19 de agosto de 2007

Pequeno pensamento sobre arte

A arte cria seu lugar e se realiza em realidades que apontam para o horizonte de todo e qualquer questionamento. A poesia é o método (metá = entre; hodós = caminho) pelo qual o homem se vislumbra na liminaridade na qual se encontra desde sempre lançado, ou seja, o "caminho-do-entre" é a realidade do homem se realizando.

Poeticamente, o homem habita o seu estar-no-mundo. Portanto, a poesia não é um gênero, um estilo ou qualquer tipo de determinação metafísica de produção humana; não serve a uma finalidade. O poético é um dar-se completo do homem à pro-cura de sua humanização, de seu originário. A arte é o sagrado silêncio, o abismo do qual surge o paradoxo e este é o sentido mais radical de estar vivo. Humanamente, poetificamos o a-se-pensar de um lugar que está sempre por existir, mas nunca existirá numa limitação mensurada pela razão.

O silêncio tudo nos diz... a arte nos consagra poetas. E poeta é todo aquele que atravessa a limitação do subjetivismo e habita a ambigüidade da vida-entre-morte.

8 de agosto de 2007

Interpretação do poema “Vereis que o poema cresce independente”, de Jorge de Lima

VEREIS QUE O POEMA CRESCE INDEPENDENTE

Vereis que o poema cresce independente
E tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
Algas e peixes lívidos sem dentes,
Veleiros mortos, coisas imprecisas,

Coisas neutras de aspecto suficiente
A evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
Entre as noites e os dias, entre as vagas
E as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...

Qualquer poema é talvez essas metades:
Essas indecisões das coisas vagas
Que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.


(Jorge de Lima. Livro de sonetos, 1949)


Interpretação:

Podemos observar que este poema se faz presente mediante dois movimentos que prescindem de limitação, posto que suas fronteiras se dissolvem, impossibilitando-nos de apontar categoricamente onde termina um para se iniciar outro. Entretanto, como horizonte desta interpretação, adotaremos um marco que delimitará nosso percurso sem, contudo, fazer-se absoluto.

Da primeira estrofe até a metade da segunda, o primeiro movimento nos é revelado como uma “conversa” com os leitores, na medida em que se diz: Vereis que o poema cresce (...). O segundo movimento se inicia quando vemos um verbo imperativo na metade da segunda estrofe: Parai sombras (...). A partir de então, estes dois movimentos se mesclarão numa atmosfera de imprecisão percebida tanto pela alteração do modo verbal quanto pelo ritmo semântico que os versos expressarão.

Percorrendo o primeiro movimento do poema, em seu verso inicial observamos dois verbos primordiais para o desenvolvimento da obra em questão: ver (Vereis – v.1) e crescer (cresce – v.1). O “ver” projeta no “crescer” a dimensão do porvir, indicando uma subordinação ao futuro. Tal articulação é possibilitada pela conjunção integrante que (v.1) onde, como o nome já diz, traz à união aquilo que, a princípio, não compartilha de uma unidade, mas que passa a integrar, neste sentido, um acontecimento à presentificação e ao mostrar-se.

O poema, como aquele que cresce imerso no tempo de experienciação, dimensionaliza-se em dois adjetivos que, no contexto do poema, mostram-se adverbializados: independente (v.1) e tirânico (v.2). Tendo em vista essa possibilidade dual, porém não dicotômica que se espraia por todo o poema, o mesmo se desenvolve ambiguamente ao congregar uma liberdade que se radicaliza no desprendimento de um agente, de um sujeito que o faça trilhar um percurso obediente. Assim, a independência e a tirania comunicam a imprecisão de uma certeza pela qual já se saberia um destino certo.

Considerando que crescer é se apropriar da verdade enquanto ação de desvelar o que se ocultara, o poema se move entre imprecisões. Esta idéia é o centro do mesmo, quando a imprecisão indica o posicionamento num entre-lugar, no cerne de um andamento que não deixa o poema se estagnar como objeto, como resultado de uma fórmula versificante; posto que a imprecisão é a negação de uma medida ao entendermos “precisar” como acertar, ajustar. Logo, esta obra poética é um soneto, sim, mas que consegue insuflar um dizer misterioso, marcado por coisas imprecisas (v.4) em sua peculiar e tradicional estrutura.

Ainda no primeiro movimento, é interessante notar a relação entre o substantivo coisas (v.4; v.5) e seus adjetivos imprecisas (v.4) e neutras (v.5). Tanto o nome quanto suas atribuições apontam para o incerto, para um caminhar tenso. Na fala corrente, “coisa” é tudo aquilo que não recebe especificação e, no poema, as especificações ligadas a tal substantivo indicam o mesmo norte de imprecisão, já que a neutralidade seria a imprecisão de uma posição, ou seja, é aquilo que habita o abismo entre uma negação e uma afirmação. É desse abismo que surge a força do evocar, uma vez que tal verbo significa chamar à presença. Desse modo, o que se presentificaria?

Possivelmente, tudo que permanece velado no passado enquanto memória: Ó irmãos, banhistas, brisas (v.2). Eis a mobilidade da vida enquanto ação e retração do experienciar. Tudo que é vivido habita a claridade para, quase no mesmo instante, ganhar as sombras do passado enquanto guardião do porvir.

Da oposição entre a neutralidade e a suficiência, a memória manifesta o presente ao trazer à tona os acontecimentos vigentes como realidade. Isto é, afogados (v.6), sombras e gentes (v.7) nos falam de um desocultamento promovido pela memória em que tal ação chega ao seu auge quando, já no segundo movimento do poema, temos o verso Que este poema é poema sem balizas. Se num momento anterior, a mudança do modo verbal para o imperativo já delineava uma mudança no percurso poético (Parai sombras e gentes! - v.7), a dita “conclusão” do verso 8 nos lança inegavelmente na vigência da ambigüidade, na medida em que não ter balizas é a assunção de uma queda abismal na ilimitabilidade do pensar.

A partir do nono verso (Mas que venham de vós perplexidades), qualquer tentativa de impedimento do fruir poético é desfeita. As “porteiras” da ambigüidade foram escancaradas e todo movimento se volta para o entre. O entre, então, dá-se como o originário da perplexidade, quando esta nos diz o espanto, o admirar-se poético. Um dado que nos permite concordar com o vigor do entre neste poema é que, além de figurar direta (Entre as noites e os dias – v.10) ou indiretamente (... essas metades – v.12) no mesmo, sua disponibilidade tanto reveladora quanto misteriosa se presentifica reticentemente: entre... (v.11). As reticências são o encobrimento de qualquer certeza que possa se infiltrar neste poema. Elas nos deixam livres ao pensamento, a um mergulho cego na razão quando esta se desconfigura na interpretação.

