o “entre” que reúne as diversas e incontáveis realidades na fulgurância e inesgotabilidade do real.
Ao ensaiarmos uma perspectiva, estamos em contato direto com a Poética, já que: “A Poética é um universal concreto que diz respeito a todas as culturas, porque diz, essencialmente, respeito ao humano do homem” (CASTRO, 2007: 12). Assim sendo, dialogaremos com o próprio dizer da obra realizado em nossa interpretação. Este tipo de conduta de pensamento não engessa um conceito, ao contrário, possibilita que haja uma renovação constante da fala do poético na obra de arte.
Em “A terceira margem do rio”, conto de Guimarães Rosa, nos deparamos com uma questão primordial: a dobra. Como assim? Ao pensarmos o título do conto, temos a proposição de um questionamento que, a princípio, parece metafísico, mas que se impõe poeticamente à medida que imergimos em sua leitura. Tal afirmação é feita em consideração à palavra “terceira”, ou seja, o caráter metafísico está no possível conceito de terceiro como aquilo que está fora, à margem. No entanto, será que realmente podemos dizer que tal enumeração indica algo de cunho exterior? Quando entendemos que a palavra “terceira” está diretamente ligada ao homem, apontamos também na direção de um sentido misterioso de ser e existir. Mais ainda, de um desdobramento enquanto acontecer poético do homem.
O modo misterioso de o homem ser não se atém ao engano ou à ficção, isto é, quando se entende ficção por uma ação voluntária de fingimento. Neste sentido, “ficção seria, pois, criação da imaginação, da fantasia, coisa sem existência real, apenas imaginária” (WALTY, 1985: 15). Muito pelo contrário, o mistério a que nos referimos diz respeito ao originário do homem, à essência silenciosa de ser e existir enquanto realização do próprio do humano. Assim,

Mistério remete, em toda experiência, para o que se diz e reconhece fora das possibilidades de ser, conhecer e dizer. Para se dar e acontecer mistério é indispensável morar e descobrir-se no âmbito da Linguagem, do lógos (LEÃO, 2007: 33).

Daí, somos levados a encarar o homem em sua habitação na linguagem, quando, a partir desta, realizamo-nos poeticamente no sentido de ação originária do lógos. Fazemos, deste modo, uma leitura poética do homem em diálogo com a obra de Guimarães Rosa. Com isso, em uma outra dimensão de questionamento, perguntamos o seguinte: o que seria uma leitura poética? Mais ainda, em que medida esta leitura é capaz de explicitar uma íntima ligação entre o homem-humano e a “terceira margem do rio”?
Por mais que façamos perguntas, elas nunca atenderão ao que realmente queremos. E o que realmente queremos? Uma leitura com um objetivo meramente investigativo? Que desfaça qualquer dúvida interposta entre um saber e um não-saber? Em vista disto, mais uma questão se apresenta: a tensão entre saber e não-saber.
O conto de Guimarães Rosa nos revela quanto cada homem é tão próximo e distante um do outro. Somos cindidos pelo corte reunidor da di-ferença, e esta nos lança no abismo de entre-ser. Dizemos isto porque diferir não é distinguir um dentre uma generalidade de vários, mas reunir na singularidade o próprio de cada um em sua múltipla possibilidade de ser, isto é, a di-ferença nos diz o “entre”, o caminho do meio na intimidade que não afasta o brilho da humanidade da essência de cada homem. Portanto, é a mediação que entrega cada homem ao seu modo de ser em relação ao outro (Cf. HEIDEGGER, 2003). Assim, detemo-nos em uma leitura que configura um modo de se pensar o homem enquanto travessia. Eis, portanto, a leitura poética. Mais ainda, teremos uma imagem-questão concretizada no empenho da construção de uma canoa que desliza pelas águas do rio sem nunca desembarcar, sem se aportar à realidade dita comum.
A narrativa poética de Rosa colocará em evidência uma outra questão: o insólito. Não como gênero, metáfora ou tradição literária, e sim, como instauração de uma realidade própria e con-dizente com o habitual. Neste caso, habitaremos um mundo inaugural e apropriante de um olhar pessoal, cujas linhas e entrelinhas nos lançarão ao silêncio fecundo de vozes que nos falam e conosco dialogam. Portanto, uma dinâmica de retorno ao princípio, ao originário como fonte de caminhos que se cruzam e se ambiguizam no cerne do real.
A poíesis, doando-se ao momento de nossa leitura e reflexão, também se realiza enquanto movimento poético de escuta e fala. Então, pensemos: o que é isto que transfigura o sólito, o comum, e re-cria uma outra realidade? Que não se soma ou se subtrai, contudo, anda em conjunto com o corriqueiro de nossos dias? O insólito? Se afirmativo, seria esta uma resposta que responderia à pergunta, encerrando a questão? Não. Pensar o insólito enquanto divergência e ocorrência de uma realidade na riqueza do real é se ater ao vazio repleto de possibilidades, manifesto veladamente no acontecer da vida. Desta maneira, se o in-sólito se dá como movimento ambíguo entre interiorização e negação na dimensão do habitual (Cf. PESSANHA, 2008: 37); também refuta, desdiz e inaugura um outra realidade vigente na não-afirmação do banal.

A canoa: símbolo da mudança ou “entre” do insólito?

