1 de maio de 2014

I Simpósio Internacional de Filosofia Pop

Entre os dias 7 e 9 de maio de 2014, acontecerá na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO o I Simpósio Internacional de Filosofia Pop – Corpos, Imagens e Culturas Híbridas, e no dia 8 (quinta-feira), a partir das 16h, participarei desse evento com a comunicação “Poesia: alucinação poética da palavra”. Abaixo, segue o resumo do meu trabalho. Estão todos convidados!

POESIA: ALUCINAÇÃO POÉTICA DA PALAVRA

A partir da epígrafe “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina” – verso que integra a primeira parte do poema “Seis ou treze coisas que eu aprendi sozinho”, de Manoel de Barros (2010, p. 257) –, partiremos para um percurso no qual tentaremos escutar o sentido poético das palavras, tendo como principal referência os poemas do poeta citado. Isso posto, enfocaremos na tensão entre a palavra acostumada a seu arcabouço dicionarizado e a revisitada pela imersão poética de se pensar em declive de escombros. Provocaremos o sentido “normal” das palavras no intuito de incitar sua corporeidade poética, dialogando ainda com a habitação verbal do humano. Assim, a poesia não será abordada como construção artística, tampouco confundida com poema, e sim aproximada de seu vigor originário: poíesis. Portanto, ao trazermos a ideia íntima, originária, de sua manifestação a partir do que em grego diz a movimentação do que surge e se eleva por si mesma – quando a phýsis é considerada a máxima poíesis, conforme podemos ler no ensaio “A questão de técnica”, de Martin Heidegger (Cf. 2001, p.16) –, teremos como divergir do patamar empoeirado das estéticas ruminantes de conceitos, a fim de nos deixar cair numa procura pela palavra descabida de normalidade. E nessa empreitada inevitavelmente passaremos pela tensão entre homem e poeta.
Considerando o exposto acima, poesia, filosofia, literatura darão as mãos num caminho que se fará dialogante com os estudos tradicionais, porém com ênfase primordial na hermenêutica poética, observando a leitura que faremos de poemas de Manoel de Barros e/ou outros poetas que se fizerem necessários no decurso de nossa escrita.
Retomando a epígrafe citada, cremos que a única maneira de se enfrentar um poema é estando alucinado!  E é este mesmo o verbo a ser usado: enfrentar. No entanto, tratamos de um enfrentamento no sentido de disputa, na qual a vigência da tensão provedora da realidade se dá. Mas não me refiro a qualquer disputa, e sim, por exemplo, à que Heráclito de Éfeso traz em seu fragmento 53, quando menciona a guerra, do grego polemós: “De todas as coisas, a guerra é pai, de todas as coisas é senhor; a uns mostrou deuses, a outros, homens; de uns fez escravos, de outros, livres” (1980, p. 83).
Estamos em disputa todo o tempo, afinal somos o exercício tensional entre morte e vida durante a arquitetura dos instantes em que vivemos. E poesia, conforme já nos referimos a seu sentido mais íntimo, poíesis, diz essa movimentação. É o que deflagra a singular morada do homem no interior de si mesmo, melhor, no crepúsculo onde real, realidade e realização se intimizam pela costura de suas fendas.
Insistimos em nossa existência e, por isso, reiteramos a procissão límbica de nossos pés aos sermos conduzidos sempre ao instante anterior de uma palavra ser despida por nossa boca. E como diz Heráclito, lembrando do fragmento supramencionado, estamos sempre em guerra, em disputa, num meio do caminho para todas as coisas, inclusive para nós mesmos. Então, o que propomos neste momento? Que pensemos um pouco nossa habitação poética, nossa condição errante de ser um infindo rascunho de poema. Portanto, trataremos do sentido poético da palavra, quando ela se nega a permanecer na castidade dos rótulos empoeirados para saltar no abismo da humanidade, cujo salto se refere à disputa, à liminaridade de sermos o acontecimento do “entre-ser”, talvez até em sermos um poema acontecendo, sendo escrito na permanência paradoxal de nossos dias.

Referências bibliográficas

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
HEIDEGGER, Martin. “A questão da técnica”. In: Ensaios e conferências. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

HERÁCLITO. Fragmentos: Origem do pensamento. Tradução, introdução e notas de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1980.