Na última estrofe, temos quase uma conclusão na medida em que metalingüisticamente o poema seria definido: Qualquer poema é talvez essas metades: (v.12). Contudo, esta possível definição perde sua força já desde o início do 12º verso com a palavra Qualquer. Esta retira a exclusividade do poema e universaliza sua unicidade, lançando-o na tensão de um entre-lugar (...metades – v.12). Este percurso conclama a ambigüidade poética e a projeta na dimensão do corpo: Que isso tudo lhe nutre sangue e ventre (v.14). Assim, (...) tudo (...) retoma a memória e congrega as incertezas de um caminhar racional. Dialoga com o ciclo vital de um ente que se individualiza na propriedade do seu sangue a partir do nascimento físico (...ventre – v.14).

Portanto, o verso final retoma o inicial numa circularidade evidente, posto que ventre se ressignificará poeticamente. Será tanto a origem do corpo que vive na densidade da realidade quanto a pro-cura do poema pelo originário na vigência do real.

3 de agosto de 2007

Comunicação na UERJ/FFP

Estarei apresentando meu texto O insólito na dimensão do poético: o movimento de um questionar no evento que ocorrerá entre os dias 7 e 9 de agosto na UERJ/FFP (em São Gonçalo). Tal evento é intitulado Reflexões sobre o insólito na narrativa ficcional: o insólito na narrativa rubiana.

Minha comunicação está agendada para o dia 07 (terça-feira), por volta das 14h. Estão todos convidados a participarem do evento e, quem sabe, irem me assistir!

Para saber a programação completa, é só visitar o seguinte endereço: http://insolito-ficcional.blogspot.com/

Quando sair a publicação, deixarei o link do texto completo aqui no blog. Por enquanto, deixo o resumo:

O INSÓLITO NA DIMENSÃO DO POÉTICO: O MOVIMENTO DE UM QUESTIONAR

Partindo do Insólito enquanto questão, o mesmo será pensado mediante três perspectivas: além da concepção de gênero literário; no viés da narrativa como doação do poético e, por último, retomando o gênero no contexto de um movimento questionador. Assim, não será feito um estudo meramente “sobre” o Insólito, posto que falar “sobre” é se colocar numa posição de afastamento, como expectador da reificação do literário.

Numa breve tentativa de re-pensar o Insólito enquanto gênero da literatura, caminharemos por algumas vias da teoria tradicional, a saber: a narrativa e o Fantástico, segundo estudos feitos por Tzvetan Todorov. Entretanto, em vez de reafirmar tais teorizações, encaminhar-nos-emos pelo poético como proveniência de um percurso questionador.

Por fim, só na dimensão do poético seremos capazes de realmente perceber a narrativa fantástica ou o Insólito propriamente dito não como meras adjetivações alocadas no que comumente se entende por gênero literário, mas como o modo que o homem se relaciona com o real.

23 de julho de 2007

Depravações verborrágicas

Sacro sol
Do inverso poema
Às custas da esquina
Da porta de saída
Anteparo do nada

Vozes surdas
À espreita de um deslize
Escuta
Depravações verborrágicas

17 de julho de 2007

O palco em três diálogos: a terra, o habitar e o sagrado

Saiu a publicação do pequeno ensaio com o qual participei do "III ENCONTRO NACIONAL DE POESIA E PENSAMENTO - Interdisciplinaridade Poética: corpo – mundo – terra" na Faculdade de Letras da UFRJ. Deixo aqui o resumo do mesmo, mas para quem quiser conferir o texto integral, visite o site da "Revista Garrafa". Eis o link: www.ciencialit.letras.ufrj.br/revista_garrafa13v2.html
É o nº 13, vol II. Confiram!!!

O Resumo:

O PALCO EM TRÊS DIÁLOGOS: A TERRA, O HABITAR E O SAGRADO

Num percurso que se desvia do senso comum ao pensar o teatro como função catártica, o palco emerge da tradicional fundamentação teórica e se mostra vivo em três diálogos primordiais: o palco como terra, como habitar e como sagrado.

Como terra, o palco se diz no crescer do homem; como habitar, o homem constrói ao se pôr em correspondência com a linguagem; como sagrado, é a reunião entre corpo, terra e mundo.

25 de junho de 2007

Interpretação do poema “Eternidade”, de Jorge de Lima

Eternidade

Ele reviu-se:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.

Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.

Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
Morrendo
Numa estrela.

Ele despiu-se
de quê?
De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara
Agora vê.


1º movimento: v.1-10
2º movimento: v.11-15
3º movimento: v.16-22


Sobre o título:

A eternidade é o tempo em pleno vigor sem estar atrelado a qualquer limitação. Tanto não há um ponto de partida quanto não há um de chegada, ou seja, é a plenitude mais radical do que se espraia no vazio quando o presente congrega tanto o passado quanto o futuro num mesmo ponto.
A eternidade, no caso do título deste poema, remete-nos à inclusão inevitável da vida na morte, uma vez que uma não se dissocia da outra. Estão e são juntas no seio do tempo como veremos no andamento da interpretação.