O conto se inicia com a presença do ordinário: “Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação” (ROSA, 1967: 32). Podemos, então, pensar esta ordem como o corrido dos dias, a banalidade do cotidiano que abarca todas as pessoas. Entretanto, algo ocorreu que remexeu a imobilidade da vida simples do interior: a construção de uma canoa. E não era qualquer embarcação, mas uma que suportasse o tempo do sem-fim.
A construção da canoa deu início ao desassombro de uma vida comum que, de uma hora para outra, se pôs a idealizar um modo novo de viver. Em relação ao afastamento do personagem do “pai” (doravante, a palavra “pai” virá sem aspas, referindo-se sempre ao personagem do conto), podemos compreender o atendimento ao chamado do extraordinário: “Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa” (ROSA, 1967: 33). Isto é, sem motivo aparente, tal personagem saiu da ordem estabelecida, transgredindo uma realidade que se supunha estável para abraçar um tempo que nascia no ato de sua decisão. Porém, será assim mesmo que o fato ocorreu? Será que a mudança se deu realmente no ato decisivo de mandar construir para si uma canoa? Ou esta situação já se instalara no personagem-questão com uma antecedência inominável pela racionalidade? E este, o pai, seria um evento à parte do homem? Circunscrito ao que a tradição chama de ficção? Ou está mais próximo de cada um de nós enquanto evento insólito da realização do humano no homem? Por enquanto, suspenderemos estas questões, a fim de pensá-las mais tarde.
Se virmos a canoa como símbolo, incorreremos em uma superficialidade retórica, cujo entendimento da obra se daria no funcionamento de uma narrativa de fatos fantásticos, ou seja, que se assegura na subjetividade do leitor, posto que “o Fantástico se define como uma percepção particular de acontecimentos estranhos” (TODOROV, 1992: 100). Na verdade, perceberemos que a canoa não simboliza nada. Não serve como marcador de um acontecimento, mas como realidade que acontece no próprio tempo de sua ocorrência. Esse tempo é o do não-ver, de uma realidade inauguradora de um instante sempre-novo e nunca-sabido. Desta maneira, ao pensarmos as palavras de Gilvan Fogel, ratificamos que “o símbolo, por definição, não é a própria coisa, mas a evocação, substituição ou representação da coisa ausente” (2007: 43).
A canoa não se ausenta e nem recorre a uma presença representada. É a própria coisa se dando na inter-relação das realidades. Estas não se separam, mas se conjuntam na tensão própria das facetas do real. Deste modo, o ensejo de uma embarcação que se recolhe no silêncio do rio, refere-se ao originário do homem.  E este segue na escuridão de um caminho que não se apresenta aos seus olhos, ao contrário, vela-se no enigma do que não é conhecido e nem aceito pela perspectiva racional. Então, o mistério se revela no percurso da caminhada, já que aquilo que se mostra ao mesmo tempo em que se retira pode ser entendido como o seu traço fundamental (Cf. HEIDEGGER, 2001: 25). A canoa é a nova casa da viagem no e com o rio.
Para além de uma margem que não vislumbra a outra (Cf. ROSA, 1967: 32), encontra-se a canoa habitada por um homem. Ambos na fluência do rio, atravessados pela correnteza que é sempre outra na novidade de suas águas. Chegamos, então, à questão proposta nesta seção do ensaio: a canoa simboliza a mudança ou ela se insere no “entre” do insólito? Como vimos, ela não simboliza nada por ser a própria presença da coisa, no caso, da questão que a nós se apresenta. No entanto, traz a mudança à configuração do conto e se instala como “entre” do insólito.
O rio é, ao mesmo tempo, permanência e mudança. O trânsito de suas águas gesticula o inefável de suas margens. Estas não indicam um caminho. Em vez disso, suscitam um itinerário de dúvidas e questionamentos, na medida em que apontam ao horizonte do não-saber. Mais ainda, desdobram-se na tensão vida-e-morte enquanto incursão na travessia do homem, posto que só se dão como margem porque há um fluxo de águas que as faz margear. As margens não são margens porque delimitam o curso do rio, mas porque o próprio rio doa sua condição de permanência. É neste sentido que o “entre” do insólito se apresenta: estando na emergência de uma condição que não se restringe ao que se vê com a visão, mas que se sente com o não-ver dos olhos. O in-sólito: a quebra da banalidade na dupla regência do prefixo “in-” em negar e adentrar intensivamente o que é sólito: permanência e mudança que se refluem, transitando no que não foi delimitado. Eis a proximidade com o homem: o insólito do rio no inesperado da vida do homem-humano.
Agora podemos retomar as duas questões acima suspensas. Vamos à primeira: a mudança se deu no pedido de construção da canoa ou já pertencia ao pai? Ao se atentar ao pedido, o pai correspondeu à fala da linguagem, isto é, tal decisão não partiu de sua vontade, mas do lógos. Nunca realizamos o que queremos, mas o que já nos foi destinado, já que o sendo que somos se realiza destinalmente na caminhada do nosso caminho. Assim, apropriamo-nos do que nos é próprio. Mas o que é corresponder à fala da linguagem? Afinal, não somos nós que nos expressamos e, nesta pronúncia do que pensamos, a linguagem se realiza como fala?
A não ser que nos embrenhemos pelo discurso da linguística, cujo primeiro intento é separar a linguagem do homem ao analisá-la, este tipo de caminho não condiz com a experiência do mesmo enquanto realização da linguagem. Sendo assim, entendemos que “o homem fala à medida que corresponde à linguagem. Corresponder é escutar. Ele escuta à medida que pertence ao chamado da quietude” (HEIDEGGER, 2003: 26). Ou seja, partimos da linguagem. Não estamos acerca dela e, ao nos referirmos à postura do personagem em questão, temos que sua decisão já se impunha como chamado do mistério, do lógos, e do rio enquanto lugar do não-saber, do não-ser, do vazio. Assim, não é uma mudança de um estado psicológico para outro, mas uma que permanece na conjuntura da complexidade da vida. A tensão de estar vivo é se deparar a todo instante com o acontecimento da morte. Eis o insólito se manifestando.
Se em outro momento do texto, dissemos que este conto de Rosa nos revela enquanto homens, podemos articular com tal proposição a segunda questão acima: a interpenetração entre o pai e o ser humano. Logo, considerar tal personagem como figurante de uma narrativa literária seria não se deixar atravessar pelo sentido fundamental de toda obra de arte: o de corresponder à essência do homem. E isto se dá dissimuladamente, ou seja, o verbo “dissimular” significa correntemente um tipo de fingimento, uma branda mentira. Todavia, se formos mais cuidadosos e sensíveis à fala de tal palavra, veremos que dissimular diz a dobra do sendo em ser e não-ser. Isto é, muito além de um conceito categorizante, o dissimular traz a vigência do que se oculta na afirmação de uma negatividade. Assim, o que é negativo é, também, positivo na medida em que não se induz uma escolha, mas recolhe ambos como desdobramento do que se dissimula. O não-ser do sendo funda a possibilidade de ser e não-ser, do mesmo modo que, se pensarmos nas obras de arte, estas se desdobram na dissimulação do agir fundado pelo não-agir. Em suma, pela quietude do nada em consonância com o não-saber do homem. Tal quietude nos leva a pensar um outro trecho do conto: o silêncio no agir do pai.
Em silêncio, o pai agia: “Só quieto” (ROSA, 1967: 32). Também silenciosamente, o rio permanecia: “o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre” (ROSA, 1967: 32). Seria apenas uma coincidência? Cremos que não. A fecundidade do rio em se doar originariamente pressupunha um destino que o ligava ao pai. Assim, o destino não é algo a ser desvendado. O destino do homem é ser o que é.
Um possível equívoco na leitura deste conto seria ficar no entorno da ambiência metafísica, querendo saber e responder ao mistério das imagens-questões. Estas imagens não se colocam para serem respondidas, pois, se assim ocorrer, teremos um esvaziamento das questões levantadas pelo conto, ficando apenas um palavrório conceitual. Muito mais do que esta superficialidade, as imagens-questões nos levam ao encontro com nossa interioridade, isto é, levam-nos à escuta de nossa essência, ao princípio do que somos enquanto homem-humano. Desta maneira, interpretar é sempre um movimento de retorno ao que sempre fomos, uma pro-cura por nosso próprio.
Nos caminhos da interpretação de “A terceira margem do rio”, somos levados a nos questionar pelo “entre” do insólito também na imagem da canoa. Contudo, na verdade, esta deu início ao movimento de quebra da realidade cotidiana, instaurando a acontecência de uma nova visão sobre o sentido do desdobramento do real em realidades diversas. Por este viés, entendemos na imagem da canoa o insólito como a fagulha que rompe com a banalidade e nos apresenta uma outra forma de experienciação do real: o rio com suas águas repletas de novidades sempre-novas trazem nesta falsa redundância a ênfase no sempre realizável do homem: o mistério como fonte do não-pensável. Haja vista o que nos diz a própria obra: “A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia” (ROSA, 1967: 33).
Exatamente: acontecia! Não há motivo aparente ou uma razão lógica que explique tal fato. Deparamo-nos com um acontecimento poético, isto é, com aquilo que irrompe em uma realidade cotidiana, inaugurando uma nova. O acontecer é o próprio da palavra poética, já que esta é a coisa em seu vigor de ação. Mais ainda, o acontecer, nas palavras de Manuel Antônio de Castro, “já traz no seu âmago a noção de estar, ter contato ou relação com” (1982: 36).
A condição em que o pai se encontrava, ou seja, solitário em uma canoa no infinito curso do rio, não era algo de anormal. Ao contrário, era o que se tinha por verdade. Mas de quem? Há algum ponto de vista a fim de se determinar o que seja a verdade? Se sim, qual a verdade mais correta: a que se tinha por perspectiva a canoa singrando de “meio a meio” do rio ou a de quem se punha nas margens a observá-lo?