27 de abril de 2014

A violação poética da poesia*

Há quem diga que poesia se explica. Há quem mapeie de gramáticas, semânticas e sintaxes o salto mortal de um verso ao fundo do estômago. Há quem faça de tudo, até rotina de parapeitos em geografia de escadas. Estes existem sim, são muitos e aos montes. Mas há outros também: os que se fecundam por nuvens, que absorvem na pele o fôlego do vento.
Aos primeiros se costuma atribuir listas de nomenclaturas, jargões precisos de títulos, manias e costumes pré-datados. Já os segundos são crias de invenções: forjados por nascentes de sol, são o cultivo do absurdo mediante a esquizofrenia da razão. E são estes que me interessam: os resultantes do amor entre pôr do sol e horizonte.
Indagando o ventre por onde escoam as palavras ainda jamais pronunciadas, confessam-se alegrias de outonos em vertentes de epifania. Nesse lugar, o céu é o alforje em que se guardam rajadas de cores ensandecidas.
Rumo ao epíteto do nome, pensa-se no jardineiro das palavras lavrando num canteiro lógico – de lógos – parafernálias de injunções verbais. A todo troço criado na plantação de sua alcunha, florescem cristas adnominais no cume de orações ao sagrado sentido do silêncio. A esses colhedores de linguagem chamamos poetas, cujo traçado corporal rabisca de luz as paredes do tempo, criando espaços de ubiquidade indelével.
Aos poetas são dadas as confissões de pecados nunca cometidos, mas vividos na pureza de auroras. Mas que fique claro: não me refiro às tolices morais confiscadas de decências que tanto falam por aí. Os pecados da poesia estão na infestação de seu nome, no incesto próprio de reinventuras para os casos, ocasos e acasos de som e travessia. O pecado rompe da própria pele para percorrer os recantos onde a saliva não alcança. O pecado é a palavra travestida de queda e violação.
O poeta viola o cerne do verbo ao cantar o mundo em suas vestes ancestrais. Um corruptor da eloquência dos bons hábitos, onde esses – os bons hábitos – não passam de castidade imprópria para o humano. Uma castidade que deturpa, que ceifa o aroma de maresia do mar.
O poeta é um violador. Corrói com sêmen verbal a brancura falsa de moralidades para reinventar a sujeira de uma vida em chão feito de sonhos e terra batida. O sujo não é o impuro. Na verdade, é o repleto de experiência, o pulo no canteiro do sol, pegando no percurso do seu salto pedaços de música, lixo, incoerências, imprevisibilidades, confetes, palavrões, banho nu de mar, pedrada na janela da vizinha chata, corrida após tocar a campainha de uma casa qualquer, beijo roubado da menina distraída, sorvete de madrugada, o entardecer com um amor... e todas essas coisas ditas e vividas que sempre nos lembraremos como se fossem o agora.
A violação poética da poesia está no peito inflado do vento ao abrir a porta dos fundos de casas transeuntes e fundar o império dos sustos em corpos espantados. Daí, montanhas são levantadas pelo voo de borboletas em trajetórias enigmáticas de paragens, cujo traçado límbico de seu frágil corpo incendeia de absurdo a calmaria de vestes protestantes. O espanto é a transformação do silêncio em ação grávida de escombros palatais, cujo céu da boca é o véu do poético em dias de sol e mar nublado.
O pecado da carne é pressuposto de poesia. Num viril olhar onde o soslaio se apresenta de corpo inteiro, qualquer castração se torna importuno para fluência verbal. O gosto de sal do suor na boca é parte integrante do verso que reclama para si o seu outro durante o orgasmo múltiplo entre corpos, prelúdios e gestos. Nessa orgia de costumes inventados, o que vale é o olhar, e também a pele sentida no frêmito da voz nascida nos instantes da palavra. A poesia está nesse tenso enlace, onde o primogênito do verbo insiste em nascer a cada virada de esquina, a cada sorriso perdido nas dobras de roupas atiradas ao relento de poentes.
Há quem diga que poesia se explica, há quem pense que o peixe nada ao contrário em noites de lua cheia, há quem afirme que beija o cotovelo com os pés nas costas. Há sempre uma possibilidade para o absurdo. Mas de qual absurdo se trata aqui? O poético, recriado a cada vento que espreita a intimidade dos segredos? Ou o conceitual, perdido na poeira das estantes intelectuais?  
O absurdo ao qual nos entregamos é fonte de versos e canções. Porém a dureza da definitiva certeza dos dias refuta o absurdo enquanto nascente de acontecências, tratando-o como o que está à parte da realidade. Daí, é preciso que se diga, esbraveje, berre: nada está à parte da realidade, pois o dentro e o fora compõem o real em sua essência de surpreendimentos, ou seja, tudo que se dá ocorre por intermédio de uma finura inatingível de olhos, porém concreta no que possibilita o ver, velando-se, resguardando-se, vislumbrando-se na multiplicidade que aparece enquanto realidade. A realidade é uma possibilidade de absurdos.
Quero o absurdo para dentro de minhas dúvidas ao desbravar semânticas em concertos de metafonias, pois só assim poderei libertar do jugo do palpável o grito da poesia inflamada desde o peito até o leito de batentes corpos. A poesia mora nessa explosão e também no depois do baque. Na verdade, não há um lugar para sua habitação, pois a poesia é a própria insurgência do habitar. Habitamos poeticamente o mundo enquanto homens encarcerados em nossa singular maneira de ser. Travados entre pele e dentes, o limite de nossos passos se conduz ao desenho dos pés na caminhada para o nada. O nada é o quando de nossa morte, a medida voraz da passagem entre o cravo de uma beligerância e o crivo de remitências consonantais.
Na fala, uma boca se enseja. Na reunião entre pedra, flor e espinho se resigna o absurdo das simultaneidades. A fala se permite em lábios atrevidos de palavras. Em tonais de melodias incandescentes, orações são forjadas ao sagrado infinito dos ventos. E esses vão criando moradas no cerne das pessoas deixadas ao acaso por sua humanidade. Deixar ao acaso, aqui, significa o abandono necessário à morte, e morte é o abandono necessário ao renascimento dos dias de todo instante.
Todo poeta é encontrado por seu desencontro, é deixado de lado pela precisão das horas de refrões batidos, já conhecidos antes mesmo de sua composição. Esquecer a canção conhecida é uma necessidade de criação, uma vez que em todo criar se funda uma perspectiva de ver e ser. Na criação, cria-se o criar, reinventando correnteza de rios nos caminhos sempre trilhados e nunca conhecidos. O que há é reconhecimento, um apetrecho de momentos em que se identifica na diferença o cerne que conduz ao nada o sentido de ser habitação poética.
Poesia não se explica por ser acontecimento sempre acontecente. E na tentativa de se dizer o que é, perdeu-se o fio da meada em trajetórias de cordilheiras. Da poesia nasce o poema e todas as coisas que circundam a cintura da realidade. Agarrar o braço do poema quando ele passa em nossa boca é um estupro desconcebido, sem órgãos genitais, sem suor, sem respiração ofegante. Só há violência e verborragia: falatórios incessantes, descrentes de linguagem.
Diferente do que agora se disse é fazer amor com o poema, pois aí não há necessidade de nomes nem horas marcadas, só há é êxtase infindo, liberdade em ser limite para o salto. Há também reconciliação do não com todo sim pensado e não dito, há corpo inteiro sendo espasmo de infinitude. Não há como haver poema se não houver amor, e na impossibilidade de dizê-lo – o amor –, criam-se tentativas de prisões. O amor não cabe no poema, pois é o sentido anterior ao primeiro canto dos versos.
Um poeta é morte ambulante porque não há amor sem morte. Talvez por isso seja tão difícil ser poema, seja tão doloroso amar com verdade.