Movimentos do poema

Ao iniciarmos a leitura, já nos deparamos com um termo que pode ser problemático quando radicado na necessidade de se lhe adequar forma, função e finalidade: o “Ele”.
Quem é “Ele”? Quem é que se reviu? É o sujeito? Eu-lírico?
A priori, o termo escolhido para melhor definir este “Ele” é o eu lírico, segundo a corrente leitura poética academicamente firmada. Entretanto, este eu-lírico se põe na mesma posição de qualquer outra definição, isto é, seja a de autor, de poeta, ou mesmo do eu-lírico, todos esbarram num problema: o estabelecimento de uma certeza, de um saber que perpassará a leitura como meta a ser alcançada por uma definição do que ou de quem seja este “Ele”.
O “sucesso” de uma interpretação por nós alcançado seria o da proximidade, pois só o poeta sabe quem é este “Ele”. Podemos entender esta proximidade como o não-esvaziamento do poema em verborragias contextualizadas, isto é, o poema como obra de arte única, nunca se revelará por completo ao leitor. Haverá sempre um diálogo ungido pelo encobrir e descobrir do poema enquanto vida acontecendo. Simplificando, a leitura de um poema será sempre uma relação tensa em que, na interpretação, o vigor do entre (inter-) se manifestará como o não-dito que se diz enquanto silêncio e se cala enquanto fala.
Como caminho ou método de leitura aqui proposta, o “Ele” não terá definição ou conceito. Será a abertura que se plenifica na eternidade, pois dizer quem é este “Ele” seria partir de uma limitação que circunscreve o poema nos limites de teorias acadêmicas, uma vez que tudo aquilo que se diria análise seriam reafirmações catedráticas de repetições ecoantes nos corredores da tradição.
O poema não pergunta quem se reviu. Propõe um caminhar único que se singulariza no diálogo com o leitor quando a interpretação é o caminho pelo qual tanto o leitor quanto o poema se farão únicos na procura pela verdade. Posto que esta é aquilo que se revela (alétheia) na imersão da leitura.
Portanto, “Ele” é o próprio vigor da eternidade desatrelado da adequação de uma definição calcada em teorizações que encerram o poético em correntes literárias em vez de deixar a poesia acontecer.
Seguindo na leitura do primeiro movimento do poema, há a percepção da perda da materialidade como nos diz a primeira estrofe, ou seja, ao se rever, ocorre o espanto: momento em que há uma ruptura na linearidade imposta pelas sensações físico-corporais seguido do lançamento no aprofundamento do vazio originante. Todo este acontecimento nos é transmitido pelo uso de uma figura simples que passa corriqueiramente despercebida: os “dois pontos” (“:” v.1; v.7; v.11). Estes “dois pontos” suspendem o caminho habitual e inauguram uma nova percepção: o fim da linearidade convergente no corpo físico. Desta forma, o corpo não era mais fisicalidade, pois não existia como tal (matéria orgânica). E esta afirmativa é vista sob uma tripla ratificação, permitida pela conjunção com valor negativo: “nem”. Neste sentido, tal palavra nega a existência material e metafísica de um corpo normalmente afirmado tátil e visualmente, portanto, um “objeto” que produz sombra e culmina nas ruínas de tal existir (escombros, v.5). Assim, a morte é tratada como imersão na imensidão do vazio quando a palavra “irreal” se apresenta como além do que, segundo o senso comum e a corrente acepção semântica, é real também nos ditames comuns do cotidiano: o que é sólido (idéia comum do que seja concreto) e se presentifica materialmente.
A pergunta na segunda estrofe demonstra o espanto: Como foi isso? (v.6). A resposta vem com uma imagem que nos lança à perplexidade do acontecimento poético: um barco que bóia sem estar no mar. Assim sendo, imerso no nada, integrado à eternidade.
O corpo que antes se limitava à circunscrição presencial, agora habita a tensão entre morte e vida numa dinâmica infinda de não-dissociação.
No segundo movimento, o afastamento evidenciado na primeira estrofe, propiciado entre um sujeito que observa e um objeto que é observado (Ele reviu-se v.1) se esvai na medida em que um e outro são o mesmo. Há um sentido agora, quando sentido é tanto o caminho pelo qual se segue quanto a apropriação legítima do que é próprio de quem sente. Então, quebrada a dicotomia sujeito X objeto, há uma aproximação, um sentir; e, neste sentir, o ciclo recomeça.
Interessante notar na estrutura do poema que o verbo “recomeçar” (recomeçava v.12) dá conta de todo o resto da estrofe por trazer a circularidade em emergência. Os “dois pontos” ocupam o abismo que se estabelece entre o sentir e o recomeçar, dando ao leitor a sensação de breve sustentação que tende à queda como um objeto qualquer quando é lançado ao alto e segue seu percurso até que, num determinado momento, a velocidade cessa. Tal corpo pára no ar e logo começa a cair. Este momento em que o objeto pára nos diz o silêncio primordial de todas as coisas, a eternidade, daí que “Ele”, após se sentir, silencia-se, espanta-se, admira-se para que só assim possa recomeçar: viver em toda plenitude da morte.
Uma outra informação é que o verbo “viver” está no pretérito mais-que-perfeito, ou seja, está lançado no tempo e apontando um passado revisitado que se relaciona com o verbo “morrer” na forma gerundiva. Portanto, ressaltando o aspecto de continuidade, de permanência. Tal diálogo entre formas e estruturas verbais nos indica que a morte não só permeia como integra a anterioridade da vida.
Vivera / Morrendo / Numa estrela (v. 13-15) nos diz a intimidade entre vida e morte culminada no entre-alvorecer-anoitecer quando, assim como a estrela tanto se oculta quanto surge no céu do nosso olhar humano, a vida se oculta na morte e dela se manifesta. Este movimento pode ser até percebido formalmente pelo uso de letras maiúsculas no início de cada verso dos último três que compõem a terceira estrofe. Então, o viver e o morrer referenciados à (...) estrela (v.15) que se vela e se desvela indicam o recomeçar que habita a liminaridade de um existir. Ou seja, a eternidade se doando num período efêmero de existência do “Ele” enquanto carnalmente vivo.
A estrela, poeticamente, é o que surge no céu, perfurando a escuridão da noite. Esta escuridão é o não-saber, é o véu que cobre a verdade em sua mais profunda ligação com o real.
Ao surgir no céu, a estrela guia aquele que está perdido no silêncio imagético. Ela aponta, mas não dá o caminho, pois o caminhar é uma experiência única e individual desgarrada de rotas pré-determinadas.
Retomando o que já fora mencionado no segundo movimento do poema, o sentir é o ponto mais radical da tensão entre vida e morte. Logo, Ele sentiu-se (v.11) e se admirou (referência aos “dois pontos”), ouviu o silêncio e, da eternidade, recomeçou.
O terceiro movimento quebra o andamento do poema (visto apenas sob uma perspectiva estrutural) ao inserir uma pergunta que toma o lugar dos dois pontos, numa dimensão que se fixa na forma do poema. Prevalece uma sensação de maior certeza em que o espanto é consumado quando a resposta compreende o preenchimento de um perguntar.
Despido de uma vida metafísica, ou seja, de tudo que compusera sua existência entitária, portanto, do mundo no qual habitara, “Ele”, já sem ouvir e sem falar, encontrou-se quando, ao se cegar, voltou a enxergar. Noutras palavras, o tudo (v.18) é a razão que certificava uma vida sem morte, limitada pela possessividade caracterizante de seu singular contexto existente como parte social. ...tudo / que amara (v.18-19) são as lembranças que, embora passadas, insistiam em permanecerem presentes.
Olhos emudecidos, a razão tem seu fim quando a adequação entre uma verdade conceitual e sua afirmação se extingue. Então, a dor oriunda pela incerteza de um nome atribuído a uma coisa qualquer se finda quando tal necessidade é desfeita. Por isso, quando a cegueira obscurece a razão, “Ele” passa a ver. Contudo não é um ver orgânico, é uma escuta na medida em que escutar não é medir o som com os ouvidos, mas se abrir à experienciação da procura pelo que lhe é próprio.
Só estando cego da razão, isto é, livre da prisão metafísica do enquadramento terminológico (o senso comum prevalecendo para fins comunicacionais) é que a eternidade se plenifica e a morte deixa de significar o fim.
Ver é se lançar no infinito e integrar o Logos enquanto eternidade, enquanto um sem-fim de “lonjura” não distanciada. Daí que Agora vê (v.22) nos diz a libertação do cárcere orgânico do corpo quando a visão está limitada a funções regadas a sangue e atrelada ao arranjo do conjunto nevrálgico do sentido físico da visão. Ver não é medir com olhos, mas estar na luz em tensão com a escuridão. Assim sendo, descarnado de ...tudo / que amara (v.18-19) quando este “tudo” reflete o acúmulo diário de vivências alocadas na reificação das lembranças, na adequação das reminiscências aos fatos “embrulhados para presente”.
Tudo que “Ele” amou e ficou no passado é um entendimento da memória como retentora de imagens vividas e não como a verdade desvelada a partir do esquecimento, ou melhor, daquilo que se dá como realidade a partir do real. Memória como lembranças é o que antecede os “dois pontos” no corpo do poema, isto é, aquilo que está preso à materialidade.
Enfim, no último movimento, somem os dois pontos e entra o questionamento do que se perdeu (...despiu-se - v.16). É quando a memória deixa sua superficialidade conceitual e passa a revelar toda a dinâmica do tempo não-cronológico que se move na eternidade, numa imbricação não-hierarquizante (tempo/eternidade) que possibilita o ver-se como tempo infindo.

