1 de agosto de 2010

Ensaios recentes!


Está no ar o novo número (nº 12) da revista O Marrare. Nela participo com o ensaio “Virgílio de Lemos: o barroco estético em onze proposições de corpo”. Também já está disponível para download a última edição  (nº 22) da revista Terceira Margem, na qual participo com o ensaio “Palavra: a casa do poeta”. Esta última revista também tem sua versão impressa, que provavelmente estará acessível entre os meses de agosto e setembro.
Como o link acima da revista O Marrare leva direto ao meu ensaio participante da mesma, então postarei aqui o que saiu na Terceira Margem. Mesmo assim, recomendo aos leitores que acessem os links e visitem as duas revistas, ambas com contribuições importantes ao pensamento: a primeira tratando das literaturas portuguesas e africanas, e a segunda com ensaios em cuja diversidade temos o diálogo com a Poética, num mosaico em que o questionamento sobre as mais diversas questões da arte se faz presente. Sem mais demora, vamos ao texto:

PALAVRA: A CASA DO POETA

Fábio Santana Pessanha

“Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que
eu a seja.”
Manoel de Barros, Livro sobre nada

Em nossa reflexão, intentaremos pensar a palavra em sua intimidade com o poeta. Desta maneira, dizemos que a palavra é a casa do poeta. Nela habita toda transitoriedade de negação e afirmação, toda gama do espetáculo do humano, pois congrega em sua dinâmica a dupla possibilidade de velo e desvelo.
Teremos um percurso que se estruturará nos três movimentos articulados desde o título: a palavra, a casa e o poeta. Mergulharemos na circularidade que abarca estes núcleos ao dialogarmos com o sentido que cada um nos oferta, assim como nos moveremos no quanto de interpenetração tal incurso nos possibilita.
Entremos, portanto, no âmbito do poético e nos deixemos tomar pela palavra: esta que nos atravessa, cinde e reúne em seu alvorecer mais profundo: “A palavra mais antiga para o poder da palavra, entendido como dizer, é lógos" (Heidegger: 2003, p. 188). Sejamos a voz das musas na música do silêncio e o gesto do corpo no salto ao abismo de ser. Nesta dimensão, entendemos que o caminho do pensar é sempre radical por propor uma novidade a ser dita. Porém, novidade não como a última notícia de uma linha evolutiva, mas como boa nova, inaugurabilidade de se presentificar um olhar singular, um único dizer.
Em diálogo com obras poéticas e filosóficas, colocamo-nos em escuta do que somos no operar da arte, portanto, na consumação do humano ao se realizar artisticamente. Isto é, nos deixaremos interpelar pelas questões que nos são propostas no encaminhamento da leitura, logo, do apropriar-se. Ler, aqui, significa a entrega ao cuidado do repouso, ao atravessamento que nos apetece e nos toca sempre radical e misteriosamente.
Indagaremos pelas questões num duplo embate entre escuta e fala; a fala do poético, o dizer da linguagem. Então, experienciaremos uma interpelação de mão dupla, no sentido de nos voltarmos às provocações levantadas que se farão pertinentes ao longo do texto. Melhor do que descrever o que virá pela frente, trilhemos os (des)caminhos do pensamento.

A palavra

Comecemos dialogando com um poema de Manoel de Barros:

[...]
Para enxergar as coisas sem feitio é preciso não saber nada.
É preciso entrar em estado de árvore.
É preciso entrar em estado de palavra.
Só quem está em estado de palavra pode enxergar as coisas sem feitio.
(Barros: 1998, p. 35)

Quando atentamos ao verso “Para enxergar as coisas sem feitio é preciso não saber nada”, somos encaminhados à desvanescente certeza do visto, isto é, somos enganados pelo que nossos olhos nos mostram. Não vemos o que os olhos veem, mas aquilo que, ao se presentificar, presenteia-se à nossa visão (Cf. Heidegger: 2007). Desta maneira, enxergar “as coisas sem feitio” é destrancá-las de uma forma prévia de apresentação. É como pensarmos a representação além do estabelecido pela perspectiva ocidental. Em outras palavras, se no âmbito ocidental o representar significa trazer à presença por meio de símbolos algo que esteja ausente, podemos repensar a representação a partir de sua própria configuração enquanto palavra. Assim, re-presentar é tanto o presentar contínuo do sendo quanto o presentear da coisa à presentificação do ser no tempo e no espaço.
Tal proposição é possível quando deixamos a representação florescer em sua dinâmica verbal. Assim, depreendemos que “re-” pode ser tanto o prefixo indicativo de retorno quanto a alusão ao res latino, cuja tradução se desdobra em vários significados, dentre eles, “coisa”. O vocábulo “-presentação” vem de presentar, apresentar, isto é, trazer à presença algo ausente.
A outra parte do verso nos diz que para chegarmos à essência das coisas, ou seja, quando ainda estão sem feitio, “é preciso não saber nada”. Cremos que o saber se funda na inesgotável circularidade entre velo e desvelo das realidades do real. Isto nos leva diretamente ao âmbito da verdade em seu acontecimento poético, ou seja, a sabedoria não é algo que se retém no conhecimento, mas se doa no movimento do pensar. Podemos, então, admitir que saber é sabor em razão de sua coincidência etimológica.
Temos as duas palavras na esfera da experiência e do atravessamento do corpo para além dos sentidos. Assim, sapere, além de significar “saber” também nos diz “ter gosto, sabor” (Cf. Houaiss: 2001). Então, podemos considerar uma configuração de experimentação do que se realiza na dimensão da travessia do saber ao não-saber, logo, do ser ao não-ser. Também podemos invocar a este movimento a tensão que confere existência ao homem e que lhe possibilita errar na inconstância da experiência de ser. Não saber nada não é estar desprovido de conhecimento, mas viger na plenitude da sabedoria, isto é, o não-saber é a máxima condição de abertura ao saber.
É importante notar que o verso termina com “nada”. Desta maneira, o fim se torna princípio e vice-versa no consumar do círculo poético. Este desfaz a dicotomia que estrutura um ponto de partida e seu destino – enquanto meta – ao trazer o princípio-fim como desvelo auto-velante do real, portanto, alétheia. O nada como nascividade é a clareira de onde eclode a coisa e se apresenta num formar-se. Esta circularidade nos possibilita entender que enxergar as coisas sem feitio é surpreendê-las no instante de sua criação.
Como uma ordem proferida, somos convocados a entrar em “estado de árvore”, a nos apropriarmos da liminaridade que a phýsis nos possibilita, na medida em que o arvorescer se dá no crescimento ambíguo tanto para o céu quanto para a terra. No verso seguinte, da mesma forma, somos convocados a entrar em “estado de palavra”. Daí, qual a relação que se apresenta entre árvore e palavra?
Assim como a árvore, numa dada dimensão, a palavra irrompe num silenciar que coaduna as margens da liminaridade entre o nomear da coisa e a própria coisa: “Palavra, assim, é o limite, quer dizer, a hora, o lugar da coisa” (Fogel: 2007, p. 50). Entrar em estado de palavra é sê-la em seus ditos e desditos, é estar em vigência com a morte no “palavrar” da vida. Palavrar? Isto mesmo! Diferente do verbo palavrear – que significa basicamente falar – o verbo palavrar insufla de poeticidade a argamassa gramatical e se funda na vigência do pensamento originário. Pensar originariamente é concrescer na multiplicidade do real ao se doar em realidades inaugurais. Portanto, fundemos o verbo palavrar! Verbo que traz em seu não-dizer possibilidades de outros caminhos.
Palavremos, pois entrar em estado de palavra é ser o próprio palavrar, é habitar o cume do silêncio nas voltas da linguagem. Cada curva é um sentido, cada letra uma ponta de vida que se origina. Vislumbrar a palavra no momento de sua criação quando está embriagada pelo estado de repouso, a isto chamamos de palavrar!
A palavra foge de nosso âmbito de utilidade e nos leva ao princípio de humanidade. Desta maneira, imergimos no mistério de onde surgem o canto e a dança, absurdamos a incidência do surpreendimento da voz e do gesto: mundificamos.
Mundificar é presentificar mundo, organizar as coisas na plenitude espaço-temporal de ser. Assim, mundificamos ao tornar palavra o silêncio que nos alarga e nos atravessa. E, da mesma forma, somos levados a enxergar o não-visto, as “coisas sem feitio”. Eis o movimento do palavrar que vemos no poema: nos tornarmos palavra enquanto travessia.
Se quisermos entender o sentido de palavra na dimensão retórico-conceitual, basta consultarmos um dicionário. No entanto, ao observarmos tal vocábulo em sua origem grega (parabállo), podemos pensar que palavra é o movimento contínuo que se move em seu próprio transitar, uma vez que parabállo significa “lançar junto, ao lado de”. Este encaminhamento é interessante à nossa reflexão, tendo em vista que a palavra é sempre uma dinâmica alicerçada num figurar. Não podemos considerar que palavra seja o modo de representar o pensamento, que seja instrumento da linguagem. É necessário que nos atentemos ao seu devir, aos seus encantos de ambiguidade.
Quando mencionamos a dupla dinâmica da palavra no palavrar, fazemos referência ao silêncio que doa a fala na própria enunciação. De outro modo, não partimos de uma ordenação linear, mas apontamos a circularidade e simultaneidade destes dois movimentos. Não que primeiro tenhamos o silêncio e dele nasça a fala; nem que o silêncio seja o cessar da mesma. O que dizemos é que silêncio e fala se dão em um mesmo instante, uma vez que o silêncio é o que dá condições de a linguagem acontecer numa fala. Ou seja, enquanto o silêncio se vela na máxima condição de repouso, a fala irrompe como plenitude do dizer. E, da mesma maneira que a fala resguarda o silêncio, este, ao se plenificar, ressoa a condição máxima da não-fala. É nesta tensão que temos a palavra: o acolhimento do silêncio na fala é simultâneo ao acolhimento da fala no silêncio. Temos a palavra neste entre-fala-e-silêncio. Podemos, então, atinar que a palavra não é só o que dizemos, mas é o que somos na travessia do silêncio.