*Publicado originalmente na 35ª edição do Labirinto Literário.

13 de abril de 2014

Labirinto Literário, nº 35

Meus amigos, acaba de sair o número 35 da revista digital Labirinto Literário. Nessa edição, participo com o pequeno ensaio “A violação poética da poesia”. Para conferir, enquanto não disponibilizo o texto aqui, é necessário baixar o periódico em seu site: http://labirintoliterario.blogspot.com.br/

Boa leitura!

1 de abril de 2014

29 de janeiro de 2014

O homem e sua condição de margem - o ensaio

Meus amigos, resolvi postar aqui no blog meu ensaio, originalmente publicado na revista dEsEnrEdoS. Estejam à vontade para comentar!

O HOMEM E SUA CONDIÇÃO DE MARGEM

Fábio Santana Pessanha
Mestre em Poética – UFRJ

“faço poesia não porque seja poeta mas para exercitar minha alma, é o exercício mais profundo do homem”

Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

O homem está mais para margem que acervo bilíngue de vagabundos. No panorama dos seus pés moram as vias que o conduzem ao encontro marcado com seu próprio desenredo. A cada passo dado, é impresso no chão o risco de se criar esteiras de caminhos e presságios de infinito. Seu rastro é sua alcunha quando eleito magnífico miserável de imensos veios.
Um convite para uma fala poética foi feito, e aceito! A partir da envergadura do que se disse acima, aliado a futuros devaneios, devo então pensar o homem, e me pergunto como. Afinal de contas, por mais que se trace um rigoroso itinerário antropológico, qualquer precisão pensada ensaia de antemão sua condição obsoleta. Então, qual é a saída?
A poesia! Pensar o homem pela via do poético, ou melhor, de dentro de sua própria insignificação, compreende, creio, dar as mãos ao salto na iminência da queda. O poético nos leva a cair, sempre, ao fundo de nós mesmos. Por isso, daremos as mãos à poesia, àquilo que se perde no desvio de sua voz: os poemas; pois seja em verso – com ouvidos à tradição – ou no desalinho musical da prosa – que, na verdade, é tão poético quanto qualquer estruturação classicamente versificada –, os poemas são gracejos letrais da movimentação intrínseca da realidade, e nós somos sua realização. Assim, proposta essa ciranda de absurdamentos linguísticos, podemos ficar à vontade para a desenvoltura do labor que ora se cria e manifesta. Com isso, vamos à primeira queda:

Quando eu nasci
      o silêncio foi aumentado.
Meu pai sempre entendeu
Que eu era torto
Mas sempre me aprumou.
Passei anos me procurando por lugares nenhuns.
Até que não me achei – e fui salvo.
Às vezes caminhava como se fosse um bulbo.[1]