A “estranheza” da verdade no acontecimento do homem enquanto rio

“A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia” (ROSA, 1967: 33).  Esta fala do conto nos encaminha à discussão de duas palavras: o estranho e a verdade. Ou melhor, do acontecimento destes dois termos não só como palavra, mas como presença no homem.
Como já dissemos acima, acontecer é o dar-se involuntário do ser na dinâmica da phýsis. Por sua vez, phýsis “é tudo que se dá por si mesmo” (HEIDEGGER, 2007: 36). Então, se tudo que se dá, dá-se por si mesmo a partir da phýsis, como podemos articular o estranho e a verdade em diálogo com o conto “A terceira margem do rio”?
Indo direto à questão, o estranho é o insólito. No percurso do acontecer, a estranheza se manifesta do desconhecido, passando ao conhecido sem negar o que não se conhece. Eis o movimento da verdade como alétheia: o desvelar incessante do que antes se recolhia no não-manifesto. O estarrecimento de “todo a gente” é o espanto pelo incomum, pela presença da verdade enquanto acontecimento real do que não se esperava ver. Pois a visão, na ambiência da certeza ocidental, é o que afirma e concretiza uma verdade. Há então várias verdades? Não e sim, isto é, há manifestações da verdade em detrimento da experiência de ser. Entretanto, o que se entende como conceito de verdade é que muda em função da maneira de se abrir para sua manifestação. Por isso, para reforçar o que já dizíamos, em consonância com o pensamento grego, temos que:

Nosso conceito de verdade e o conceito grego da verdade tiram sua respectiva inteligibilidade de áreas e conjunturas de relações intuitivamente diferentes. Alétheia, descobrimento, provém do feito e do fato de encobrir, velar, respectivamente, desvelar, descobrir. “Correção” provém do feito e do fato de reger uma coisa por outra, de medida e medir. “Desvelar” e “medir” são feitos e fatos inteiramente diferentes (HEIDEGGER, 2007: 111).

Com isso, temos conceitualmente a verdade tanto como adequação de um enunciado àquilo que se enuncia quanto como transporte da negação à afirmação, e vice-versa, sem que um neutralize o outro. Desta forma, eis a verdade no sentido de realizar uma não-verdade e a ela retornar, posto que uma não-verdade é simplesmente o que ainda não se manifestou.
É desta maneira que podemos nos aproximar da estranheza do conto. A ida do pai em uma canoa ao rio, sem jamais aportar, mantendo-se num silêncio absoluto, incomodou a calmaria da razão, do habitual do povoado. Julgaram-no doido, doente de alto grau de periculosidade, absorto. Tentou-se de tudo: chamar sua atenção, ir ao seu encontro pelos descaminhos do rio, provocar-lhe a palavra. Mas nada adiantou. O que houve, então, de errado? A incompreensão. Não se abriram ao silêncio do personagem porque, e principalmente, não se abriram ao seu próprio silêncio.
O silêncio não é ausência de fala, não é sinônimo de imobilidade. O silêncio é o velar de todo o ímpeto, o movimento pleno em que a vigência de ser se resguarda no agir do sendo. O silêncio do pai é o silêncio do rio, e o rio é o homem.
Guimarães Rosa, certa vez, disse em uma entrevista:

Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens (LORENZ, 1973: 341).

O que importa é a fala da obra e não a do seu autor. Este deve se subtrair de sua atuação à medida que for atravessado pelo vigor da criação. No entanto, aqui Rosa não aparece como autor do conto, e sim como pensador. Pensa o homem em equiparação aos rios quando percebe a profundeza e o mistério de ambos.
Nunca saberemos o que é o homem. Nunca chegaremos a um ponto final, até porque estamos sempre em vigência de ser. Na medida em que somos, galgamos um passo a mais no abismo da escuridão. Assim como os rios, quando os olhamos pela densidade poética, nunca enxergamos o seu fundo, porém estamos sempre perdidos em sua profundidade.
O estranho é o insólito. O insólito é o ser do homem. O homem sendo é o rio em seu fluir e permanecer. A estranheza de ser, aos olhos metafísicos, não vislumbra o incomensurável de toda medida, haja vista que a desmedida de ser nos toma a todos, porém só alguns se abrem à manifestação do não-ser de todo sendo. Somos não sendo para que sempre possamos ser, e isto não é um jogo de palavras. Ao contrário, é o apelo do indizível do ser do homem.
Pelos dizeres de Rosa, o rio resguarda em suas águas a tensão entre claro e escuro. É um e outro ao mesmo tempo e da mesma maneira que é o homem, é a dobra se desdobrando. A tensão de vida-e-morte que atravessa a existência de todos nós recolhe esta mesma simultaneidade de mostrar e esconder. Ambos acontecem a um só instante, pois quando a phýsis deixa o homem acontecer em sua liminaridade, o lógos o manifesta pela fala da linguagem. Então, o homem fala em correspondência à linguagem, na medida em que escuta. Por isso, dizemos que quem fala é a linguagem e não o homem por sua vontade e atitude. A palavra se dá na reciprocidade entre fala e escuta, uma vez que não ocorre uma ação após a outra. Elas acontecem simultaneamente. 
Quando nos voltamos à quietude do pai, percebemos o estranhamento do povoado em função de sua escolha: “E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma” (ROSA, 1967: 35). Mantendo-se em silêncio, entregou-se a seu destino... Foi sendo na proporção do seu caminho. Vigorou-se homem em travessia. O rio se tornou mais rio na habitação de seu não-lugar, ou seja, deu-se em plenitude de fluência para que suas águas recolhessem a pequena canoa com a grandiosidade do homem-em-humanização. Isso tudo aconteceu surdamente e com serenidade de ambos os lados: de um, o pai que, na abertura de seu acontecer, mandou construir para si uma canoa, nela ficando até tempo racionalmente não estabelecido. De outro, o rio com suas águas mansas à espera do porvir.
“Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado” (ROSA, 1967: 37). Com tais dizeres do “filho”, observamos o quanto a questão do homem é explicitada na tensão entre saber e não-saber, medo e coragem, enfim, uma disputa. Esta é a perene questão que atravessa e faz o homem, pois habitando a liminaridade vida-e-morte, o conflito de sua existência é a permanência da luta por viver e morrer no “entre”.
Ser o que não-é, ficar calado, em silêncio. A dificuldade primordial que antecede o salto mortal no abismo de ser. É necessário cumprirmos o tempo mais justo, o tempo da terra. Somos a brevidade de uma existência que figura no tempo do mundo, no tempo de ser e não-ser.

Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não-sou, mas sou.
(ANDRADE, 1983: 151)

Pois o tempo mais justo não é aquele que queremos que aconteça, mas o que acontece sem a permissão de nossa vontade e nos encaminha serena e ferozmente ao horizonte de nossa própria habitação.
Ao fazer o pedido de troca de lugar com o pai na canoa, o filho teme seu destinar e tenta dele fugir. Corre e pede perdão por não suportar a iminência de um destino que não era o seu, mas sim, do pai. Foge porque tem medo do desconhecido. Daí, recolhe-se em sua fuga, negando-se como homem. Porém, este negar é também uma aceitação de sua condição mortal. Tanto que na última linha do conto afirma: “e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio” (ROSA, 1967: 37). Notamos dois detalhes interessantes: o isolamento das palavras “eu” e “rio”. Pois uma se liga a outra num movimento de apropriação mútua: o eu é o rio. O rio é o eu que se transborda da subjetividade e se alarga a todo mortal: o homem-em-humanização na fluência de seu entre-existir, sua habitação como lugar do não-ser.
A terceira margem do homem, podemos então pensar, é o que não se pode dizer. É aquilo sobre o qual não há medida que dê conta de sua grandeza, o que está para além de tudo que é sólito, nominável. A terceira margem do homem são os descaminhos do rio no dizer da não-fala enquanto silêncio, o dar-se conta da queda abismal em que nos encontramos na experiência única de viver. Pois nunca sabemos quem amar, só amamos. Nunca sabemos por onde andar, mas andamos. E desta forma, sem saber, apenas somos.

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Campo de flores”. In: Antologia poética. 16ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.
CASTRO, Manuel Antônio de. “Poética: permanência e atualidade”. In: Revista Tempo Brasileiro. [ISSN 0102-8782]. Nº 171. Out/Dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.
______. O Acontecer Poético – A História Literária. 2ª ed. Rio de Janeiro: Antares, 1982.
FOGEL, Gilvan. “O desaprendizado do símbolo (a poética do ver imediato)”. In: Revista Tempo Brasileiro. [ISSN 0102-8782]. Nº 171. Out/Dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.
HEIDEGGER, Martin. Ser e verdade: a questão fundamental da filosofia; da essência da verdade. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007.
______. “A linguagem”. In: A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2003.
______. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. “Permanência e atualidade do poético: lógos, mýthos, épos”. In: Revista Tempo Brasileiro. [ISSN 0102-8782]. Nº 171. Out/Dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.
LEMOS, Virgílio de. Para fazer um mar. Maputo: Instituto Camões – Centro Cultural Português, 2001.
LORENZ, Günter W. “Diálogo com João Guimarães Rosa”. In: Diálogo com a América Latina. São Paulo: Editora Pedagógica Universitária, 1973.
PESSANHA, Fábio Santana. “O insólito na dimensão do poético: o movimento de um questionar”. In: GARCÍA, Flavio (org.). Narrativas do insólito: passagens e paragens. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2008. [pp. 32-48] (Disponível em www.dialogarts.uerj.br/avulsos/insolito/narrativasdoinsolito.pdf).
ROSA, Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: Primeiras Estórias. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992.
WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é Ficção. São Paulo: Brasiliense, 1985.

*Conforme mencionado no post anterior, este é um dos textos previstos para publicação em 2010. Os demais ensaios participantes do mesmo simpósio de que este é integrante podem ser encontrados em www.dialogarts.uerj.br/arquivos/simposios.pdf




26 de janeiro de 2010

Ensaios para este ano


Caros amigos, vim divulgar alguns ensaios meus que ou foram publicados agora no início de 2010 ou serão no decorrer do mesmo ano. Então, seguem os textos que aguardam sua leitura e possíveis comentários ou críticas – isso seria muito interessante! – conforme forem publicados.
Na revista Pequena Morte, em sua edição número vinte, foi publicado o texto “A casa de Maria Gabriela Llansol: um ensaio poético”, inspirado no romance Na casa de julho e agosto (1984), de Maria Gabriela Llansol, obviamente. Nesse ensaio, adentramos sua alquimia narrativa pelo prólogo que, por sua vez, deixa claro a inconstância de dizeres desprovidos de temporalidade linear. Abrimos sua casa com uma carta endereçada às “Damas do Amor completo”, mas que se desdobra na expectativa do leitor, prestes a receber um convite – ou já completamente seduzido pela poeticidade llansoliana – aos descaminhos deste romance.
Muito em breve será publicado meu ensaio intitulado “Palavra: a casa do poeta”, na revista Terceira Margem. A palavra, a casa e o poeta: neste ensaio vislumbramos a interpenetração destas três palavras como tensão fundamental ao pensamento poético. Desta maneira, manifestam três modos fulcrais de pensamento – a linguagem, a habitação e o próprio poético enquanto agir essencial (poíesis) – tão caros aos diálogos vigentes em nossa abertura à arte como apropriação do que somos.
Outros dois ensaios aguardam publicação, e estes são provenientes dos dois eventos que participei na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ocasiões em que se tematizavam o insólito na narrativa ficcional, portanto, a quinta e a sexta edição do Painel Reflexões sobre o insólito na narrativa ficcional, concomitante com o primeiro e o segundo Encontro Nacional o Insólito como Questão na Narrativa Ficcional. Respectivamente aos eventos, serão publicados meus seguintes ensaios: “O rio como insólito na terceira margem do homem” e “Homem: corpo insólito”.
Em relação aos dois textos citados acima, o primeiro ensaio é inspirado no conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, e põe em questão o homem, instalando o perguntar pela normalidade de uma realidade comum. Assim, o humano se dá como a travessia insólita do vazio ao nada. E é a partir do silêncio musical de “águas que não param” que o rio se revela não só como uma imagem ou um símbolo, mas como a própria emergência do que é, ao mesmo tempo, dinâmico e constante. Desta maneira, tal escuta nos possibilita a proposição da efervescência do insólito para além do conceitual.
O segundo ensaio é uma reflexão acerca do homem. Afinal de contas, o que é o homem? Como pensá-lo, dizê-lo ou sê-lo? Sem a menor possibilidade de uma resposta cabal, este texto é um dentre os incontáveis mergulhos pelos caminhos de interpelação, de questionamento do homem em sua essência. A dimensão do homem infringe qualquer esforço de medida ou de cerceamento conceitual, pois, sem ponto de partida ou de chegada, esvai-se a tentativa de uma precisão científica. Nele, trilhamos algumas possibilidades de se pensar o homem enquanto desdobramento corporal. Veremos o corpo como empenhos de diálogo em conjunto com as obras de Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, o que não inviabiliza outros gracejos poéticos que evocam o pensamento e convocam a escuta do corpo. Trataremos do homem como corpo insólito por não se tratar de uma composição biofisiológica, mas da irrupção de um instante de humanidade. Um lampejo de existência não restringida aos discursos existencialistas, pondo em voga a liminaridade da vida em convívio com um outro que somos nós mesmos. Assim, entendemos que o insólito não está numa teoria categorizante, e sim no próprio acontecimento do homem. Eis uma questão que se coloca diante, ou melhor, entre as diversas tentativas de retê-lo em um corpo carnal.
O corpo é também uma questão por ser a travessia do ser em seu próprio “sendo”, isto é, na medida em que se é, o corpo incorpora o instante num tempo singular de ser, realiza-se como envio do real. Nessa ambiguização, corpo e homem se confundem e irrompem as fronteiras que separam as instâncias material e espiritual, evidenciando a plenitude do corpo em cada gesto. Portanto, de maneira não polarizada, o corpo se arrisca em ter o homem – e vice-versa – numa circularidade iminente que atravessa sua existência enquanto vida e morte, cosmos e caos, material e imaterial sendo um.
Enfim, a princípio estes são alguns dos textos que já vieram ou aguardam vir a público e, na medida que forem publicados, divulgarei aqui neste blog, esperando sempre a sua leitura e discussão de quem se dispuser a fazê-lo.