A casa

Dizer que a palavra é a casa do poeta nos leva a questioná-la poeticamente, ou seja, tentar chegar ao lugar de sua essência e proveniência. Ao fazermos isso, aproximamo-nos do berço onde repousa a inspiração. Devemos ressaltar, contudo, que a inspiração da qual tratamos não é a mesma significada num ímpeto externo ao poeta, ao contrário, referimo-nos ao furor que independe de sujeição volitiva e se resguarda no misterioso lugar do sagrado. Sendo assim, o que se chamaria habitualmente de inspiração, trataremos como entusiasmo.
Pensar em casa, de uma certa maneira, enseja uma ideia de proteção: o local onde nos abrigamos. Casa é o lugar do acolhimento, refúgio no qual os conflitos se arrefecem ou se impulsionam. É neste ambiente tensional que a palavra é a casa do poeta, já que “não é uma cópia ou decalque das coisas, mas justamente a elaboração que contém e retém em si a abertura recolhida e tudo que nela se oferece e patenteia” (Heidegger: 2007, p. 123).
Ao abrigo em que tudo se oferece e patenteia nomeamos palavra. Ela é o elo que reúne as musas no vigor musical de todo poetar, já que poeticamente todas as palavras são peças de canto regidas pela memória.
As musas são filhas da linguagem (Mnemosýne) e esta dialoga com o sentido de memória na vigência do originário. Uma outra imagem-questão que nos conduz a tal reflexão, por exemplo, é a da terra como doadora de vida. O sentido musal se dá nos poetas enquanto o palavrar do silêncio. Este palavrar é também o recolhimento de toda palavra no silenciar vigente da fala. Falar é calar: copertinência do nada no florescer da linguagem. Insistimos, falar é cantar, uma vez que as palavras são cantadas, como vemos na reflexão de Torrano em diálogo com Hesíodo:

O poeta, portanto, tem na palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os bloqueios e distâncias espaciais e temporais, um poder que só lhe é conferido pela Memória (Mnemosýne) através das palavras cantadas (Musas). Fecundada por Zeus Pai, [...] a memória gera e dá à luz as Palavras Cantadas, que na língua de Hesíodo se dizem musas (Torrano: 1992, p. 16).