Se o empenho de toda obra de arte é a humanidade do homem, o compromisso da obra poética não se mostra indiferente a essa questão. Penso que um poema, ao ser lido, se realiza como um gesto de abrigo do nosso próprio abraço, um abraço que toma o infindo corpo carnal no interior dos braços e recolhe o metal dos ventos nos voamentos de palavra. Assim, de forma alguma falarei do sentido exato do poema citado e dos outros que forem aqui tratados. Portanto, que fique realmente claro, deixarei me conduzir por sua correnteza e carnadura.
Então, sem mais demora, e em atenção ao poema, somos testemunhas de que o silêncio foi aumentado com um nascimento. Sendo o homem seu próprio mundo: origem e morte, estabelece-se uma autofecundação poética. Como assim? Desesplico: para toda voz arada no campo da linguagem há uma potencial mudez na multiplicação de todas as bocas ao relento. O homem encena sua condição de margem sendo outro e ele mesmo no precipício de sua identidade. Com isso, eleva-se do escuro canto de seu estômago o vazio repleto de encantos, habitantes nos desamparos de seus lábios. Aumentar o silêncio designa a iluminura da epopeia existencial humana, quando o sentido da aparência do homem resvala pelo anúncio de sua imagem ao espelho. O espelho só me entrega à dúvida.
Nascer e aumentar o silêncio anuncia o quanto de completude compõe o homem. E completude aqui quer dizer: instante no qual anverso e reverso se comprazem na unicidade de seu parto. Se concluir algo fosse fácil, até ensaiaria dizer que a dicotomia não perderia feio para ambiguidade, pois no horizonte de nossas vistas mora o brilho e o escuro como deveniências de uma mesma costura.
Ainda que seja muitíssimo tentador ver nesse “aumento” o sentido de soma, na verdade, muito mais do que isso, pode-se enxergar aí o alumbramento da intensidade revelada na morada do silêncio: o nada. Passo a pensar, então, que o homem é um complexo formado entre o nada e o silêncio, e o que sobra recai na materialidade da pergunta que faz a si mesmo enquanto parte integrante da paisagem do real. O desenho dessa “conclusão” fica assim: estou naquilo que vejo porque vejo com o corpo, participando da nomeação desestrutural da realidade; esta que está na antecedência do que toco tanto quanto procede à sensação do choque, do embate . Não seria esse prolongamento existencial que Riobaldo suscitou quando, em Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa, disse: “– ‘Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!...’”?[2] Da mesma maneira que em Manoel de Barros o “silêncio foi aumentado”, em Rosa o “mundo tornou a começar”! Todos esses começamentos indiciam a insistência poética habitante no homem. Portanto, creio que o homem é seu próprio desconcerto.
Nessa estância de prolongamento do silêncio, do mundo, do existir, encontro ainda em Manoel de Barros, no Livro sobre nada, a seguinte passagem: “Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...”.[3] Acompanhar algo diz morar na realização desse mesmo algo, estar junto não apenas na companhia, e sim na composição de um espaço que se cria pela conjuntura de pele e olhar: ver! Então, ver é ser aquilo e com aquilo que nos chega pela visão, significando ser muito mais do que simples ocorrência visual de um de nossos sentidos físicos, pois aquilo que nos toca a pele, se acolhemos, metabolizamos, tornamos parte de nosso sangue, compomos corpo.
No transcurso dessas imagens, lembrei-me também de que no romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, há um momento, dentre vários, em que Lóri se encontra totalmente desorientada por se ver radicalmente imersa na vida, percebendo que aceitava em pleno amor o amor de Ulisses. Impregnada desse acometimento, “parecia-lhe que mil corações batiam-lhe nas profundezas de sua pessoa”,[4] e daí, sendo apossada pelo direito de ser toda sua dúvida, dor, imprecisão, sangue e carne em flores ou uivos em desfecho de horizontes, ofertou ao tempo uma frase primordial e que retoma a questão que, nesse momento, nos aproxima em leitura: “Como prolongar o nascimento pela vida inteira?”.[5]
Não podemos pensar que essa pergunta toca na mesma questão que vimos em Manoel de Barros, quando ele traz a lume o silêncio aumentado por um nascimento? Ou em Rosa, quando Riobaldo é enfático ao assinalar que o mundo torna a começar com o nascimento de uma criança? Com tais questões, podemos ainda indagar: como aumentar a pausa no grito que sustenta escombros de palavras? Como entrever na cara o tapa de um amor perdido? Como mergulhar na vida, não sendo apenas um personagem social que diariamente acorda, caga, toma café, estuda, trabalha, come uma puta, vai dormir e, no outro dia, repete tudo igual? Como, no prolongamento de nosso nascimento, conseguirmos nos outrar na imensidão que somos? Como aumentar o silêncio no singelo gesto de um princípio quando, na realidade, nascemos a cada instante?
Tais perguntas não servem para serem respondidas. Elas devem ocupar cada canto de nossos ouvidos, impregnando-se em nosso corpo para nos entregarmos à dúvida maior de nossos olhos: o reflexo visto no espelho. E ainda, nos braços de Clarice, chegamos num ponto crucial, quando fazemos nossa a fala de Lóri: “Eu existo, estou vendo, mas quem sou eu?”[6] E a poesia responde com a:

Elegia de Seo Antônio Ninguém

Sou um sujeito desacontecido rolando borra abaixo como bosta de cobra.
Fui relatado no capítulo da borra.
Em aba de chapéu velho só nasce flor taciturna.
Tudo é noite no meu canto.
(Tinha a voz encostada no escuro. Falava putamente.)
Estou sem eternidades.
Não tenho mais cupidez.
Ando cheio de lodo pelas juntas como os velhos navios naufragados.
Não sirvo mais pra pessoa.
Sou uma ruína concupiscente.
Crescem ortigas sobe meus ombros.
Nascem goteiras por todo canto.
Entram morcegos aranhas gafanhotos na minha alma.
Nos lepramentos dos rebocos dormem baratas torvas.
Falo sem alarmes.
Meu olhar tem odor de extinção.
Tenho abandonos por dentro e por fora.
Meu desnome é Antônio Ninguém.
Eu pareço com nada parecido.[7]