16 de dezembro de 2009

Quero ser pedra

     Lendo o livro Gramática Expositiva do Chão, do poeta Manoel de Barros, tive vontade de ser pedra. Pensei: “como fazê-lo quando já estou preso nesta jaula de carne, ossos e luxúria?”. A única solução para isto é ser poeta e criar um poema:

Pedra

Ser pedra
é estar descascado de conceitos,
sendo coisa nas coisas,
braço de mundo na pureza
do que ainda não caiu em palavras.

22 de novembro de 2009

Um olhar poético sobre o educar: da habitação à morte*


Educar é morar, residir permanentemente no devir de um caminho de apropriação. Neste sentido, educar não é dizer como, mas apontar a partir de uma existência o metamorfosear entre externo e interno: consumação.
É necessário que se rompa a tradição baseada na retórica vicejante da quase-incorruptível relação sujeito-objeto. Nesta perspectiva, há aquele que ensina assim como aquele que é posto a aprender. Há um alguém que conduz para a predileção do domínio e, para a outra parte, sobra apenas a afirmação ou a conquista de algo que não lhe faz sentido por não ser seu originariamente.
Educar é encorpar, fazer nosso o que já é nosso. Assim, um autoapropriar-se na travessia que se apresenta misteriosamente. No entanto, misterioso aqui não se reduz à ficcionalização metafísica de um modelo formal, mas conduz ao transbordamento de corporeidade. Pois o mistério é o arcabouço do porvir e, por desdobramento, o berço da educação. Tomar corpo não é aparentar um sistema orgânico. Corpo é mais do que organismo, pois não se reduz a sistemas. Podemos dizer ser a unidade em que qualquer antagonismo é deposto de seu lugar de oposição para acolher a dissipação de polaridades. Desta maneira, o corpo é um todo que se plenifica em cada detalhe de suas partes.
A educação virou discurso volitivo, sujeição política, externalização do outro no transeunte da língua. Porém, como dizer ao outro o que não lhe pertence? Tentativas são feitas e o caminho vai seguindo... Como dizer da felicidade de alguém se não somos o outro? Faz-se uma representação do que é mais aprazível e aceitável, ficando o educar, nesta dimensão, como a metáfora do horário nobre popular.
O verbo educar deveria ter o significado de trazer a experiência da escuta para nosso próprio, isto é, para nosso modo de ser. Uma observação profunda que leva a uma auto-observação, autoescuta, auto-olhar, enfim, toda a possibilidade de experiência singularizada. É como o poeta que se apropria de si em cada verso, em cada obra que lança ao horizonte da leitura.
Neste movimento de incorporação, ler é ser a autoexperiência da humanização e educar, a consumação da convergência das diferenças no diálogo. Mas, para que isso aconteça, é fundamental uma disponibilização do homem à abertura de si mesmo, pois o que mais nos assusta é a possibilidade de nos descobrirmos para além daquilo que nos foi determinado como a aparência do que somos.
A tomada de contas do que somos mora na educação. E isso parece distante de se conceber se olharmos pela janela da nossa aparência, já que a educação virou uma afirmação daquilo que não nos pertence. Um encadeamento esquisito de conceitos e fórmulas...
Por mais que se tente enquadrar o homem nos bons modos da exatidão científica, haverá sempre uma brecha para o que é mais radical na vida: a morte. E esta não está no fim da linha como se supõe a linearidade moderna de percepção do real, mas vigora em todo instante como possibilitadora de todo viver. Morte não é apenas fim biológico, mas possibilidade de vitalizar, de fazer viger a circularidade poética de existir, pois, como diz Clarice Lispector em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres: “É uma naturalidade morrer, transformar-se, transmutar-se. [...] Morrer deve ser um gozo natural. Depois de morrer não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso”. Portanto, educar é morrer.

*Texto originalmente publicado na Revista Educação Pública.

3 de novembro de 2009

A invenção das ilhas – antologia poética de Virgílio de Lemos


No dia 27 de novembro agora, sairá em Maputo (Moçambique) o novíssimo livro de Virgílio de Lemos, intitulado A invenção das ilhas – antologia de Virgílio de Lemos. Com organização, posfácio e revisão de António Cabrita (poeta, autor de contos, crítico de cinema e de literatura) a antologia será publicada pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa.
Segundo o próprio Virgílio, esta obra trará poemas inéditos que não constam do livro Eroticus moçambicanus (1999), organizado por Carmen Tindó. A importância deste último foi a de apresentar ao Brasil a poética virgiliana, evidenciando a grandiosidade de versos que reúnem em sua musicalidade e inaugurabilidade uma alquimia de imagens, sons e cheiros próprios. É o que vemos, por exemplo, no poema:

A tragédia e a língua
(Ao Luiz de Camões e ao Fernando Pessoa)

Fora ou dentro, a língua é luz
da alma, sendo seu próprio corpo
vegetal. Na folha em branco
passeia-se o nada recriado.

Sol, sendo luar, no desvelar reside
o segredo do criar, e na paleta
esquecida, vive ainda o morto,
duplo mergulho no texto e na deriva.

E é face ao mesmo mar de teus anseios
que neste outro olhar recrio o gesto
e reconcilio a tragédia e a língua.

(Do livro Eroticus Moçambicanus, pp. 67-8)

Agora é esperar que A invenção das ilhas saia o mais rápido possível também aqui no Brasil e que sejamos presenteados tão logo com uma provável imensidão poética de vertigem e caos.
Enquanto isso, adianto aos amigos leitores o texto da quarta capa do livro:

Virgílio de Lemos, poeta, antropólogo e jornalista moçambicano nasceu em 1929 na ilha de Ibo.
Impulsionador do movimento literário moçambicano nas décadas de 40 e 50, foi um dos criadores da folha-de-poesia Msaho (contemporânea do movimento Négritude de Césaire e Senghor), que procurou enaltecer as culturas locais e criar uma poética moçambicana, em ruptura com os modelos literários impostos pela colonização.
Absolvido de um processo judicial por crime de desrespeito à bandeira portuguesa, devido a um verso escrito em 1954 pelo heterônimo Duarte Galvão. Virgílio de Lemos exilou-se, e em 1963 passou a viver e a trabalhar em Paris, onde foi um conceituado jornalista de televisão e rádio.
Destacam-se, na sua obra, escrita tanto em português como em francês, Poemas do tempo presente (1960), obra apreendida pela PIDE, L’Obscene Pensée d’Alice, Ilha de Moçambique: a língua é o exílio do que sonhas, Negra Azul, Eroticus moçambicanus, Para Fazer um Mar, L'Aveugle et l'Absurde, La saignée de l'indicible e L'Écart du temps.
Sendo um dos vanguardistas da lírica moçambicana e defensor do conceito do “barroco-estético” para as literaturas de língua portuguesa, tem uma escrita poética fragmentária, sintética, eivada de imagens surrealistas, e duma dimensão cósmica, perpassada pelo onirismo, as problemáticas existenciais e o erotismo; que nunca descura a fidelidade aos homens e o seu testemunho.