A superação dos bloqueios e distâncias espácio-temporais que ouvimos pela narração acima não se veiculam no aporte metafísico de entendimento, pois a superação aqui não diz ultrapassagem enquanto evolução, e sim a instauração do concreto na consumação da memória. O tempo e o espaço não se dão linearmente, mas poeticamente, o que significa a plenificação do ser na vigência de todo sendo (ente). Em outros termos, eis o surgimento dos poetas pelas musas, em cujo seio se dá a festa dionisíaca abismada no entre vida-e-morte.
Entusiasmados, os poetas irrompem num palavrar musal. Tomados pelo espanto (thaumádzein), entreabrem as vagas do mistério num dizer que horizonta o canto, a dança e o silêncio em gestos de mundo. A palavra não é uma morada em que se esvaziam os versos, mas a di-ferença congregante de alegria e dor no brilho do pensamento poético e do poetar pensante. Pois é sempre um desafio habitar o limite entre vida e morte, mais ainda quando esta fronteira é avultada no brotar da palavra poética. Esta convoca no seu dizer o duplo domínio do agir e silenciar enquanto unidade concreta (poíesis) que se retrai ao se manifestar (alétheia).
A palavra não é só a casa do poeta, é também a soleira da linguagem na manifestação do real. A linguagem se consuma mnemonicamente, na medida em que o poeta se espanta e retorna ao princípio de sua nascividade. Na verdade, retorna para o lugar de onde nunca se ausentou, por vigorar na gestualização do sagrado.
Quase inevitavelmente, repercutem em nossa escrita os dizeres de Heidegger: “A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação” (1973, p. 347).
Pensar é poetar, pois o poético é sempre o movimento que aponta em direção ao pensamento originário. O poeta não é aquele que conjuga versos, mas é o que se põe sensível ao toque do extraordinário. Em vista disso, os poetas e pensadores guardam a linguagem enquanto habitação do homem.
O homem nasce na linguagem, uma vez que ela o antecede e, na vigília da palavra, os poetas protegem o brotamento do palavrar poético. Mais ainda, a linguagem doa a palavra ao homem e este é por ela enredado de maneira irreversível. Guardar a habitação do ser significa viger em seu sendo, isto é, na intimidade entre homem e linguagem viceja o surpreendimento do poético no palavrar. Sabemos que a poesia, quando vislumbrada no que os gregos denominam poíesis, é o agir originário, a criatividade fundante das realizações do real em correspondência com o homem. Deste modo, não é o homem quem cria, ele se deixa possuir pela concriatividade do real e se realiza no entre-transitar do ser. Neste entre, a palavra vigora como exsurgência do nada. Esta é a experiência do poeta, haja vista que se atenta ao momento decisivo de uma palavra acontecer.
Todo homem é vigente na linguagem. Entretanto, o dar-se conta do palavrar cabe aos poetas, pois eles se entregam ao exercício da escuta, na medida em que “escutar é deixar-se invadir pelo real acontecendo” (Castro: Escuta, 1). Em função da banalidade que transfigura o pensar poético, a palavra é tida como parte de uma verbosidade, isto é, sua dinâmica circular entre fala e silêncio é desfigurada na quebra desta ambiguidade. O palavrar se torna palavrório quando a palavra deixa de se lançar na entridade das realidades. Com isto, forma enunciados fixos e o silêncio se torna esvaziamento. O poeta perde sua casa, transformando-se num retórico por lidar só com rearranjos de conceitos em vez de se disponibilizar ao enigmático domínio das palavras.
A banalização da palavra retira o poeta de seu corpo, rouba-o da terra ao ceifar suas raízes. O poeta é arremessado de sua fala, ou seja, exime-se do palavrar, as nuances de cores e sons, pondo em linha reta a ambiguidade da linguagem. Neste movimento de alinhamento, predomina o enfoque científico como instrumentalização da linguagem em alguma utilidade objetiva.
A palavra se dá enquanto corpo. O poeta se lança em seu vigor e se abisma no horizonte de sua habitação: eis a palavra enquanto margens da linguagem.

O poeta

O poeta se plasma em palavras: arrebata-se no dizer múltiplo de falas e entrelinhas de silêncio: abre, entremeia e acerta o íngreme estado de palavra: mundifica. Faz do canto seu voo, da lógica desentendimento. O poeta mora na palavra quando esta é, a um só instante, permanência e mudança... E, assim, vai desaguando na linguagem.
Plasmar talvez seja um dos principais verbos que se liga aos poetas, pois estes figuram em palavras os contornos do indizível. Plasmar significa modelar e, modelando, o poeta ausculta a convocação que o atravessa, vocifera o palavrar do verbo que o irrompe: poesia. A fim de dialogar com a dinâmica do poetar, ouçamos o que nos diz o poema abaixo:

Poesia

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
(Andrade: 1980, p. 16)

A poesia figura e transfigura o poeta, lança-o na incomensurabilidade de ser e não-ser. Esta tensão pode até evidenciar um esforço de cunho técnico empregado quando o poetar se reduz à mera manipulação estrutural, ao trabalho das formas. Porém, é insuficiente ao convite de uma poética da poíesis. Isto significa que o poeta não força a eclosão do poema, pois não é ele quem cria. Na verdade, o poeta se abre ao brilho da realidade quando é tomado pelo estado de criação. Assim,

[...] na obra não é o poeta que cria, mas é a própria realidade que advém como verdade e sentido, na medida em que ela opera desvelando-se tanto mais quanto mais se vela, enquanto linguagem do silêncio (Castro: Interpretação, 5).

A “linguagem do silêncio” impera na pena que “não quer escrever”, pois não é a mão do poeta que, ao segurá-la, faz brotar o verso em estado de palavra, mas ele, por ser vivo e solene, se aquieta na profundidade do mistério gestante de sua irrupção em realidade.
A pena não tem vontade, sua ponta voluntariamente não rabisca o sentido a ser desvelado. Ao contrário, recolhe em seu traço a poesia vigente em seu não-dizer. O poeta não comanda o poema, os versos é que o arrebatam e o transgridem em direção ao extraordinário. Seu horizonte é a poíesis, sua medida é a desmedida de entre-ser.
O verso que “não quer sair” aponta a impossibilidade de se determinar a sujeição do poetar à vontade humana. Além do mais, indica uma possível fronteira de saberes ou sabores na experiência do incalculável, quando contrapomos os versos 1 e 3: “Gastei uma hora pensando em um verso” / “No entanto ele está cá dentro”. Deste modo, o duplo encaminhamento de querer escrever o verso e senti-lo se dá no instante em que o determinismo com o qual o homem se camufla é insuflado por sua escuta. Neste incurso, há um adentramento de seu cuidado, isto é, uma auto-escuta: uma auto-poetização.
A intransigência de querer fazer um verso é traspassada, reinstaurando-se numa circularidade própria e condizente com o vigor do real. O verso está dentro do poeta, portanto, compõe um corpo. Não é possível um agir de cunho externo, até porque toda obra de arte conclama princípio e fim (arkhé e télos) em sua configuração de mundo. No operar da arte, temos a consumação da plenitude, a invenção contínua de empenhos no homem. Assim, vemos a desfiguração de um sentido puramente teleológico para a concretização da verdade enquanto alétheia, logo, como o desvelar-auto-velante da realidade.
Em outro momento, temos a tensão em voga no poema: “Ele está cá dentro/ e não quer sair”. Aqui, já se densifica a oposição poética que será deflagrada nos últimos dois versos: “Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”. Estes quatro versos que mencionamos convocam o sentido do poético como permanência e mudança, principalmente nos últimos dois: permanência porque a poesia pertencente a um momento singular que se alarga por toda a vida – esta enquanto reunião de espaço e tempo. O percurso de vida será o transbordamento do poético, haja vista que todo instante é um recolhimento deste marco fulcral, ou seja, a culminância de tempo e espaço no presentar-se da realidade.
Toda mudança é sempre nova na experiência do poético. Deste modo, o inundamento da “vida inteira” se apresenta a nós como desdobramento do próprio nas diversas presentificações do real. As mudanças só são possíveis porque remetem sempre ao que é permanente e este confere unidade aos ensejos de realidade, às inesperadas curvas do transitório.
O poeta mora na palavra e a palavra se plenifica na linguagem. A poesia atravessa o homem e o enleva, transporta-o ao lugar do absurdo: poetiza-o. O poetar é constante de vazios, de luvas tangentes às mãos da caneta ou da pena que rabisca o traço de horizontes. Todo poema é um horizonte no qual o poeta se lança, morre e vive ao mesmo tempo. Todo poema é uma costura de palavras, frases, gestos e escuridão.