Só a poesia pode responder porque não afaga com dizeres simplórios a necessidade de audições pedintes de esquadros, de correção; a poesia instaura o verdadeiro lugar da resposta: o mergulho no ensimesmado de entulhos e personalidades nos quais quintais de pessoas ressoam o desígnio de suas perdições. Poesia, atrevo-me a cogitar, é ser ação agindo dentro e fora de oscilações e realidades. E nessa resposta repleta de braços, uma infinda enumeração é feita. Contagens de absurdos para fundamentações acerca do e com o nada. Um desnome não é a negação do nome, e sim o aprofundamento na nomeação, considerando aqui algumas falas gramaticais que designam o prefixo “des-” também como partícula intensiva, em vez de apenas funcionar como marca de negação, ou seja, causa fundo-de-poço nos nomes em que se junta: casamento de substantivo com ancestrais de verbo.
No poema acima, é possível observar as ruminações, derivações, da condição humana em ser margem e poesia. Cada verso é um lance para o destino do absurdo, sendo este – o absurdo – imagem emblemática de sustos e contradições. Tal questão, pelo encaminhamento torto de minhas falas, não tem a ver com a estética tradicional, pautada por normas ou parâmetros, cujo empenho está em aferir a veracidade daquilo que faz ou não parte da realidade. Ora, tudo faz parte da realidade, inclusive o que ainda não existe! A realidade do real conserva simultaneamente o inóspito e a habitação, uma vez que realidade significa o cerne (-idade), a concentração do real; portanto, na afluência de um nome é revelada uma aparência que, por sua vez, vela, é latência do impronunciável.
Ser um sujeito desacontecido, sem eternidades, que não serve pra pessoa está no âmbito da mais radical existência, pois congrega nos seus passos a calamidade vigente no furor de ser nada em permanência de vozes e outroras. Assim, com o mergulho na identidade de um ninguém, especificamente, do Antônio Ninguém, ao visitarmos um pouco mais da poética de Manoel de Barros com o poema “A disfunção”,[8] somos testemunhas de que os poetas têm “Mania de comparecer aos próprios desencontros” – seja linguístico ou presencial. No entanto, se falávamos especificamente do homem, e agora trago à nossa dança um verso que fala de poetas, pergunto: seriam, então, poetas todos os homens?
Exatamente! Pois essa é a condição de margem do homem!
Contudo, é preciso observar que ser poeta não é ser qualquer-um. Não basta enumerar cantigas em poste ou desanuviar a correlação entre triângulos e cossenos! Também não basta manter a cara amassada depois de acordar ao meio-dia e se dizer atônito com a relevância das auroras. O homem é poeta, creio, quando se concentra em próprio desassombro e reinstala a morte de seus dias a cada olhar lançado ao vazio – e posso dizer isso por não se tratar de uma afirmação científica de cabalidade irrevogável, uma vez que eu não sou nem científico e nem irrevogável. Ser poeta talvez seja a contradição da lua em contorno de verão ou estar de acordo com a obscenidade do vento em lamber os corpos que quiser, quando bem entender... Enfim, por mais divertido que seja a enumeração de absurdos semânticos, não é com um enunciado que encabrestaremos um poeta, pois este é a vigência da inconstância habitante na humanidade do homem. Assim, repito: o homem está mais para margem que acervo bilíngue de vagabundos, e a vagabundagem primordial, talvez, seja o aceno do real em se permitir língua e pintura nas paredes da linguagem, nos estames de ensolarados prados onde o homem se poetiza na medida de sua morte, na medida em que se abre para a escuta do seu silêncio.
Não percamos nosso norte: o homem está para margem, é uma entidade do poético em risco de incumbências lexicais; um aumentador de silêncio quando prolonga o cerne do real ao se desdobrar em nascimentos. O homem é poesia em escritura de pele, tinta, voz e calafrio, um “sujeito desacontecido” se procurando em “lugares nenhuns”. Um ser achante repleto de esquinas e deus-lhe-pagues que caminha sempre em pé de curva a nascentes de abismos. Então, o elencamento alardeado no poema “Elegia de Seo Antônio Ninguém” desfila uma série de desacontecências com as quais o ente de pés cravados no chão de cimento se estranha, pois, como aceitar todas as indecências semânticas propostas se quase sempre necessitamos fazer a barba para apresentações litúrgicas ou primamos por comportamentos equidistantes de comedimentos sociais?
A condição de margem do homem manifesta o sepulcro das nomeações condicionantes de regras. A morte mora em seu peito e a vida é seu desvelo, com isso, na ambiguidade de sua andança, experiencia poeticamente um lugar de habitação, uma vez que o lugar se dá na medida de sua ocupação. Lembrando o que diz Heidegger em seu importante ensaio “... poeticamente o homem habita...”, “Poesia é deixar-habitar, em sentido próprio”[9] e, sem resvalar num sentido onde o que se diz se torna um manual a ser empregado no exercício de nossos dias, mais à frente, no mesmo ensaio, temos que “[...] um habitar só pode ser em poesia porque, em sua essência, o habitar é poético. Um homem só pode ser cego porque, em sua essência, permanece um ser capaz de visão”.[10] Sem cismas ou dedos, tais dizeres nos encaminham a pensar que o homem é poesia e só se desdobra em poema porque essencialmente, naturalmente, é um ser poético. E isso significa: um ser de margem que constrói à medida que é construído pela violência do rio, de seu período de existência na paisagem do real.
Lembrando o poema com o qual iniciei essa queda, e com o qual convido quem se disponibilizar a cair, leio: “[...] eu era torto / [...] Passei anos procurando por lugares nenhuns”. A partir desses versos, sou levado a crer que a tortuosidade não é algo à parte, estranho ao desígnio do homem em se apropriar de sua condição de margem. E digo: só porque o homem é margem é que é capaz de se perceber rio e se perder em seu próprio curso. Sua andança encena o desenho de um eterno labirinto, duradouro durante a música que o atravessa e o fecunda porque também é silêncio. E, ainda no poema, o mesmo termina assim: “Até que não me achei – e fui salvo. / Às vezes caminhava como se fosse bulbo.” Diante disso, divido o que pensei: cada passo dado no meu caminho encurta a aproximação com aquilo que não sei tanto de mim quanto do meu destino. Meu horizonte não se põe diante de minha presença como imagem que guarda a alvorada e o ocaso do sol, meu horizonte sou eu e me limita no instante agoral do tempo, da imprecisão habitante no calor de minhas mãos e que queima a pele quando cismo em agonias de posse. Sou margem porque sou homem e sou homem porque a poesia mora em mim: sou um acervo bilíngue de vagabundos porque estou mais para margem!
E agora em atenção ao último verso, caminhar como se fosse bulbo diz se embrenhar na terra e habitar a escuridão silenciosa do existir. Considerando que existir é ser no aberto acolhedor de infinitos, então esse enterrar-se aponta o singular movimento de ser verso e procissão de um homem só. O conjunto da unidade se apresenta na orquestração audiúnica de uma procura feita no empenho de perdição. Procurar é se perder, pois alinhava no gesto de outrar-se a originariedade caminhante e desbravadora da visão. Ver é ser sempre pela primeira vez, destituindo o hábito que engessa a recepção daquilo que vemos e recebemos do real. Vemos aquilo que somos porque essencialmente somos o que vemos e, só por isso, somos capazes de ver, ou seja: sou a imagem que chega aos meus olhos e só percebo numa coisa aquilo que identifico como a morada do meu nome. Meu nome é nunca, e sou sempre verso a ser escrito; encontro-me quando não me procuro porque toda procura enseja perdição.
É preciso dizer algo acerca da vagabundagem e sua predileção por coisas tortas e restos de enunciados:

Venho de nobres que empobreceram.
Restou-me por fortuna a soberbia.
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os
pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas
de orvalho.[11]

A nobreza do empobrecimento é alcunha de despertencimentos! Elabora no poético uma colheita de escombros e rascunhos. Tudo é feito com material compreendido de chorume, repleto do fedor de ser acontecência penumbral, risco de se perder o estame fulcral de compêndios, empreendendo em luxúrias verbais.
Se pensar o sentido de margem no homem quase sempre pode se resvalar para contextos sociais, socioeconômicos, de forma alguma trago esse cheiro em minha palavra. Ainda que seja possível tal diálogo, aqui não é lugar para obtenções estatísticas, cuja mortandade não passa de mero levantamento numérico. Creio que tal empenho apenas alimenta a possibilidade de o homem se perder em seu próprio canteiro, exumando a ossatura para sempre guarnecida no código genético de seu passado historiográfico. O homem é seu desconcerto e se conjuga andrajo de vestimentas palavrais! Está mais para margem que acervo bilíngue de vagabundos!
Pelo poema acima, somos iniciados na grandiosidade do ínfimo! Compomos o arsenal prolífico de imagens que encenam a necessidade de se olhar para dentro daquilo que não se sabe do próprio umbigo. Eu sou homem, poeta, portanto, sou meu convite à morte! Sou o restolho da colheita que suja o chão na imundície dos meus passos; sou o descompasso do meu caminho, minha morte e minha alegria em me sentir vivo, compondo pôr do sol.
A palavra que ora se entranha em meu corpo e se despede de minha boca faz de minha fala um infortúnio arcaico de semeaduras tântricas. Sou palavra em escuta poemática, quando preservo no útero do meu verbo a elocução que funda e fecunda meu olhar para aquilo que vejo e, portanto, que sou. Hei de monumentar os insetos com esta doença de grandeza! Assim diz o poema e assim manifesto amém! Tal como Cristo, São Francisco, Vieira, Shakespeare e Charles Chaplin, sou capaz de monumentar o mísero porque sou mais um verso escrito no poema que leio a cada dia de minha existência.
A vagabundagem me toma e me penetra! E que se entenda: não me refiro ao sentido comum, tão incrustado nos ouvidos alheios. Minha vagabundagem é a mesma que habita o conluio entre verso e luz, poesia e ação, digerindo e estando presente no acontecimento fecundo do nada: o mistério humano no qual o homem se percebe nascido para margem.
O poema diz: “Charles Chaplin monumentou os vagabundos” e, com isso, podemos pensar que a errância do homem o nomeia andor que carrega em seus braços o vigor poético em ser abismo e vertigem. O vagabundo se tornou monumento, mas não se trata de um vagabundo qualquer. Tal movimentação poético-semântica só é possível porque o poema, na verdade, explicitou a latência da indolência, da preambulação maldita presente nos andrajos sociais; e tal situação foi desvista e reinventada na composição poética da palavra.
A poesia nos deixa reinventar nossa condição de margem, e não é isso que realmente somos, pretexto poético para saltos mortais no abismo do humano? O homem está mais para margem que acervo bilíngue de vagabundos, e assim tenho dito para cada um nos durantes dos meus dias.

Referências

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.
HEIDEGGER, Martin. “... poeticamente o homem habita...”. Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2001.
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.




[1] Quinta parte do poema “Cadernos de apontamentos”, p. 275-6.
[2] ROSA: 2006, p. 468.
[3] BARROS: 2010, p. 336.
[4] LISPECTOR: 1998, p. 131.
[5] LISPECTOR: 1998, p. 131.
[6] LISPECTOR: 1998, p. 131.
[7] BARROS: 2010, p. 351.
[8] BARROS: 2010, p. 400.
[9] 2001, p. 167.
[10] 2001, p. 179.
[11] BARROS: 2010, p. 343.