25 de setembro de 2009

Dicionário de Poética e Pensamento

Será realizado no dia 29 de outubro, no auditório G1 da Faculdade de Letras da UFRJ, às 9 horas, o evento de lançamento do Dicionário de Poética e Pensamento.

Sob autoria e edição geral do titular de Poética da UFRJ, Prof. Dr. Manuel Antônio de Castro, este dicionário não almeja a elucidação de conceitos, conforme já funcionam os demais dicionários. Ao contrário, sua proposta é a de levar o leitor (internauta) a questionar, fazendo-o imergir na profundidade do pensamento, uma vez que os verbetes trazem caminhos a serem trilhados e nunca definições pontuais. Ou seja, com citações bibliográficas de obras literárias ou críticas, com a elaboração de reflexões por parte do Prof. Manuel e/ou dos editores, ou ainda com a mescla destas duas modalidades de elaboração dos verbetes e fichas, o Dicionário de Poética e Pensamento ganha fluência e dinamicidade ao nos presentear com possibilidades e não com certezas.

Por ser gerado na internet a partir do software colaborativo wiki, o dicionário está em constante crescimento com a inserção contínua de novos verbetes ou fichas. Porém, somente os editores podem fazê-lo, o que não impede que os usuários possam dar sugestões, tirar dúvidas ou se manifestar como quiserem ao acessar a seção "Fale conosco".

Este é o convite oficial de lançamento:



Para saber mais, além de visitar a página do Dicionário de Poética e Pensamento, veja também a matéria que o jornal eletrônico da UFRJ, o Olhar Virtual, fez ao entrevistar o Prof. Manuel de Castro, clicando em http://www.olharvirtual.ufrj.br/2006/index.php?id_edicao=268&codigo=7


21 de setembro de 2009

Verso...

Um verso...

Coluna vertebral do silêncio,

amálgama que costura o horizonte de todo poeta

na soleira entre o dizer e o calar.

Sendo fino, raso, profundo, denso,

sua estrutura ressoa formal ou livremente.


Na forma, vislumbra a colheita da palavra trabalhada:

métrica, rima, música cadenciada em sopro como respiração.

Na seriedade de sua liberdade,

convoca a ilusão do deboche rijo:

espreita os passos largos de uma andança milimetricamente

[desarrumada.


Um verso acalenta a sofridão da ausência,

um verso infringe a apatia da presença;

trova na união dos contrários

a valente postura de um lancinante ponto final.


Pausa. Pulmões inflados.

E a boca derrama tudo aquilo que se queria calar em um beijo.

Um verso beija, sangra a mão de quem o possui.

Ter um verso é ter a morte rasgando a pele e dizendo a vida.

A escritura do corpo é o limiar da corporeidade poética.

O corpo é um verso sendo escrito.

15 de julho de 2009

Corpo e aprendizagem: a educação em questão*

* Este texto está publicado na revista Educação Pública

[...]
De ênfase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
[...]

Carlos Drummond de Andrade – “Metafísica do corpo”



Tratar do corpo é sempre um desafio empolgante. Entusiasma a possibilidade de entrarmos em contato com algo que nos é ao mesmo tempo tão próximo e distante. Tocamos e sentimos o corpo, no entanto não dimensionamos sua complexidade. Circundado de mistério e pele, eis a aprendizagem da corporeidade: um mergulho no que temos de mais nosso e mais outro.
A aprendizagem, quando dialogada intimamente com nossa habitação corporal, se resplandece inacessível a teorias puramente acadêmicas. Avulta e esvai o toque do porvir, isto é, encerra numa desmedida infinda o caminho da consumação que é aprender. E este, verbo conjugado com seu pseudoavesso, não pode vir só, não dá conta da mundividência experiencial de estar vivo e em correspondência com o real. Aprender e ensinar: duplo domínio da apropriação humana de ser e existir.
A educação, podemos dizer, é esse caminho em que se perdem as retilíneas palavras de ordem. Mais ainda, instaura toda uma complexidade de maturação e maturidade referente à convivência com o diferente, com o além-das-quatro-paredes de uma sala de aula, enfim, com o mundo enquanto transbordamento da realidade imediata. Por isso, por ser rica em realizações, a educação nos enseja o exercício do pensamento apresentado neste texto.
Tamanha é a capacidade de a educação se mostrar tão diferentemente que nos é permitido trilhar trajetórias que, a princípio, se apresentam destoantes, contudo convergem para o vigor de sua essencialidade. Assim, nos é possível uma tessitura multiperspectivada em que poesia, filosofia, cheiro, toque, corpo e aprendizagem são possíveis sem causar danos à aclamada coerência de uma língua beatamente profana ou profanamente beata que é a Língua Portuguesa.
Partimos do descostume, retirando da palavra seu lugar comum: o corpo se corporifica em sua aprendizagem de ser, a aprendizagem se desaprende na corporalidade de ensinar, a educação – terra que resguarda cada um de nós – nos oferta a possibilidade de ir e vir nas peias de sua imensidão.