Um final que diz o mesmo, mas diferente

A palavra é a casa do poeta, é a cesta que abriga as dadivosas noções de todas as coisas em pequenos furtos de razão. A clareira se abre ao nascimento do verso, refestela-se no indizível das falas jogadas ao vento. O palco dos poetas é sua habitação terrena, sua glória de nunca não dizer. Fala o que corta a carne, ouve o que bifurca a linha reta de conheceres; é o ser do sempre-sendo. O poeta figura na sala das incompreensões lógicas, rompe os laços que unem cada peça dos blocos de montar infantis. Estes blocos, nas mãos dos poetas, são brinquedos de entortar razões, de anunciar o a-ser-dito na simplicidade de um sorriso.
A casa do poeta se fundamenta nas instalações de nuvens passantes, aquelas que dão vida às imaginações transeuntes. A casa do poeta se movimenta na conformidade de riquezas não-tácteis, convoca a surdez para as coisas banais e escuta o lancinante romper do certo. Erra o poeta por descaminhos de poesia, por palavras estreantes de si mesmas.
Diz-nos o filósofo alemão: “A palavra é o que confere vigência, ou seja, ser, em que algo como ente aparece” (Heidegger: 2003, p. 180). Portanto, ao conferir vigência, a palavra se concretiza como impulso poético num lance de corpo-inteiro do poeta, isto é, sem a separação entre corpo e alma tão presente no cartesianismo ou, por desdobramento, entre silêncio e fala, entre tudo e nada.
Os versos de um poeta não são frases soltas, são instalações de sentido e verdade. O mundo torna-se novamente e o gesto se renova no enlace do palavrar. A corporeidade poética traz em si o instante, o sempre presente de um toque de silêncio. O aparecimento do poema faz aparecer o poeta na apropriação do poetar. O dizer do poema se configura enquanto corpo, presenteia a palavra na dança da linguagem.
A palavra é a casa do poeta: o poetar vigora no palavrar do não-dito, funde as semânticas empoeiradas e as leva às luminosas curvas do não-saber. O tornozelo de um verso diz mais do que um tratado médico de osteologia, e, assim, a palavra vai ganhando voo na liberdade do dizer e do resguardo de silenciar. Esta é a desmedida da palavra na eloquência do silêncio: a batida na porta da casa do poeta: a palavra.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Poesia”. In: Reunião. 10ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.
BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996.
______. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998.
CASTRO, Manuel Antônio de. “Escuta, 1”; “Interpretação, 5”. In: ______ e outros. Dicionário de Poética e Pensamento. Internet. Disponível em: http://www.dicpoetica.letras.ufrj.br/index.php/Escuta. Acessado em 10 de maio de 2009.
FOGEL, Gilvan. “O desaprendizado do símbolo (a poética do ver imediato)”. In: Revista Tempo Brasileiro, nº 171. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007, pp. 39-51.
HEIDEGGER, Martin. “A palavra”. In: ______. A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2003.
______. Ser e verdade. Petrópolis: Vozes, 2007.
______. “Sobre o humanismo”. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
HOUAISS, Instituto Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0. Editora Objetiva Ltda, 2001. CD-ROM.
TORRANO, J. A. A. "O mundo como função de musas". In: HESÍODO. Teogonia. Trad. J. A. A. Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1992.

11 de julho de 2010

Ensimesmado


Ensimesmado num troço de girar realidades,
me pertenço no traço que rabisca o sopro do vento.
Desenho estranho que se entranha no espelho,
uma linha de fuga que guarda a figura do horizonte.
Então, o que me sou no espelho é aparição de horizonte?
Um horizonte de mim quando me sou e não me sou,
mas quando a dúvida arranha os ouvidos da imagem
na frialdade da superfície refletora,
o que escuto são as vozes que antecederam uma sonoridade:
o barulho da audição voando a rumos de infinito.
O espaço que preenche os zunidos do que se pôs ouvinte
é lenda contada no antes de cada sono.

Ensimesmado no que recolho das falácias sobre mim,
cada ponta de letra é saliva na fala de quem me vê.
Me ver é me sentir?
Quando a voz irrompe em trovas de amores vãos,
a imagem de um rosto se penumbra nas lembranças de outroras,
o odor de passados se fagulha em um momento:
espaço de acontecimentos presentes que enredam na linha
do seu rodeio o tempo do sempre sendo.
O dizer prega no vento o mosaico de memórias:
iscas de meus dedos na mão outra que a mim se estende.

Ensimesmado me faço transeunte na escalada de sussurros:
o segredo guardado num ouvido alheio é fonte de riquezas.
Palavras embrulhadas no escuro de outras audições
se entulham misturando-se com o burburinho de outros passados,
a voz que sai dos ouvidos e ganha a boca
é costura de personas em cada meu alvorecer.
Me sou outro no lampejo de minhas andanças,
um pé que sequestra chão nas marcas do futuro passado,
que molda na poeira dura da terra a passagem de uma travessia.

Ensimesmado me sou círculo que roda em pontas de agulhas:
a dor de seguir andando é fonte de segredos ao pé do ouvido:
escutas tortas de vozes que derivam risos.
O gesto é traçado de nuances no borrado de uma passagem
que finca a esmo a trajetória de ventos e resquícios.
Sendo assim tão difuso,
o confuso de dizer o agora se perde em tentativas veladas.
Quando se é outro na tangência de um eu?

Ensimesmando em continuidades
a subjetividade é prisão que organiza caos:
dizer uma foto é
apreender a imagem de um borrado ordenado
em cores e formatos conhecidos:
o excêntrico pôr do sol é luz que implode em noite.

Ensimesmado, quero ser pôr do sol.