14 de junho de 2007

Mensagem ao nada (a gentileza do amor universal)

Ao meu amigo (O) Branco:

Anáforas gritantes pululam o céu sob o escorbuto sorridente do poeta. Por vasos pantanosos o sangue florifica horrores odoríficos de um jardim desplantado.
A terra tanto retrai quanto atrai o vagabundo mórfico de gramáticas espaciais críveis por quem habita o fora-além-escuro.
Imagens não permitidas rodeiam meu corpo em cirandas malditas de crianças decapitadas. O que será isto? A morte? Aí só a brancura explica acidamente o infortúnio da inspiração desabitada.
Por entre notas e violinos, a curva arrefece a dúvida e o frio passa a aquecer qualquer agasalho retículo-furuncular. O mesmo se repete incansavelmente em descaminhos poético-astronáuticos.
"O padre tá esmolando, o pastor tá pastando e o papa? O que que tá fazendo? Tá papando!"
E não-fim...

9 de junho de 2007

O que o isto não é?

Novidade!!! Agora o blog se irreverte também com exibição de curtas!!

Muito fácil é perguntar pelo que é isto: o que é isto? Quando isto nos diz alguma coisa de conceitual-aprisionado-no-quem-sabe-responde. Um afirmação total de toda reafirmação desejosa de ser desejada reafirmar o sol que se põe no oeste. Mas e se o sol não nascer? Então, onde acordará o dia?

O que não é o isto? O que não é toda resposta desperdiçada nas certezas efêmeras de um perguntar ingênuo? Qual a razão do dizer limitado entre dois fins? O que é o começo? O que não é o fim? O que o isto não é? O que é isto, o não-isto?

CLIQUE AQUI E ASSISTA AO CURTA

15 de maio de 2007

O avesso de uma coisa

Quando pensamos em algo, fazemos logo uma correlação com um próximo, um parente, um exemplo. Sempre há o outro lado, mesmo que inventado. Pois para isso somos humanos: inventamos o que não existe numa loucura redundante, já que nunca se pode inventar o que não existe pelo simples motivo de tal coisa, então, passar a existir após ser inventado.

Inventa-se a invenção, a ludibriosa falácia bêbada da filosofia erudito-cotidiana. O aqui, sendo agora, numa sub-invenção do que já existe no não-existir de uma memória coletiva tão individual quanto ímpar. E a coisa, perdida em coisidades várias, procura seu outro lado do um.

É lá, achado na perdição das poeiras habitantes do entre-tapete-chão que a coisa se torna objeto de desejo. Des-explico: se desejo algo, este algo é aquilo que ainda não tenho. O desejo torna possível um querer se realizar em poder. Mas não em referência à frase clichê querer é poder e sim em relação ao não querer relacionar. Suprir uma suposta ausência passou a se adequar às necessidades de qualquer desejo: a metafísica funcionando como garoto-de-recados-pós-moderno no qual um vazio clama pelo seu rápido enchimento. Um transbordar obsceno de idéias estupradas pela razão. Isso é o preenchimento do vazio, do pensamento e do questionar por ditames conceituais vigentes nos manuais filhinhos-de-papai.

Qual é o contrário de um cachorro, de uma mesa ou, como diz o professor Antônio Jardim, de uma uva? Esse contrário é a doença ocidental que deixa nossas cabeças formatadas ou anuladas já prestes às ejaculações enunciativas de definição do que se queira alvamente conceituado. Entretanto, a idéia não deixa de ser um excelente exercício ao absurdo, quando tal absurdo é o próprio pensamento largando mão da razão e sendo livre à imersão do seu pensar. Qual o contrário de um cachorro? Respondo: um gato, um prego, o espaço entre um rosto e um punho no momento de um soco!

10 de maio de 2007

Interdisciplinaridade Poética: corpo - mundo - terra

Entre os dias 14 e 17 de maio de 2007, na Faculdade de Letras da UFRJ, estará acontecendo o III ENCONTRO NACIONAL DE POESIA E PENSAMENTO - Interdisciplinaridade Poética: corpo – mundo – terra, trazendo a todos a interdisciplinaridade pelo que é de fato: a união das diversas formas de pensamento que primam pela discussão das diferenças na busca pela identidade.

Entre conferencistas, comunicadores e artistas da dança, música e poesia, o pensamento se firmará na densidade da palavra em seu maior vigor poético: a união entre corpo, terra e mundo em diálogo com a arte.

Algumas das questões que impulsionam as discussões são: o que a arte é? Sistema? Organismo? Objeto? Corpo? Mundo? Terra?

Para quem se interessar, as informações mais completas sobre o evento estão no site www.letras.ufrj.br/poeticadaterra

Todos estão convidados a participar. Então, para quem estiver pelo Rio ou quiser fazer uma verdadeira viagem poética, passe pela Faculdade de Letras e salte na inquietude do pensamento em acontecimento.