12 de janeiro de 2014

Prémio Literário Glória de Sant'Anna

Dirigido às Editoras que editem Poesia, o Prémio Literário Glória de Sant’Anna é uma interessante oportunidade para editoras e poetas de língua portuguesa. O prêmio de € 3.000,00 será atribuído ao autor de melhor livro de poesia em língua portuguesa, editado desde janeiro de 2013 a 7 de março de 2014.
Maiores informações no edital disponível no seguinte link: http://gloriadesantanna.files.wordpress.com/2013/10/premioliterario-regulamento-2013-a-20141.pdf


Aproveitem para conhecer o blog da Glória de Sant’Anna, disponível em: http://gloriadesantanna.wordpress.com

23 de dezembro de 2013

A hermenêutica do mar - Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos

Meus amigos, é com muita alegria que dou a notícia de que meu livro finalmente está pronto! A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos foi escrito principalmente a partir dos cinco sonetos iniciais do livro Para fazer um mar, do poeta moçambicano Virgílio de Lemos, trazendo evidentemente diálogos com outros momentos de sua escrita assim como a leitura de outras obras poéticas, literárias ou filosóficas.
Já disponível na Livraria Cultura, em breve este livro estará nas demais livrarias do Brasil (inclusive virtualmente). Mas, enquanto isso, quem quiser adquirir um exemplar, basta entrar em contato comigo por este blog. Abaixo, segue o texto da quarta capa (ou contracapa). Estão todos convidados à leitura!


De dentro de uma escrita poética, um mar foi feito... melhor, vivido. Respirando a maresia dos sonetos iniciais de Para fazer um mar, do poeta moçambicano Virgílio de Lemos, foi possível o mergulho empreendido no livro que o leitor tem agora em mãos.
A partir de uma artesania poética, composta por morte, queda, susto e epifania, travou-se a escritura de um mar. Um mar próprio, que passa a existir, a se fecundar em cada leitura, pois essa foi a experiência realizada em A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Cada palavra presente em tal obra alinhava um nascimento, uma onda versificada em pele e escrita: poesia. E, considerando que ler significa entrar naquilo que se entranha em nossa visão, em nosso corpo, li de corpo aberto ao vento os mosaicos imagéticos dos poemas virgilianos e fui enredado por sua poética. Com isso, pude criar meu próprio mar, meu próprio caminho e me perder em minha andança: solidão de letras e presságios, música e pés descalços, gerados pela entrega aos versos desse importante e fundamental poeta moçambicano.
Agora só me resta convidar aquele que quiser desbravar suas próprias águas a cair em profundo salto. Convite feito! E o mergulho acontece durante o aceno do leitor em se molhar nessa escrita temperada com sal do mar, pôr do sol, horizonte e palavra.

19 de dezembro de 2013

Homenagem ao poeta Virgílio de Lemos

Na sexta, dia 06 de dezembro, faleceu o poeta moçambicano Virgílio de Lemos. Pensei em escrever algo imediatamente, mas não queria ser oportunista e nem ser mais um a encher a internet com as mesmas informações sobre sua biografia. Contudo também não posso ficar calado, considerando que foi com sua poética que amadureci minha escrita...
Não nos conhecemos pessoalmente, mas trocamos e-mails desde 2006, quando durante minha graduação em Letras tive contato com sua poesia. Desde então, terminada a graduação e durante o curso de mestrado em Poética (durante o qual não só me debrucei quanto me fiz inconsequência em seus versos) pude perceber o vigor verbal de um poeta que existe por sua poesia. Por isso, e também sabendo o quanto o Virgílio não gostaria de melodramas (e este isso também não condiz com meu perfil), resolvi postar esta homenagem, com qual trago a público o primeiro poema que me tirou o chão e me lançou no meu próprio caminho.
É preciso dizer ainda que não foi o poeta Virgílio de Lemos que morreu, e sim o ente de carne e ossos entregue à surpreendente, inevitável e inaugural insistência de existir durante a morte. Outra coisa importante a se dizer é que seu heterônimo Duarte Galvão (autor do poema que trarei) apareceu para mim de forma controversa, suscitando muito mais do que uma perspectiva de cunho social. Desde que sua poética me tomou, enxerguei nesse heterônimo o vórtice no qual as palavras em seu sentido comum festejam a orgia de serem verbo e criação contínua... Este não foi o primeiro poema que li do poeta, seja ortônimo ou heterônimo, mas foi o que primeiro me lançou em meu abismo...

Tu és fábula

Tu és fábula
explosiva
e realidade
limite entre a gula
e o vômito
entre a volúpia
e a náusea
do verbo.
Tu és abstracto
respeito
voo
de metáforas
intestinais
de música e morte.
Tu és reflexão
artífice
de suspensos
concêntricos
enigmas de medo
masturbados
sublimados
gemidos de guerra
nos teus olhos
suicidas.

(Duarte Galvão, 1962)

10 de dezembro de 2013

O homem e sua condição de margem

Meus amigos,

Acaba de ser publicado no nº 19 da Revista dEsEnrEdoS meu ensaio “O homem e sua condição de margem”. Então, estão todos convidados a dividir essa leitura comigo! Para isso, basta acessar o link acima. E, para dar uma prévia do meu texto, deixarei abaixo seu primeiro parágrafo. Boa leitura!