26 de abril de 2010

O rio como insólito na terceira margem do homem*


Do outro lado do medo e da morte
a alma capta mais
do que se não vê

Para fazer um mar, Virgílio de Lemos

Toda leitura nos exige um aprofundamento, por isso, não devemos percorrer um texto levianamente. Muito mais do que uma varredura superficial, devemos nos aprofundar junto com o texto. Eis a dinâmica dialogal da leitura: estar junto, ler a obra a partir do que a mesma nos oferece como desafio de autoconhecimento. Então, sem o intento de separações dicotômicas, empreenderemos esta leitura. Neste texto não haverá delimitações entre uma suposta realidade real e outra “fictícia”. Procuraremos sempre o caminho do meio, o “entre” que reúne as diversas e incontáveis realidades na fulgurância e inesgotabilidade do real.
Ao ensaiarmos uma perspectiva, estamos em contato direto com a Poética, já que: “A Poética é um universal concreto que diz respeito a todas as culturas, porque diz, essencialmente, respeito ao humano do homem” (CASTRO, 2007: 12). Assim sendo, dialogaremos com o próprio dizer da obra realizado em nossa interpretação. Este tipo de conduta de pensamento não engessa um conceito, ao contrário, possibilita que haja uma renovação constante da fala do poético na obra de arte.
Em “A terceira margem do rio”, conto de Guimarães Rosa, nos deparamos com uma questão primordial: a dobra. Como assim? Ao pensarmos o título do conto, temos a proposição de um questionamento que, a princípio, parece metafísico, mas que se impõe poeticamente à medida que imergimos em sua leitura. Tal afirmação é feita em consideração à palavra “terceira”, ou seja, o caráter metafísico está no possível conceito de terceiro como aquilo que está fora, à margem. No entanto, será que realmente podemos dizer que tal enumeração indica algo de cunho exterior? Quando entendemos que a palavra “terceira” está diretamente ligada ao homem, apontamos também na direção de um sentido misterioso de ser e existir. Mais ainda, de um desdobramento enquanto acontecer poético do homem.
O modo misterioso de o homem ser não se atém ao engano ou à ficção, isto é, quando se entende ficção por uma ação voluntária de fingimento. Neste sentido, “ficção seria, pois, criação da imaginação, da fantasia, coisa sem existência real, apenas imaginária” (WALTY, 1985: 15). Muito pelo contrário, o mistério a que nos referimos diz respeito ao originário do homem, à essência silenciosa de ser e existir enquanto realização do próprio do humano. Assim,

Mistério remete, em toda experiência, para o que se diz e reconhece fora das possibilidades de ser, conhecer e dizer. Para se dar e acontecer mistério é indispensável morar e descobrir-se no âmbito da Linguagem, do lógos (LEÃO, 2007: 33).

Daí, somos levados a encarar o homem em sua habitação na linguagem, quando, a partir desta, realizamo-nos poeticamente no sentido de ação originária do lógos. Fazemos, deste modo, uma leitura poética do homem em diálogo com a obra de Guimarães Rosa. Com isso, em uma outra dimensão de questionamento, perguntamos o seguinte: o que seria uma leitura poética? Mais ainda, em que medida esta leitura é capaz de explicitar uma íntima ligação entre o homem-humano e a “terceira margem do rio”?
Por mais que façamos perguntas, elas nunca atenderão ao que realmente queremos. E o que realmente queremos? Uma leitura com um objetivo meramente investigativo? Que desfaça qualquer dúvida interposta entre um saber e um não-saber? Em vista disto, mais uma questão se apresenta: a tensão entre saber e não-saber.
O conto de Guimarães Rosa nos revela quanto cada homem é tão próximo e distante um do outro. Somos cindidos pelo corte reunidor da di-ferença, e esta nos lança no abismo de entre-ser. Dizemos isto porque diferir não é distinguir um dentre uma generalidade de vários, mas reunir na singularidade o próprio de cada um em sua múltipla possibilidade de ser, isto é, a di-ferença nos diz o “entre”, o caminho do meio na intimidade que não afasta o brilho da humanidade da essência de cada homem. Portanto, é a mediação que entrega cada homem ao seu modo de ser em relação ao outro (Cf. HEIDEGGER, 2003). Assim, detemo-nos em uma leitura que configura um modo de se pensar o homem enquanto travessia. Eis, portanto, a leitura poética. Mais ainda, teremos uma imagem-questão concretizada no empenho da construção de uma canoa que desliza pelas águas do rio sem nunca desembarcar, sem se aportar à realidade dita comum.
A narrativa poética de Rosa colocará em evidência uma outra questão: o insólito. Não como gênero, metáfora ou tradição literária, e sim, como instauração de uma realidade própria e con-dizente com o habitual. Neste caso, habitaremos um mundo inaugural e apropriante de um olhar pessoal, cujas linhas e entrelinhas nos lançarão ao silêncio fecundo de vozes que nos falam e conosco dialogam. Portanto, uma dinâmica de retorno ao princípio, ao originário como fonte de caminhos que se cruzam e se ambiguizam no cerne do real.
A poíesis, doando-se ao momento de nossa leitura e reflexão, também se realiza enquanto movimento poético de escuta e fala. Então, pensemos: o que é isto que transfigura o sólito, o comum, e re-cria uma outra realidade? Que não se soma ou se subtrai, contudo, anda em conjunto com o corriqueiro de nossos dias? O insólito? Se afirmativo, seria esta uma resposta que responderia à pergunta, encerrando a questão? Não. Pensar o insólito enquanto divergência e ocorrência de uma realidade na riqueza do real é se ater ao vazio repleto de possibilidades, manifesto veladamente no acontecer da vida. Desta maneira, se o in-sólito se dá como movimento ambíguo entre interiorização e negação na dimensão do habitual (Cf. PESSANHA, 2008: 37); também refuta, desdiz e inaugura um outra realidade vigente na não-afirmação do banal.

A canoa: símbolo da mudança ou “entre” do insólito?