Deixo aqui a proposta do evento (retirada do site acima):

III ENCONTRO NACIONAL DE POESIA E PENSAMENTO: 14 a 17 de MAIO
- INTERDISCIPLINARIDADE POÉTICA -

CORPO, MUNDO E TERRA EM QUESTÃO:


1ª. Discussão do lugar da interdisciplinaridade poética;
2ª. Reflexão sobre uma universidade futura, projetada e organizada a partir da interdisciplinaridade;

Justificações

1ª. Numa interpretação epistemológica da realidade, não se dá o devido lugar à presença e força das artes, porque estas são lidas apenas no âmbito dos saberes, das disciplinas. Tudo isso é muito importante e necessário. Mas resta a questão: as artes podem ser reduzidas a disciplinas entre outras disciplinas ou seu caráter ambíguo não exige também uma reflexão sobre a força do “entre” em que se move todo conhecimento. Que “entre” é esse? Por que sempre se pensam as “disciplinas” e nunca se pensa o “inter” das disciplinas? Como pensar as artes senão dentro e a partir das próprias artes?

Estas questões podem e devem ser discutidas. Como preparação prévia já foram publicados dois números da revista Tempo Brasileiro: INTERDISCIPLINARIDADE: DIMENSÕES POÉTICAS, No. 164 e INTERDISCIPLINARIADE EM QUESTÃO, No. 165. Os dois números serão lançados durante evento.

A nova realidade apresenta desafios novos. A POÉTICA INTERDISCIPLINAR quer trazer a sua reflexão e suas propostas de renovação e realização de uma humanidade mais humana. Diante de diversas teorias esgotadas, achamos que propor uma nova é totalmente fora de propósito. Por onde começar? Pelos COMEÇOS, pelas origens. E o que sempre é ORIGINÁRIO? Cremos que as questões permanentes em que nos debatemos e envolvemos são: CORPO, MUNDO e TERRA. Mas como questões e não como conceitos. Elas exigem sempre um SABER RENOVADO. Nesse sentido organizamos o seguinte evento:


III ENCONTRO NACIONAL DE POESIA E PENSAMENTO: 14 a 17 de MAIO

- INTERDISCIPLINARIDADE POÉTICA -

CORPO, MUNDO E TERRA
EM QUESTÃO:

Na arte: Prof. Iaa Torrano
Na poesia: Prof. Gilvan Fogel
Na poética-ecologia: Prof. Manuel Antônio de Castro
Na música: Prof. Antônio Jardim
Na dança: Profa. Maria Ignês Calfa
Na literatura: Prof. Ronaldes de Melo e Souza
Na filosofia: Prof. Emmanuel Carneiro Leão
No pensamento: Prof. Ronaldo Lima Lins
Na sociedade: Prof. André Bueno
Na história: Prof. Luis Montez
No mito: Prof. Werner Aguiar
Na língua: Prof. Marco Lucchesi

LOCAL: FACULDADE DE LETRAS - UFRJ

2ª. Uma nova universidade está se desenhando no horizonte das profundas transformações por que passa a humanidade, frente a uma globalização em muitos sentidos, sobretudo a dos conhecimentos através das infovias. Tudo isto vem transformar o tripé em que se baseou todo conhecimento ao longo da história: produção, acumulação e transmissão. Está na hora de pensarmos uma nova universidade no horizonte destas profundas transformações. Não só pensar, mas projetar e realizar as devidas modificações.

Doze universidades federais (inclusive a UFRJ) já pensam em mudar o sistema de ingresso dos alunos novos na universidade e em implantar os BACHARELADOS INTERDISCIPLINARES. O que isso implica para o futuro das artes e a formação do ser humano de um modo integral? Será APENAS mais um modelo de preparação funcional para uma sociedade técnica e globalizada, sem levar em conta a formação integral do ser humano? Nós, das áreas (disciplinas) humanas, estamos preparados para ter voz e lugar nessa nova universidade? Haveria um modelo único? Não está em jogo a própria concepção do ser humano e de sua vida em sociedade? De maneira alguma, porque inútil, se trata de cair numa oposição, mas fundamentalmente de buscar o equilíbrio. A reflexão sobre a interdisciplinaridade poética não poderia propor algumas alternativas e direções? Aqui estaríamos fazendo a ponte e ligação com as discussões do primeiro tópico.

Para nos falar desta NOVA UNIVERSIDADE convidamos o Reitor da UFRJ, prof. Aloísio Teixeira.

Organização e promoção:
Núcleo interdisciplinar de estudos de Poética – NIEP – Área de Poética
Programa de pós-graduação de Ciência da Literatura
Direção da Faculdade de Letras

4 de abril de 2007

Nada além do repetido...

Na tentativa de dizer o novo, refaz-se a mesmice do vício tautológico. O sujeito é buscado neuroticamente em curvas infinitas de cegueira metafísica... é preciso retirar o véu...


Tautologia

Silenciando o sol,
ao meio-dia
o furor.

Em formas que fundem
livros desmentidos...
o pleonasmo da boca saltou.

Fábio Santana

26 de março de 2007

Homem: diálogo e poesia

Um poema, comumente, é visto sob a sombra dos conceitos, além de a ele serem atribuídos julgamentos e predicações. Ajuizar um poema é colocá-lo no plano do verbo ser como mero e vazio verbo de ligação. Ou seja, é achar que um poema é isso ou é aquilo. Mas afirmo: um poema não é, opera! E só neste operar é que tal obra é!

Dizer que um poema é, significa relegá-lo ao plano do ente, pois todo ente é à medida que realiza uma realidade do real. Desta maneira, o ente aponta para as realizações do real e o real aponta para o Ser. Ser não como um verbo de ligação, mas como a abertura às questões, como horizonte inalcançável, posto que seja o caminho do originário, o vigor da tensão ser-não-sendo. Então, um poema é a própria vida em andamento, é o agir do homem no vigor de sua liminaridade, é poiesis! À poesia não cabem definições, aparatos técnicos ou avaliações que ocupam a superficialidade das adjetivações. A poesia é o próprio acontecimento do homem como mundo, como vida.

Criar um poema não é se isolar do convívio social e dar vazão a codificações tangentes ao sentimentalismo simplório, muito pelo contrário: é estar efetivamente em contato com a terra, com o próximo, com a vida, com o mundo. Pois poetar é operar, pôr-se em contato com o infinito e dialogar; é adentrar a tensão da interpretação quando esta é o caminho para o original, à proporção em que se dá como originária.