Desacostumando o sentido comum de corpo e aprendizagem



Como se dá a relação entre corpo e aprendizagem na educação? Eis uma questão fundamental que precisa ser estudada com cuidado. No entanto, de nada adiantará se não houver uma compreensão do que sejam corpo e aprendizagem em suas dinâmicas essenciais. Neste caso, antes de pensarmos a relação com a educação, dialogaremos, ainda que brevemente, com o sentido poético-filosófico dos termos supracitados.
Ao mencionarmos o poético não nos reportamos à produção textual de poemas ou a obras literárias, mas ao agir originário, portanto, à poíesis. Ao tomarmos tal atitude, poderemos pensar o corpo e a aprendizagem superados da utilidade prática ou estética (no caso do corpo) tão enfatizadas nos discursos. É uma tentativa de apreender o corpo como reinvenção corporal em sentido e verdade, à luz do pensamento grego; e a aprendizagem como consumação do aprender, isto é, apropriação contínua do átimo de passagem entre não-saber e saber.
A acepção mais comum que temos de corpo é aquela dada em sua oposição com alma: um organismo bifurcado. Esta perspectiva nega o corpo ao afirmar a alma e esta, por sua vez, ao ser negada, afirma o corpo. Assim, temos a ratificação da modernidade instaurada por Descartes quando a unidade do corpo foi separada numa dualidade opositiva: a res cogitans (o raciocínio) e a res extensa (a matéria). No diálogo poético, entendemos que “corpo seria, pois, cooriginário com vida ou o mesmo de vida” (Fogel: 2009, p. 36). Isto significa que o corpo é uma concrescência fenomênica, ou seja, a pulsação de vida em cada gesto, a consumação da história na experiência da existência humana.
O corpo é um “entre” que congrega em sua permanência a tensão entre percepção (nous) e sensação (aísthesis). Nesta relação, há uma copertinência em que uma realidade é inaugurada em sua mútua interpelação perceptivo-sensorial. Esta movimentação do real assinala a dinâmica do velar-auto-velante da realidade enquanto verdade, portanto, como alétheia. Melhor explicando, temos o corpo como interação entre a percepção – que capta e vê a essência das coisas – e a sensação – que revela uma experiência de constituição do saber para além do que os sentidos disponibilizam (Cf. Heidegger: 2007, p. 204; p. 251). A experiência que temos com os sentidos se configura como presencialidade, isto é, eles nos conduzem àquilo que se apresenta à visão, logo, percebemos tudo que sentimos. Por isso, a separação entre percepção e sensação, ideia e representação, não pode ser aceita como determinação conceitual. Esta relação explicita a afirmação da leitura cartesiana, cujo empenho se solidifica na tradição filosófica, fortemente cravejada pelo encaminhamento retórico-sofístico: “Kant, no rastro de Descartes, separa o que jamais houve separado e, então, por isso, depara-se com a tarefa de reunir, de sintetizar o que jamais se separou ou houve separado” (Fogel: 2009, p. 54).
O pensador originário Heráclito de Éfeso, em seu fragmento 50, já convocava a unidade manifestada na complexidade do corpo: “Auscultando não a mim mas o lógos, é sábio concordar que tudo é um” (Heráclito: 1991, p. 71). Ora, esse “tudo é um” invita a vigência das diferenças que fundam a identidade de um ente. Neste caso, podemos relacionar a luminosidade corporal de o homem ser, ao mesmo tempo, organismo biofisiológico e habitação do porvir histórico-existencial. Sendo que existência aqui nos remete à presença, ou seja, aquilo que se mostra à visualização.
Podemos fazer a relação entre corpo e aprendizagem na medida em que entendemos que o corpo é um movimento de consumação de sua deveniência histórica e que aprendizagem é a apropriação do que nos é próprio. Em outras palavras, esta apropriação de apreensão é inerente à aprendizagem, posto que não aprendemos o que vem de fora, mas trazemos ao recolhimento de nossa travessia aquilo que estava velado na potencialidade de nosso existir enquanto não-aparecimento, portanto, o que ainda não se apresentou.
A aprendizagem reclama em sua vigência um encaminhamento experiencial. Se dialogarmos com o sentido grego, entenderemos este processo pelo radical mantháno, isto é, um duplo movimento de ensinar e aprender no qual o ínterim desta dinâmica resguardava a aprendizagem como possessão: “Aprender-e-ensinar é pois a identidade e diferenciação de nossas diferenças com a realidade, tanto com a realidade que nós mesmos somos, como com a realidade que nós mesmos não somos” (Leão: 1977, p. 49).
Não estamos acostumados a prestar atenção ao que não somos, porém só podemos ser o que somos porque – e inevitavelmente – estamos em plena realização do que não-somos. O problema é que já estamos tão inseridos num mundo cujas experiências apontam à obtenção de certezas, que a ciência e sua necessidade de dizer o que é, sem, em muitos casos, não se virar ao que não é, se posicionou como a realidade preponderante.
Estamos trilhando em apontamento ao homem, haja vista que não poderemos partir de nenhum lugar que não seja da realização do humano no homem. Enquanto homens, somos a tensão entre vida e morte tocados pela figuração autopoética de ser. Esta autopoiese reclama tanto o movimento de apropriação inerente à aprendizagem (autós) quanto à dimensão poética de acontecer (poíesis), isto é, simultaneamente afirmamos nossa identidade no fluxo das diferenças e nos entregamos ao devir que é existir. Neste sentido, a educação deflagra o ambiente no qual estas tensões se reúnem especificamente e engendram a relação com as questões de ensino e aprendizagem à luz da criticidade poética.
Corpo e aprendizagem se entremeiam na medida em que se tornam questões. Corpo como questão deixa de ser um conceito fixo para se dar como insurgência continuamente inaugural de pensamento. O mesmo acontece com a aprendizagem, pois rechaça a estaticidade própria da aplicação conceitual e insufla de possibilidades de trânsito um sem-caminho meramente teórico.
A educação ganha corpo e se manifesta como aprendizagem, torna-se uma questão primordial cuja trajetória redimensiona a maneira de se lidar com as situações próprias de seu cotidiano. Afinal, se “a educação é um lugar onde toda nossa sociedade se interroga a respeito dela mesma” (Gadotti: 2004, p. 43), devemos fundamentalmente fazer jus ao sentido de apropriação do que somos enquanto corpo na vigência da aprendizagem, percebendo a educação como questão. Há aí o ensejo à autoescuta, isto é, para que pensemos a autointerrogação mencionada na citação acima, é necessário que antes olhemos para nós e, a partir de nossa constituição poético-telúrica, consigamos nos desdobrar no que assumimos como a nossa habitação. Isto quer dizer que somos diálogos em concrescência, posto que crescemos junto com as questões que em nós irrompem.



Uma política poética para a educação



Um dos problemas da educação, poderíamos propor e pensar, é que ela é vista como área disciplinar, presa à sala de aula. Enquanto a educação estiver restringida pelos “teóricos das escolas”, sua retórica de limitação continuará se desenvolvendo. Em outras palavras, o ato de educar transpõe mera atitude de dizer o que é algo, isto é, não se encerra num movimento de trazer para dentro uma experiência externa, conforme já dissemos ao discutirmos a aprendizagem. Neste sentido, educação não pode ser vista a partir de uma ótica serviente na qual não se prescinde de um uso, de uma finalidade.
Retomando Gadotti, quando discute o papel da filosofia e da educação relacionadas com o homem (Cf. 2004, p. 63), ele explicita uma necessidade de porquês, pergunta pela utilidade da educação e seu dimensionamento no homem. Ora, esta trajetória desimplica a educação de sua vigência corporal e desdobrada na aprendizagem enquanto questões para definir uma função, ou como se evidencia em seu texto, uma práxis. De certa forma, podemos dizer que ele engendra uma autocontradição que, no entanto, não é incoerente com sua proposta, mas realoca a educação e, no caso, a filosofia, na tradição retórico-sofística que até então se afirma no percurso da modernidade à pós-modernidade. Apesar destes dizeres, não intencionamos avaliar a conduta do autor citado, até porque seus encaminhamentos enriquecem nosso diálogo, à medida que trazemos para o âmbito do incurso poético-ontológico a explanação pedagógica de uma educação prática – haja vista algumas diferenciações feitas entre um filosofar meramente reflexivo e um “engajamento real” (p. 50). Então, supomos que este real esteja na dimensão do que seja concreto e que, por vez, este concreto se reduza à materialidade, ao sinônimo de continente de massa.
A educação não pode figurar no patamar da concretude material, mas no de concretude poética – conforme já tratamos anteriormente, logo, enquanto movimento da poíesis. Este modo de encorpar a educação traduz uma apreensão do próprio do educar, ou seja, aquilo que se apresenta como questão imanente da educação e que em nós brilha, mas se mantém ofuscada nos calabouços da retidão social.
A sociedade, como entendemos – e cremos se ramificar na ruminação acrítica –, é o carrasco da formalização. Aponta os bons costumes e molda a inocência infantil na famigerada deturpação adulta de racionalização do imaginário. Eis o senso comum educativo: a formatação nas leis de convivência política. A questão, no entanto, que ficou obliterada foi que se deixou de pensar o político enquanto envio do real. Aqui a pólis se reduziu ao partidarismo, ao político como manutenção ideológica de esquerda ou direita. Por mais que ainda se entenda o político como um modo de organização da sociedade, este perde sua densidade quando se estabelece como detentor dos modos de representação de permanência no convívio com o outro, sem que se entenda o próprio do educar.
A aprendizagem é trocada pelo aprendizado, pela imediatez dos resultados. Embora pareça uma redundância isso que acabamos de dizer, quando prestamos atenção ao que as palavras silenciosamente nos dizem, percebemos o mundo que deixamos de abraçar por sermos constantemente desatentos, por não sabermos escutar. Assim, seguindo o encaminhamento que propomos para este texto, podemos pensar que, diferente de aprendizagem, aprendizado é o já posto conceitualmente e que obedece a um estatuto de sujeição, ou seja, é o quantitativo absorvido e “somado” ao conjunto de saberes do indivíduo. Então, pode-se até se ensinar o saber, mas nunca a sabedoria, como nos diz o poema:



A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: dinivare.