O conto se inicia com a presença do ordinário: “Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação” (ROSA, 1967: 32). Podemos, então, pensar esta ordem como o corrido dos dias, a banalidade do cotidiano que abarca todas as pessoas. Entretanto, algo ocorreu que remexeu a imobilidade da vida simples do interior: a construção de uma canoa. E não era qualquer embarcação, mas uma que suportasse o tempo do sem-fim.
A construção da canoa deu início ao desassombro de uma vida comum que, de uma hora para outra, se pôs a idealizar um modo novo de viver. Em relação ao afastamento do personagem do “pai” (doravante, a palavra “pai” virá sem aspas, referindo-se sempre ao personagem do conto), podemos compreender o atendimento ao chamado do extraordinário: “Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa” (ROSA, 1967: 33). Isto é, sem motivo aparente, tal personagem saiu da ordem estabelecida, transgredindo uma realidade que se supunha estável para abraçar um tempo que nascia no ato de sua decisão. Porém, será assim mesmo que o fato ocorreu? Será que a mudança se deu realmente no ato decisivo de mandar construir para si uma canoa? Ou esta situação já se instalara no personagem-questão com uma antecedência inominável pela racionalidade? E este, o pai, seria um evento à parte do homem? Circunscrito ao que a tradição chama de ficção? Ou está mais próximo de cada um de nós enquanto evento insólito da realização do humano no homem? Por enquanto, suspenderemos estas questões, a fim de pensá-las mais tarde.
Se virmos a canoa como símbolo, incorreremos em uma superficialidade retórica, cujo entendimento da obra se daria no funcionamento de uma narrativa de fatos fantásticos, ou seja, que se assegura na subjetividade do leitor, posto que “o Fantástico se define como uma percepção particular de acontecimentos estranhos” (TODOROV, 1992: 100). Na verdade, perceberemos que a canoa não simboliza nada. Não serve como marcador de um acontecimento, mas como realidade que acontece no próprio tempo de sua ocorrência. Esse tempo é o do não-ver, de uma realidade inauguradora de um instante sempre-novo e nunca-sabido. Desta maneira, ao pensarmos as palavras de Gilvan Fogel, ratificamos que “o símbolo, por definição, não é a própria coisa, mas a evocação, substituição ou representação da coisa ausente” (2007: 43).
A canoa não se ausenta e nem recorre a uma presença representada. É a própria coisa se dando na inter-relação das realidades. Estas não se separam, mas se conjuntam na tensão própria das facetas do real. Deste modo, o ensejo de uma embarcação que se recolhe no silêncio do rio, refere-se ao originário do homem.  E este segue na escuridão de um caminho que não se apresenta aos seus olhos, ao contrário, vela-se no enigma do que não é conhecido e nem aceito pela perspectiva racional. Então, o mistério se revela no percurso da caminhada, já que aquilo que se mostra ao mesmo tempo em que se retira pode ser entendido como o seu traço fundamental (Cf. HEIDEGGER, 2001: 25). A canoa é a nova casa da viagem no e com o rio.
Para além de uma margem que não vislumbra a outra (Cf. ROSA, 1967: 32), encontra-se a canoa habitada por um homem. Ambos na fluência do rio, atravessados pela correnteza que é sempre outra na novidade de suas águas. Chegamos, então, à questão proposta nesta seção do ensaio: a canoa simboliza a mudança ou ela se insere no “entre” do insólito? Como vimos, ela não simboliza nada por ser a própria presença da coisa, no caso, da questão que a nós se apresenta. No entanto, traz a mudança à configuração do conto e se instala como “entre” do insólito.
O rio é, ao mesmo tempo, permanência e mudança. O trânsito de suas águas gesticula o inefável de suas margens. Estas não indicam um caminho. Em vez disso, suscitam um itinerário de dúvidas e questionamentos, na medida em que apontam ao horizonte do não-saber. Mais ainda, desdobram-se na tensão vida-e-morte enquanto incursão na travessia do homem, posto que só se dão como margem porque há um fluxo de águas que as faz margear. As margens não são margens porque delimitam o curso do rio, mas porque o próprio rio doa sua condição de permanência. É neste sentido que o “entre” do insólito se apresenta: estando na emergência de uma condição que não se restringe ao que se vê com a visão, mas que se sente com o não-ver dos olhos. O in-sólito: a quebra da banalidade na dupla regência do prefixo “in-” em negar e adentrar intensivamente o que é sólito: permanência e mudança que se refluem, transitando no que não foi delimitado. Eis a proximidade com o homem: o insólito do rio no inesperado da vida do homem-humano.
Agora podemos retomar as duas questões acima suspensas. Vamos à primeira: a mudança se deu no pedido de construção da canoa ou já pertencia ao pai? Ao se atentar ao pedido, o pai correspondeu à fala da linguagem, isto é, tal decisão não partiu de sua vontade, mas do lógos. Nunca realizamos o que queremos, mas o que já nos foi destinado, já que o sendo que somos se realiza destinalmente na caminhada do nosso caminho. Assim, apropriamo-nos do que nos é próprio. Mas o que é corresponder à fala da linguagem? Afinal, não somos nós que nos expressamos e, nesta pronúncia do que pensamos, a linguagem se realiza como fala?
A não ser que nos embrenhemos pelo discurso da linguística, cujo primeiro intento é separar a linguagem do homem ao analisá-la, este tipo de caminho não condiz com a experiência do mesmo enquanto realização da linguagem. Sendo assim, entendemos que “o homem fala à medida que corresponde à linguagem. Corresponder é escutar. Ele escuta à medida que pertence ao chamado da quietude” (HEIDEGGER, 2003: 26). Ou seja, partimos da linguagem. Não estamos acerca dela e, ao nos referirmos à postura do personagem em questão, temos que sua decisão já se impunha como chamado do mistério, do lógos, e do rio enquanto lugar do não-saber, do não-ser, do vazio. Assim, não é uma mudança de um estado psicológico para outro, mas uma que permanece na conjuntura da complexidade da vida. A tensão de estar vivo é se deparar a todo instante com o acontecimento da morte. Eis o insólito se manifestando.
Se em outro momento do texto, dissemos que este conto de Rosa nos revela enquanto homens, podemos articular com tal proposição a segunda questão acima: a interpenetração entre o pai e o ser humano. Logo, considerar tal personagem como figurante de uma narrativa literária seria não se deixar atravessar pelo sentido fundamental de toda obra de arte: o de corresponder à essência do homem. E isto se dá dissimuladamente, ou seja, o verbo “dissimular” significa correntemente um tipo de fingimento, uma branda mentira. Todavia, se formos mais cuidadosos e sensíveis à fala de tal palavra, veremos que dissimular diz a dobra do sendo em ser e não-ser. Isto é, muito além de um conceito categorizante, o dissimular traz a vigência do que se oculta na afirmação de uma negatividade. Assim, o que é negativo é, também, positivo na medida em que não se induz uma escolha, mas recolhe ambos como desdobramento do que se dissimula. O não-ser do sendo funda a possibilidade de ser e não-ser, do mesmo modo que, se pensarmos nas obras de arte, estas se desdobram na dissimulação do agir fundado pelo não-agir. Em suma, pela quietude do nada em consonância com o não-saber do homem. Tal quietude nos leva a pensar um outro trecho do conto: o silêncio no agir do pai.
Em silêncio, o pai agia: “Só quieto” (ROSA, 1967: 32). Também silenciosamente, o rio permanecia: “o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre” (ROSA, 1967: 32). Seria apenas uma coincidência? Cremos que não. A fecundidade do rio em se doar originariamente pressupunha um destino que o ligava ao pai. Assim, o destino não é algo a ser desvendado. O destino do homem é ser o que é.
Um possível equívoco na leitura deste conto seria ficar no entorno da ambiência metafísica, querendo saber e responder ao mistério das imagens-questões. Estas imagens não se colocam para serem respondidas, pois, se assim ocorrer, teremos um esvaziamento das questões levantadas pelo conto, ficando apenas um palavrório conceitual. Muito mais do que esta superficialidade, as imagens-questões nos levam ao encontro com nossa interioridade, isto é, levam-nos à escuta de nossa essência, ao princípio do que somos enquanto homem-humano. Desta maneira, interpretar é sempre um movimento de retorno ao que sempre fomos, uma pro-cura por nosso próprio.
Nos caminhos da interpretação de “A terceira margem do rio”, somos levados a nos questionar pelo “entre” do insólito também na imagem da canoa. Contudo, na verdade, esta deu início ao movimento de quebra da realidade cotidiana, instaurando a acontecência de uma nova visão sobre o sentido do desdobramento do real em realidades diversas. Por este viés, entendemos na imagem da canoa o insólito como a fagulha que rompe com a banalidade e nos apresenta uma outra forma de experienciação do real: o rio com suas águas repletas de novidades sempre-novas trazem nesta falsa redundância a ênfase no sempre realizável do homem: o mistério como fonte do não-pensável. Haja vista o que nos diz a própria obra: “A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia” (ROSA, 1967: 33).
Exatamente: acontecia! Não há motivo aparente ou uma razão lógica que explique tal fato. Deparamo-nos com um acontecimento poético, isto é, com aquilo que irrompe em uma realidade cotidiana, inaugurando uma nova. O acontecer é o próprio da palavra poética, já que esta é a coisa em seu vigor de ação. Mais ainda, o acontecer, nas palavras de Manuel Antônio de Castro, “já traz no seu âmago a noção de estar, ter contato ou relação com” (1982: 36).
A condição em que o pai se encontrava, ou seja, solitário em uma canoa no infinito curso do rio, não era algo de anormal. Ao contrário, era o que se tinha por verdade. Mas de quem? Há algum ponto de vista a fim de se determinar o que seja a verdade? Se sim, qual a verdade mais correta: a que se tinha por perspectiva a canoa singrando de “meio a meio” do rio ou a de quem se punha nas margens a observá-lo?