O homem está mais para margem que acervo bilíngue de vagabundos. No panorama dos seus pés moram as vias que o conduzem ao encontro marcado com seu próprio desenredo. A cada passo dado, é impresso no chão o risco de se criar esteiras de caminhos e presságios de infinito. Seu rastro é sua alcunha quando eleito magnífico miserável de imensos veios.

24 de novembro de 2013

Texto da Fernanda Angius para meu livro!

Finalmente meu livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos está pronto! Muitíssimo em breve estará disponível nas melhores livrarias do Brasil!
Depois de um trabalho muito árduo e um longo tempo de espera pelo melhor momento de trazê-lo a público, enfim, a expectativa acabou. Para iniciar a comemoração e deixar uma prévia do que vem pela frente, divido com os leitores o texto de orelha que Fernanda Angius, professora em Maputo e uma das grandes pesquisadoras da literatura moçambicana, escreveu para meu livro. Fiquem, então, com o texto de orelha que a Fernanda Angius escreveu:

A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos interessará quem ama a poesia e conhece quão intrínseca ela pode ser na vida de cada um de nós. O autor deste livro foi capaz de mergulhar no mar de imenso azul virgiliano e captar o sentido profundo de seus versos.
Fábio Pessanha descobre o sentido de osmose vital do poema virgiliano, e aponta-o como verdadeira produção cosmogónica, na medida em que atribui à poética de Virgílio de Lemos a força geradora de vida, consubstanciando o sagrado criador e a matéria criada.

Etiópia Sudão Novo Mundo e extremo Oriente
escravos e canelas, baixelas de prata bordados.
Será que posso falar de omnipresente osmose
entre o sagrado e o grito mineral da carne?
(Virgílio de Lemos, “Ouamisi”)

Fábio Pessanha, o autor deste livro, domina a linguagem poética e, arrojadamente, “desvenda” uma faceta pouco tratada de outro poeta; e este outro é multifacetado e faz do mar o seu mundo e o seu corpo, respirando com paixão o mar. Este é cantado nos seus versos, impondo-se como sujeito lírico por excelência. A nossa curiosidade é desperta para um poeta moçambicano pouco conhecido. Um poeta para quem o mar é constante inspiração e fonte de energia.
Fábio Pessanha consegue, neste seu livro, tornar-nos cúmplices de Virgílio de Lemos e sentir a poética do mar na sua poesia. Segundo ele, “O tempo é teia que enlaça e amordaça o falatório de um momento. É rede que apanha a ruptura das divisões e molda nos seus nós o entrecruzamento de espaços: memória.”
A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (este que é poeta, jornalista literário e ensaísta, de origem moçambicana) leva-nos ao âmago do sentido que o mar tem na poesia de Virgílio de Lemos. Os seus versos são “fulgurância do real em lampejos de realidade” e esta talvez seja a melhor definição da poética virgiliana nas variadas representações do seu mundo interior e do seu imaginário. Aliás, tempo e memória são bem analisados no capítulo em que o autor trata o tema.
Baseando o seu interessante trabalho em, apenas, cinco sonetos do poeta estudado, e sabendo nós da extensão quase interminável da obra virgiliana, consideramos que a ousadia é coragem. Segundo o autor, Virgílio de Lemos, através do binómio tempo/memória, faz “a consubstanciação de corpo em mar” “e assim vão galopando os versos, com imagens que repercutem no interior do seu mistério a vigilância de penetrações etimológicas, de sonoridades coloridas ou acidez iridescente.”
Admiramos em Fábio Pessanha a ousadia com que “deitou mãos à obra” e se embrenhou na poética virgiliana. Hermenêutica do mar virgiliano, difícil, mas aliciante, este livro traz aos estudiosos da Literatura moçambicana um contributo importantíssimo para o reconhecimento universal de Virgílio de Lemos, um dos maiores poetas moçambicano na diáspora.
O autor deste livro, como ele próprio confessa, foi arrebatado pela poética do poeta estudado – contagiando o leitor, que não pode deixar de querer conhecer o eterno amante do mar – e mergulhou na sua lírica, seguindo os caminhos misteriosos das florestas semânticas de onde jorram os sentidos que dão significação à vida.
Se Fábio Pessanha não fosse o poeta que conhecemos, esta hermenêutica do mar não seria lida assim, pois o texto nos revela um autor que na poesia encontra sua preferida habitação. Trata-se de uma poética a desvendar outra que a iluminou.

Maputo, 31 de agosto de 2013.
Fernanda Angius



3 de novembro de 2013

Queda...

Do chão que me levanto ao céu que me estendo, caio profundezas de intermédios no opúsculo visceral de bocas e ensejos de versos... que cultura traz o culto do sonho ao se entregar sereno à queda?...

16 de outubro de 2013

Poetas...

Um poeta é aquele que vive sua morte todos os dias, num adentramento profundo em si. Ser poeta é um ensimesmar-se no que supostamente se considera ser o repetido do cotidiano. Não existe repetição, mas presentificação constante da própria morte que é. Ou então, podemos pensar, a verdadeira experiência da repetição é aquela que exerce em sua constância a diferença, como lemos em Manoel de Barros: “Repetir repetir – até ficar diferente”.[1]



[1] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 300.