Os sabiás divinam.
(Barros: 1998, p. 53)



Uma perspectiva para se pensar...



A partir do que traçamos no decorrer deste trabalho, podemos criticar a educação como uma prática material, como o resultado de implementações burocráticas. Logicamente que estas esferas são importantes à constituição do pensamento em relação ao educar, só não podem ser a única faceta de sua realização. Do contrário, o corpo é esquecido e posto como argamassa biológica; a aprendizagem se iguala ao aprendizado e se reduz ao acúmulo intelectual.
Pensar o corpo e a aprendizagem na dinâmica educacional é bastante difícil. É um percurso extremamente denso e nos exige, primordialmente, autoescuta. Saber ouvir e conviver com as experiências que nos fundam e nos aprofundam humanamente significa a assunção da liminaridade de ser homem e concrescer em sociedade. A permanência do poético no gestual do corpo inaugura uma aprendizagem essencial no diálogo com a educação. O corpo deixa de ser depositário da alma, ou mesmo seu contrário; a aprendizagem galga o fluxo contínuo de ensinar e aprender na plenificação experiencial de ser, e assim, o real acena e se ordena de múltiplas maneiras, revelando realidades que se interpenetram e configuram as modalidades de apresentação do cotidiano.
Enfim, a educação retoma continuamente a questão do humano ao passo que eleva o corpo e a aprendizagem enquanto caminhos de apropriação do que a nós sempre pertenceu. Eis uma pertença originária que funda os descaminhos específicos do ensinar e aprender, isto é, originário porque origina continuamente os caminhos enviesados da educação numa perspectiva poética e concernente ao indizível do existir.



Referências



ANDRADE, Carlos Drummond. “Metafísica do corpo”. In: Corpo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1984.
BARROS, Manoel de. “9”. In: Livro sobre nada. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.
FOGEL, Gilvan. “Notas sobre o corpo”. In: CASTRO, Manuel Antônio de (org.). Arte: corpo, mundo e terra. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. 4ª ed. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2004.
HEIDEGGER, Martin. Ser e verdade: a questão fundamental da filosofia; da essência da verdade. Trad. Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007.
HERÁCLITO et alli. Os pensadores originários: Anaximandro, Parmênides e Heráclito. Trad. Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes, 1991.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. “Aprender e ensinar”. In: ______. Aprendendo a pensar. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1977.



8 de maio de 2009

Um caso de poema perdido

O trânsito das ruas e as vielas do pensamento insurgem obscuras na algibeira do acaso. Nenhum negrume, verme encaixotado, se alarga na dimensão do horizonte. Este, linha que costura a infâmia do vir-a-ver, surpreende o mais atento encarnado de fábulas e objeções; pega o repentino momento de aclaramento das ideias e zapt: o espanto toma o poeta e convoca o nascimento trágico de ser!


Para além das ontologias des-dizentes o poema se coloca firme ante a voz. O alumbramento da fala encara o silêncio no anteparo da razão... Esta, coitada, esvai-se em conceitos e deturpações subjetivas... Um caso de poema perdido, uma sala ocupada de nada: o ventre livre e cheio de nascividade.


O poeta atende ao chamado e se põe a falar: canta o canto musal em plenitude de memória. Mnemosýne e Musas numa orgia de versos, gestos e silêncio. Thaumadzein!... E o poeta irrompe em mundo! A poíesis coloca-se no incesto do dizer, pois doa e retira a fala de sua boca num aletheiamento inesgotável de sagrado e profano: circulares movimentos de velo e desvelo: consumação.


Consuma-se a fala na linguagem, consuma-se o rio no mar... nos consumamos em ser o que somos no apelo ao sagrado:


A espantosa realidade das coisas

É a minha descoberta de todos os dias.

Cada coisa é o que é,

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

E quanto isso me basta.


Basta existir para se ser completo.


(PESSOA, Fernando. “Dos poemas inconjuntos”. Poesia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1970, p. 66)

11 de abril de 2009

Palavrar é estar em conluio com o diabo!

Só para completar a informação do post anterior (claro, e ir além de mera propaganda!), saiu no dia 14 de março o livro Universo Paulistano - contos, crônicas e poemas de uma cidade que nunca dorme. Contudo, a intransigência de um tempo cronológico aproximado da conjuntura cósmica que me entorpece resultaram no atraso do comentário, assim como ao meu sumiço deste ambiente blóguico. Mas já que aqui finalmente estou, vamos à palavra. À palavra?

Sim, vamos ao lugar do desapropriado senso de matéria. Aonde o corpo é verbal e carnal na boca de quem pronuncia o zelo de pensar. A palavra é a poesia que gera não só poemas, mas possibilidades de errâncias. A palavra é o que nunca sei ao dizer, mas digo porque sou palavra (no salto mortal à escuridão do nunca sabido dia de amanhã).

Caindo de um cume cuja morada é o chão, a queda balbucia o gesto de criação e se refestela no sólido e impreciso destino de esborrachamento. Sim! Palavrar é esborrachar! Destroçar qualquer mísero pedaço de angústia na boquiaberta dentição da morte: morrer é viver, é palavrar.

Palavrar é transitar, estar em conluio com o cramulhano, com o barzabu, com o coisa-à-toa. Sim ele mesmo! Palavrar é estar em conluio com o diabo! O que não significa que firmei um pacto de alma, mas um pacto de vida. O diabo, ao contrário da palavra já estabelecida enquanto conceitualmente malvado, é o próprio trânsito, o próprio movimento de viver e dialogar. Não precisamos ir aos academicismos etimológicos, mas solto a deixa de que precisamos nos desacostumar da palavra argamassada num sentido comum e único. Deus? Claro, a brincadeira dos campos semânticos exige a presença do suposto contrário... que nada... juntos são um e o mesmo na circularidade de ser e não-ser: Tao.

A palavra aqui me trouxe e daqui me leva para outro agora. O tempo na dimensão de sua totalidade: a constância do agora, do aqui-mesmo... Mas antes, claro, não posso deixar de convidá-los ao agulhamento deste pensar (ou pesar papo-furado): ao poema, à palavra despaginada e reconfigurada na diversidade dos suportes: eis o dito-cujo presente no livro acima mencionado:

Lembranças que não tenho

São Paulo.
Só conheço no papel.
Páginas encardidas de vapores sólidos.
Suas ruas,
infames deturpações imaginadas.
Suas praças,
um passado que não é o meu.

São Paulo.
Uma cidade.
Capital.
De quê?
De quem?
De um sonâmbulo
que da janela entreaberta da inércia
só respira o tédio,
o transe
sem trânsito.

São Paulo:
Minhas recordações.
Te desconheço.
Suas curvas
não me entorpeceram.
Suas putas
nunca me comeram.

São Paulo.
Uma terra que não conheço,
uns jardins que para mim nunca existiram,
flores que nunca colhi.
Cidade.
Capital.
De quem?
De ninguém.