Quanto à linguagem, vivemos nela e para ela. A impossibilidade de um afastamento se configura pelo simples saber de que ela nos antecede e dela somos realizados. Mais uma vez, diferente do que vemos por aí, a linguagem não suporta ocupar as limitações dos conceitos. Isto é, não é em aulas de Lingüística que aprendemos sobre a linguagem. Até porque aí já se mostra uma série de equívocos primordiais, mas que me limito a alguns poucos neste momento: primeiro, não aprendemos a linguagem num contexto estabelecido pela relação de esclarecimento a algo que antes era desconhecido e passou ao espaço do esclarecimento, num movimento de preenchimento do que antes não se tinha conhecimento; segundo, não falamos ou raciocinamos sobre a linguagem: falamos e pensamos linguagem! A preposição "sobre" indica meio como forma de instrumentalização, refere-se a escolher um caminho dentre muitos, desconhecendo o que Heráclito de Éfeso diz em seu fragmento 50: Auscultando não a mim mas o logos, é sábio concordar que tudo é um. Noutras palavras, é dar a um determinado caminho a superação de todos os outros ao colocá-lo como único por meio da exclusão dos demais. Portanto, poetar é ser a linguagem em seu acontecimento, quando acontecer é desocultar o que antes estava oculto, é a verdade se revelando no seu mais profundo e íntimo gesto de desvelamento.

Enfim, o homem e a poesia têm uma relação muito íntima. Só conseguimos perceber tal proximidade quando conseguimos nos desvencilhar do olhar da produção. Isto é, achar que um poema é produto da criação quando configurado como objeto poético. Um poema enquanto poesia é poiesis, logo, é o agir do homem se desvelando como humanidade e se velando como homem. Portanto, viemos do silêncio e, numa simultaneidade do gesto criativo, dialogamos com a poesia na medida em que somos uma doação da poiesis e, em última instância, do Ser.

20 de fevereiro de 2007

Folias poéticas de um carnaval noturno*

No carnaval dos paradoxos, as sombras iluminam os cantos e as esquinas do pensamento. Turvam alvas ingenuidades e prevalecem celebrando a infinitude. Por vieses tortos, a escrita se limita ao corpo trancado: organismo dilacerado em desejos inconclusos e cacográficos!

No fim, dá-se o início! E só assim podem caminhar as sombras da poesia perdida à luz do poetar-pensante. Noutras palavras, criar é se desvelar, é sair do oculto e, sempre permanecendo, ser o acontecimento da verdade. Posto que esta é o que se revela em realidade, tensionando com o que se vela em realizações.

O homem é o uno que se desdiz em cada sopro, que se identifica com a efemeridade de um sorriso decadente ao perder sua, então, suposta unicidade. Contudo, não é a unicidade que é perdida, pois só se perde o que se retira e abstrai. Logo, o homem não abstrai seu ser: é homem em cada parte do seu corpo e em cada memória que se diz tanto reminiscência quanto realidade. O que se perde é, exatamente, aquilo que lhe foi presenteado pelo acaso, pelo rebaixamento racionalista do pensamento que diz o ser-homem ser construído socialmente.

As favelas da criação são fantasias forjadas na desilusão da canção perdida em assobios andarilhos. Cada nota é vento que rubra o contorno da percepção e volta à procura da harmonia, perfazendo-se em blocos de virtuais discussões e pessoas re-feitas por arranjos byticos. O carnaval ambíguo, feito de luz e sombras, a todos toma imperceptivelmente na medida em que os poetas se guardam em ilusões colombinas e se mostram no despertar epifânico do canto, da dança e da memória.

A pro-cura é primordial! O retorno (sempre esperado e presente) norteia todos, independente da vontade. A sobriedade do sombrio é o sagrado nas folhas de papel jogadas no lixo. Folhas estas que se metamorfosearam em telas iluminadas e recheadas de pixels que não dão espaço para o respirar, talvez para o transpirar, mas este já digitalmente composto. Os poemas rasgados na lixeira são restos de cansaço, mosaicos de pensamentos tensos, de movimentos furiosos. Tal receptáculo monturo é o continente privilegiado das sobras de elucubrações pífias ou modernamente não aceitas. No entanto, é necessário se ter cuidado e escutar! Auscultar com o ouvido quase penetrando a folha de papel amassado, pois ali está a vida! Ali repousa os caminhos que não encontraram seu “objetivo estético”, ali está a precocidade da não-escuta e o voraz ajuizamento comumente necessário ao descuidado trato poético vigente na modernidade dos suportes (entendamos suporte como o meio pelo qual algo é veiculado e a esse veículo é dada importância desmedida a ponto de se confundir conteúdo com continente em termos de importância essencial).

Ao contrário do que se pensa, poetar é tão simples e natural quanto viver! Pois poesia é vida acontecendo, é aperto de mãos e abraço no amigo querido, é o gorjear dos pássaros nas árvores, é a morte plena trazendo a novidade: doação para a vida, é o horizonte que nos contém e nos aponta as possibilidades. Poesia é ação de estar vivo, é poiesis! Não permite erros: é o próprio erro, quando este transcende mera adjetivação ou oposição metafísica (erro X acerto) e se diz percorrer. Daí que percorrer é se lançar na ambigüidade do caminho e experienciar os não-limites do percurso.

Enfim, criar um poema é a certeza de que toda gama conceitual que nos encobre de normatizações foi desfeita e jogada no limbo da inconseqüência. Criar um poema é poetar livremente, quando somos mundo em acontecimento e nos realizamos como vida!

*Em agradecimento aos "sombrios" e "titânicos" papos carnavalescos.

11 de fevereiro de 2007

Sinos mnemônicos da antropofagia digital

...a memória me traz os acontecimentos. Melhor: joga-me neles ao mesmo tempo em que me faz acontecer como memorável. Se memória é sentido, aponta um caminho numa dinâmica que é também o próprio caminho...
Lembra-se daquela igreja? Sim, seus sinos ainda são pontuais. Cada badalar ecoa, num instante, as reminiscências de uma dimensão extra. Contudo, sou poeta. Sou a história acontecendo, sou a linguagem em pleno vigor, sou música e musical. Então, o tal instante insta, para, no mesmo momento, deixar de existir como lembrança sob a égide da aniquilação.
As reminiscências extrapolam o lugar do conceito e se abrem mnemonicamente (Mnemósine). É memória viva desde sempre presente. É a possibilidade de todo possibilitar.
Os sinos deixam o altar e se sacralizam no próprio infinito. Mas não se sacralizam como num mecanismo de antes e depois, ou seja, não se configura uma situação em que antes não eram para depois passarem a ser sagrados. Portanto, já desde sempre o são. O que houve foi a destruição da escada após cada degrau alcançado. Daí, os sinos continuam a bater independente de qualquer antropofagia: high-tech... high-tech... high-tech...

High-tech

Na travessia do que vejo,
ao fechar os olhos
o bocejo da musa
sussurra o absurdo do nada.

O dizer que se fala calado
escuta o grito do coma espiritual
dos que repousam a cética liturgia
na hipermodalidade do desigual reflexo

Um toque.
Um clique.
A máquina da evolução
trava o andamento do espanto
ao cerrar a imaginação de outrora.

Fábio Santana

Minha página pessoal no Blocos Online

Isso mesmo!! Como menciona o título deste post, agora tenho uma página no Blocos Online. Para quem não conhece, o Blocos é um dos sites mais importantes no que diz respeito à divulgação cultural de nosso país. Como está escrito em sua página inicial: "Blocos é considerado um dos sites mais importantes do mundo pela UNESCO - United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization."
Vale a pena acessar e conferir o material disponível no site em questão e, para facilitar, este é o link da minha página: http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=3277&flag=nacional

31 de janeiro de 2007

A pro-cura... o horizonte...

Estamos sempre à pro-cura, buscamos o que nos é próprio mesmo quando não idealizamos tal busca, pois já estamos desde sempre lançados no positivo de toda negatividade, assim como na negação do otimismo.
Somos o acontecimento da história na tensão do tempo, na memória, no que foi, é e será. E seremos sempre!
Apontamos em direção ao horizonte e nele nossa busca se faz eterna, pois a morte é o principiar de um fim na medida em que caminhamos. Sabendo que este caminhar não é um percurso retilíneo, linear, mas todo o tempo se realizando no porvir do que já se foi.
Não como ilustração, mas como o movimento de um pensar, trago o poema Horizonte. Até porque um poema nunca ilustra: acontece, cria seu lugar e uma realidade. Vamos à criação!


Horizonte

O pássaro.
As asas.

Em aberto céu,
as plumas em alvoroço
se admiram ao tocar o vazio.

O horizonte se expande
na inóspita queda:
o pensamento.

Em cada regurgitar de asas
singra liberta a ave
em mar etéreo.

O cemitério de todas as coisas
se fecha no respaldar taciturno
da fronte desguarnecida:

doce acalento das musas à eternidade.

O céu se abre na envergadura do infinito
e o mundo se vislumbra
no destino triunfal do espanto.


Fábio Santana

13 de janeiro de 2007

Shhhhhiiiii... silêncio...

O silêncio da terra

No jardim do silêncio,
as raízes do vazio brotam imaginações
de um solo caleidoscópico.

A terra é uma imensidão roxa
onde
o húmus é o homem
e
a colheita é a realização do impensado.

Fábio Santana

9 de janeiro de 2007

Mais um percurso...

Hoje pensei o medo. Mas não tive medo. O que é a posse?

Pensando o medo esbarrei no limite. Não no limite do medo, mas no limite que faz o medo ser o percurso entre o princípio de uma certeza e a fragilidade de sua extinção.

Agradecimentos ao meu amigo Branco.

8 de janeiro de 2007

Alguns pensamentos da madrugada...

O alvorecer de um pensamento desnuda qualquer viabilidade do não-acontecimento da brutal cisão do nada. Num refluxo respiratório, toda uma vida se esvai arroto abaixo pelo bueiro da inconsequência. E o que sobrou?
Respondo: pícaros esqueléticos que vigem na sombra de qualquer descrente do esvaziamento aniquilatório da verborragia infame!!! E daí? Mais buracos são desfeitos na ocorrência da longevidade incrédula do ambulante exaurido.

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Qualquer palavra só é dita na medida do pensamento quando este se volta ao princípio, ao originário de si mesmo e concresce com aquele que abre os olhos e se joga na anterior escuridão do raciocínio.

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Qualquer palavra pronunciada carrega os restos de saliva dos mal-cheirosos pensamentos em orgia com a beleza da ingenuidade de um pôr-do-sol.

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Qualquer elogio é inversamente proporcional ao umbigo!!!!

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Umbigo!!!!!!!!!!!!

3 de dezembro de 2006

Interpretação do poema “Canção excêntrica”, de Cecília Meireles

Canção excêntrica


Ando à procura de espaço
Para o desenho da vida.
Em números me embaraço
E perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
Em vez de abrir um compasso,
Projeto-me num abraço
E gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
É já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
Começa a achar um cansaço
Esta procura de espaço
Para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
Não me animo a um breve traço;
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


Movimentos do poema:
  • 1º: v. 1-10
  • 2º: v. 11-14
  • 3º: v. 15-18
Sobre o título: Canção excêntrica

É uma canção por sermos música. É a invocação dos poetas às Musas, quando entusiasmados cantam, uma vez que a fala é o canto na medida em que este só o é na música.

Excêntrico é o que foge do centro, ou seja, é a procura inevitável que cada um de nós faz na vida. Assim, considerando o círculo, o centro pode ser entendido como um ponto de partida para o qual caminhamos perenemente ansiando o seu reencontro. Nesse sentido, centro não é só o local para o qual algo converge, mas o princípio de onde um questionamento começa.
Então, podemos pensar que "canção excêntrica" é o canto inaugural que realizamos na procura do que nos é próprio.

1º movimento

O primeiro movimento está centrado no “eu”, isto é, em mim. Em você, mas não sendo o outro, e sim sendo o próprio. Noutras palavras, o foco está sobre quem lê no ato da leitura sem ser observado por um suposto agente. Já que é este agente instituído que serve como referência para a determinação das pessoas verbais no discurso, ou seja, “ele” só é terceira pessoa porque existe um “eu” (primeira pessoa) que determina tal hierarquização ao observar o outro. Logo, retomando o início, o centro do primeiro movimento está em mim, em você ou nele sendo único no momento da leitura.

Tendo como ponto de partida os verbos, “andar” indica o procurar, o caminhar responsável pelo desenho da vida (v. 2). E este desenho é o que nos diferencia como pessoas ao mesmo tempo em que nos identifica como seres inquietos e incompletos enquanto viventes (sendo vida). Então, à proporção que ando (v. 1), lanço-me na vida à procura do que me é próprio.

Observando os verbos, notamos que todos se referem gramaticalmente à primeira pessoa do discurso. Exceto um que não manifesta o suposto sujeito gramatical eu: o é (ser). Se fôssemos traçar um viés gramatical, seria dito que o verbo “ser”, conjugado na terceira pessoa do singular, funciona como verbo de ligação entre o substantivo distância (v. 10) e o adjetivo perdida (v. 10). Contudo, como não queremos incorrer na superficialidade gramatical que prima exclusivamente pela funcionalidade, o tal verbo de ligação É (v. 10) deixa essa perspectiva de palavra vazia de significado e figura poeticamente como o que viabiliza, por seu vigor, a possibilidade de a distância (como o caminho a ser percorrido no “andar”) se plenificar mediante a tensão entre o que se tem e o que não se tem (perdida – v. 10), ou melhor, entre ser e não-ser, quando jogados no tempo ( – v. 10). Mas, por enquanto, deixemos essa discussão em suspenso.

Retomando o verbo “andar”, temos que, à medida que andamos, perdemo-nos da mesma forma que nos encontramos constantemente. Então, é na tensão entre “embaraçar” ([...] embaraço [...], v. 3) e [...] encontrar [...] (v. 5) que o andar/perder se manifesta quando somos lançados no tempo – [...] sempre [...], v. 4. E a ideia do tempo se mostra também na tensão entre o medir – [...] medida, v. 4 – e o sair – [...] saída, v. 5 – uma vez que a impossibilidade de uma medida para a vida se expurgaria numa saída ou solução. Porém, novamente, a resposta não se dá por encerrada quando, na incerteza demonstrada pela conjunção alternativa Se [...] (v. 5), projetamo-nos adiante de algum lugar, inviabilizando o fim do caminhar. Perder a medida é ir contra a razão, já que medir é uma instituição racional de tentar conter uma totalidade num conceito, quando este limita a ambiguidade daquilo que acontece como questão. Assim, perdemos sempre a medida, pois a vida nos joga ao embate contínuo do estar vivendo.

No verso 6, [...] abrir um compasso nos diz uma tentativa, ainda, de solucionar o inesperado através de uma resposta que já se teria pronta (um conceito). Todavia, podemos cogitar que abrir significa nos mostrar o novo, irromper com o que está fechado, definido, conceituado. Noutras palavras, é uma tentativa de se quebrar o que já está determinado, uma vez que o compasso (v. 6), embora relacionado com o círculo, a ele não se poderia atribuir essa referência ao que se chama círculo poético, por consideramos que, neste, o círculo não se fecha no início, mas, tendo em vista o contexto aqui inserido, principia-se no fim quando se proporciona a soltura do eixo a que a outra ponta do compasso se prende. Daí que na abertura ocorre uma projeção – projeto-me (v. 7) – e neste movimento de ir além é que nos geramos continuamente. Gerar – [...] gero [...] (v. 8) – é, então, dar origem, desvelar o que se vela, indo ao originário. Por isso, quando o verso 8 diz: E gero uma despedida, tal despedida é o acontecimento do porvir, pois despedir-se de algo é deixá-lo para trás quando nos lançamos na tensão entre o que está acontecendo e o que irá acontecer. Enfim, é o experienciar da e na história.

No final do 1º movimento nos vem que:


Se volto sobre o meu passo,

É já distância perdida.


Aqui, retomamos o que fora dito sobre o verbo “ser” quando ele extrapola a condição gramatical de se constituir apenas como verbo de ligação para imprimir o vigor que se depreende da conjuntura do homem enquanto manifestação do Ser.

Na medida em que volto (v. 9), não é possível refazer ou reviver um percurso. Este se completa à proporção que passa e se constitui em passado imutável. Dessa maneira, traz a ideia temporal que é reforçada pelo advérbio de tempo (v. 10), quando este nos diz “o agora”. Ou seja, manifesta o tempo no qual imergimos e desponta no que está por acontecer, sabendo que o agora só se dá enquanto vigor do entre, pois é sempre uma tensão do presente em disputa com o futuro sendo passado.

2º movimento

Neste movimento, o coração (v. 11) também se relaciona diretamente com o título, isto é, com a ideia de “fuga do centro” quando sinaliza o centro do homem ou da vida ainda numa perspectiva superficialmente orgânica. Mas, se considerarmos a amplitude do pensamento oriental, ao coração se atribui a tensão do entre. De outro modo, seu movimento de sístole e diástole é a percepção da ação e retração do corpo quando inserido no tempo, ou seja, tanto se expande quanto se retrai num ciclo temporal, tendo em vista que o ciclo é infinito e circular. Em Meu coração, coisa de aço (v. 11), aço é vigor. É o que traduz a dicotomia do coração, revelando a disputa que se harmoniza no equilíbrio.

À medida que a vida avança, transbordamo-nos de procura, de achar o que é nosso, nosso princípio. Daí, caminhar incessantemente causa dor, aflição, cansaço (v. 12). Já que viver é estar lançado na liminaridade, portanto, é uma constante tensão que nos movimenta, retirando-nos da letargia. Assim, perder o centro, aquilo que racionalmente confortaria a vida, quando vista sob uma ótica linear, é traumático e causa mudança.

“Procurar um espaço para que a vida se desenhe” é o mesmo que ficar atrelado ao compasso, quando este não rompe com o que cristaliza o movimento de repetição: o centro no qual sua outra haste se fixa. Este centro deve ser rompido ao nos abrirmos e nos projetarmos na vida. Então, temos que o segundo movimento se focaliza no coração, mas não como órgão físico, e sim como centro, vitalidade oriunda da dicotomia entre ação e retração do tempo, ou melhor, entre vida e morte.

3º movimento

Quase uma continuação do segundo movimento, o terceiro muda o foco quando o verbo animar – me animo (v. 16) – retoma o eu, o nós, enfim, aquele que lê (conforme já discutido anteriormente).

Animar é principiar, voltar-se à origem num ímpeto vigoroso de dar vida. Entendendo a vida por energia, a alma é o centro dessa energia, dessa força e vigor. Entretanto, não numa separação metafísica entre corpo e alma, e sim pensando nos dois como um só, já que um e outro se completam à medida que se compreendem, quando compreender é se entender ao se perceberem mutuamente .

Habitando temporalmente o limiar entre o desgaste e a descrença, onde a conjunção e manifesta tal acontecimento, como vemos no trecho Já por exausta e descrida (v. 15), inserimo-nos e nos realizamos como morada desta tensão na medida em que desejamos a realização de um ideal ao mesmo tempo em que este perde seu brilho e se descaracteriza como procura ao ser realizado quando é alcançado: - saudosa do que não faço, / - do que faço, arrependida (v. 17-18).

Então, ao relacionarmos os verbos “animar” e “fazer”, tanto um quanto o outro trazem a ideia de movimentação. Um – “animar” – dá a possibilidade e é em si o movimento enquanto o outro – “fazer” – é o movimento em sua realização. Todavia, eles vêm acompanhados de uma partícula negativa: o advérbio de negação “não”, ou seja, Não me animo [...] (v. 16) e [...] não faço (v. 17). Essa negação ainda é reforçada mais adiante pelo adjetivo arrependida (v. 18). Daí vem que tais negações demonstram a condição liminar do homem, quando negando ele se afirma. Logo, no trecho [...] um breve traço (v. 16) vemos a figura do seu caminhar em diálogo com o sentido do compasso (v. 6), reavendo a discussão entre a liberdade do viver e o aprisionamento do centralizar, considerando este uma moldura racional que não dá conta da plenitude humana.

Enfim, o centro deste terceiro movimento está, exatamente, na conjunção e (v. 15) por manifestar a tensão inerente ao homem, sendo este o ser do limiar concretizado na procura do que lhe é próprio.