A “estranheza” da verdade no acontecimento do homem enquanto rio

“A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia” (ROSA, 1967: 33).  Esta fala do conto nos encaminha à discussão de duas palavras: o estranho e a verdade. Ou melhor, do acontecimento destes dois termos não só como palavra, mas como presença no homem.
Como já dissemos acima, acontecer é o dar-se involuntário do ser na dinâmica da phýsis. Por sua vez, phýsis “é tudo que se dá por si mesmo” (HEIDEGGER, 2007: 36). Então, se tudo que se dá, dá-se por si mesmo a partir da phýsis, como podemos articular o estranho e a verdade em diálogo com o conto “A terceira margem do rio”?
Indo direto à questão, o estranho é o insólito. No percurso do acontecer, a estranheza se manifesta do desconhecido, passando ao conhecido sem negar o que não se conhece. Eis o movimento da verdade como alétheia: o desvelar incessante do que antes se recolhia no não-manifesto. O estarrecimento de “todo a gente” é o espanto pelo incomum, pela presença da verdade enquanto acontecimento real do que não se esperava ver. Pois a visão, na ambiência da certeza ocidental, é o que afirma e concretiza uma verdade. Há então várias verdades? Não e sim, isto é, há manifestações da verdade em detrimento da experiência de ser. Entretanto, o que se entende como conceito de verdade é que muda em função da maneira de se abrir para sua manifestação. Por isso, para reforçar o que já dizíamos, em consonância com o pensamento grego, temos que:

Nosso conceito de verdade e o conceito grego da verdade tiram sua respectiva inteligibilidade de áreas e conjunturas de relações intuitivamente diferentes. Alétheia, descobrimento, provém do feito e do fato de encobrir, velar, respectivamente, desvelar, descobrir. “Correção” provém do feito e do fato de reger uma coisa por outra, de medida e medir. “Desvelar” e “medir” são feitos e fatos inteiramente diferentes (HEIDEGGER, 2007: 111).

Com isso, temos conceitualmente a verdade tanto como adequação de um enunciado àquilo que se enuncia quanto como transporte da negação à afirmação, e vice-versa, sem que um neutralize o outro. Desta forma, eis a verdade no sentido de realizar uma não-verdade e a ela retornar, posto que uma não-verdade é simplesmente o que ainda não se manifestou.
É desta maneira que podemos nos aproximar da estranheza do conto. A ida do pai em uma canoa ao rio, sem jamais aportar, mantendo-se num silêncio absoluto, incomodou a calmaria da razão, do habitual do povoado. Julgaram-no doido, doente de alto grau de periculosidade, absorto. Tentou-se de tudo: chamar sua atenção, ir ao seu encontro pelos descaminhos do rio, provocar-lhe a palavra. Mas nada adiantou. O que houve, então, de errado? A incompreensão. Não se abriram ao silêncio do personagem porque, e principalmente, não se abriram ao seu próprio silêncio.
O silêncio não é ausência de fala, não é sinônimo de imobilidade. O silêncio é o velar de todo o ímpeto, o movimento pleno em que a vigência de ser se resguarda no agir do sendo. O silêncio do pai é o silêncio do rio, e o rio é o homem.
Guimarães Rosa, certa vez, disse em uma entrevista:

Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens (LORENZ, 1973: 341).

O que importa é a fala da obra e não a do seu autor. Este deve se subtrair de sua atuação à medida que for atravessado pelo vigor da criação. No entanto, aqui Rosa não aparece como autor do conto, e sim como pensador. Pensa o homem em equiparação aos rios quando percebe a profundeza e o mistério de ambos.
Nunca saberemos o que é o homem. Nunca chegaremos a um ponto final, até porque estamos sempre em vigência de ser. Na medida em que somos, galgamos um passo a mais no abismo da escuridão. Assim como os rios, quando os olhamos pela densidade poética, nunca enxergamos o seu fundo, porém estamos sempre perdidos em sua profundidade.
O estranho é o insólito. O insólito é o ser do homem. O homem sendo é o rio em seu fluir e permanecer. A estranheza de ser, aos olhos metafísicos, não vislumbra o incomensurável de toda medida, haja vista que a desmedida de ser nos toma a todos, porém só alguns se abrem à manifestação do não-ser de todo sendo. Somos não sendo para que sempre possamos ser, e isto não é um jogo de palavras. Ao contrário, é o apelo do indizível do ser do homem.
Pelos dizeres de Rosa, o rio resguarda em suas águas a tensão entre claro e escuro. É um e outro ao mesmo tempo e da mesma maneira que é o homem, é a dobra se desdobrando. A tensão de vida-e-morte que atravessa a existência de todos nós recolhe esta mesma simultaneidade de mostrar e esconder. Ambos acontecem a um só instante, pois quando a phýsis deixa o homem acontecer em sua liminaridade, o lógos o manifesta pela fala da linguagem. Então, o homem fala em correspondência à linguagem, na medida em que escuta. Por isso, dizemos que quem fala é a linguagem e não o homem por sua vontade e atitude. A palavra se dá na reciprocidade entre fala e escuta, uma vez que não ocorre uma ação após a outra. Elas acontecem simultaneamente. 
Quando nos voltamos à quietude do pai, percebemos o estranhamento do povoado em função de sua escolha: “E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma” (ROSA, 1967: 35). Mantendo-se em silêncio, entregou-se a seu destino... Foi sendo na proporção do seu caminho. Vigorou-se homem em travessia. O rio se tornou mais rio na habitação de seu não-lugar, ou seja, deu-se em plenitude de fluência para que suas águas recolhessem a pequena canoa com a grandiosidade do homem-em-humanização. Isso tudo aconteceu surdamente e com serenidade de ambos os lados: de um, o pai que, na abertura de seu acontecer, mandou construir para si uma canoa, nela ficando até tempo racionalmente não estabelecido. De outro, o rio com suas águas mansas à espera do porvir.
“Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado” (ROSA, 1967: 37). Com tais dizeres do “filho”, observamos o quanto a questão do homem é explicitada na tensão entre saber e não-saber, medo e coragem, enfim, uma disputa. Esta é a perene questão que atravessa e faz o homem, pois habitando a liminaridade vida-e-morte, o conflito de sua existência é a permanência da luta por viver e morrer no “entre”.
Ser o que não-é, ficar calado, em silêncio. A dificuldade primordial que antecede o salto mortal no abismo de ser. É necessário cumprirmos o tempo mais justo, o tempo da terra. Somos a brevidade de uma existência que figura no tempo do mundo, no tempo de ser e não-ser.

Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não-sou, mas sou.
(ANDRADE, 1983: 151)

Pois o tempo mais justo não é aquele que queremos que aconteça, mas o que acontece sem a permissão de nossa vontade e nos encaminha serena e ferozmente ao horizonte de nossa própria habitação.
Ao fazer o pedido de troca de lugar com o pai na canoa, o filho teme seu destinar e tenta dele fugir. Corre e pede perdão por não suportar a iminência de um destino que não era o seu, mas sim, do pai. Foge porque tem medo do desconhecido. Daí, recolhe-se em sua fuga, negando-se como homem. Porém, este negar é também uma aceitação de sua condição mortal. Tanto que na última linha do conto afirma: “e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio” (ROSA, 1967: 37). Notamos dois detalhes interessantes: o isolamento das palavras “eu” e “rio”. Pois uma se liga a outra num movimento de apropriação mútua: o eu é o rio. O rio é o eu que se transborda da subjetividade e se alarga a todo mortal: o homem-em-humanização na fluência de seu entre-existir, sua habitação como lugar do não-ser.
A terceira margem do homem, podemos então pensar, é o que não se pode dizer. É aquilo sobre o qual não há medida que dê conta de sua grandeza, o que está para além de tudo que é sólito, nominável. A terceira margem do homem são os descaminhos do rio no dizer da não-fala enquanto silêncio, o dar-se conta da queda abismal em que nos encontramos na experiência única de viver. Pois nunca sabemos quem amar, só amamos. Nunca sabemos por onde andar, mas andamos. E desta forma, sem saber, apenas somos.

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Campo de flores”. In: Antologia poética. 16ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.
CASTRO, Manuel Antônio de. “Poética: permanência e atualidade”. In: Revista Tempo Brasileiro. [ISSN 0102-8782]. Nº 171. Out/Dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.
______. O Acontecer Poético – A História Literária. 2ª ed. Rio de Janeiro: Antares, 1982.
FOGEL, Gilvan. “O desaprendizado do símbolo (a poética do ver imediato)”. In: Revista Tempo Brasileiro. [ISSN 0102-8782]. Nº 171. Out/Dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.
HEIDEGGER, Martin. Ser e verdade: a questão fundamental da filosofia; da essência da verdade. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007.
______. “A linguagem”. In: A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2003.
______. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. “Permanência e atualidade do poético: lógos, mýthos, épos”. In: Revista Tempo Brasileiro. [ISSN 0102-8782]. Nº 171. Out/Dez. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.
LEMOS, Virgílio de. Para fazer um mar. Maputo: Instituto Camões – Centro Cultural Português, 2001.
LORENZ, Günter W. “Diálogo com João Guimarães Rosa”. In: Diálogo com a América Latina. São Paulo: Editora Pedagógica Universitária, 1973.
PESSANHA, Fábio Santana. “O insólito na dimensão do poético: o movimento de um questionar”. In: GARCÍA, Flavio (org.). Narrativas do insólito: passagens e paragens. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2008. [pp. 32-48] (Disponível em www.dialogarts.uerj.br/avulsos/insolito/narrativasdoinsolito.pdf).
ROSA, Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: Primeiras Estórias. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992.
WALTY, Ivete Lara Camargos. O que é Ficção. São Paulo: Brasiliense, 1985.

*Conforme mencionado no post anterior, este é um dos textos previstos para publicação em 2010. Os demais ensaios participantes do mesmo simpósio de que este é integrante podem ser encontrados em www.dialogarts.uerj.br/arquivos/simposios.pdf




26 de janeiro de 2010

Ensaios para este ano


Caros amigos, vim divulgar alguns ensaios meus que ou foram publicados agora no início de 2010 ou serão no decorrer do mesmo ano. Então, seguem os textos que aguardam sua leitura e possíveis comentários ou críticas – isso seria muito interessante! – conforme forem publicados.
Na revista Pequena Morte, em sua edição número vinte, foi publicado o texto “A casa de Maria Gabriela Llansol: um ensaio poético”, inspirado no romance Na casa de julho e agosto (1984), de Maria Gabriela Llansol, obviamente. Nesse ensaio, adentramos sua alquimia narrativa pelo prólogo que, por sua vez, deixa claro a inconstância de dizeres desprovidos de temporalidade linear. Abrimos sua casa com uma carta endereçada às “Damas do Amor completo”, mas que se desdobra na expectativa do leitor, prestes a receber um convite – ou já completamente seduzido pela poeticidade llansoliana – aos descaminhos deste romance.
Muito em breve será publicado meu ensaio intitulado “Palavra: a casa do poeta”, na revista Terceira Margem. A palavra, a casa e o poeta: neste ensaio vislumbramos a interpenetração destas três palavras como tensão fundamental ao pensamento poético. Desta maneira, manifestam três modos fulcrais de pensamento – a linguagem, a habitação e o próprio poético enquanto agir essencial (poíesis) – tão caros aos diálogos vigentes em nossa abertura à arte como apropriação do que somos.
Outros dois ensaios aguardam publicação, e estes são provenientes dos dois eventos que participei na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ocasiões em que se tematizavam o insólito na narrativa ficcional, portanto, a quinta e a sexta edição do Painel Reflexões sobre o insólito na narrativa ficcional, concomitante com o primeiro e o segundo Encontro Nacional o Insólito como Questão na Narrativa Ficcional. Respectivamente aos eventos, serão publicados meus seguintes ensaios: “O rio como insólito na terceira margem do homem” e “Homem: corpo insólito”.
Em relação aos dois textos citados acima, o primeiro ensaio é inspirado no conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, e põe em questão o homem, instalando o perguntar pela normalidade de uma realidade comum. Assim, o humano se dá como a travessia insólita do vazio ao nada. E é a partir do silêncio musical de “águas que não param” que o rio se revela não só como uma imagem ou um símbolo, mas como a própria emergência do que é, ao mesmo tempo, dinâmico e constante. Desta maneira, tal escuta nos possibilita a proposição da efervescência do insólito para além do conceitual.
O segundo ensaio é uma reflexão acerca do homem. Afinal de contas, o que é o homem? Como pensá-lo, dizê-lo ou sê-lo? Sem a menor possibilidade de uma resposta cabal, este texto é um dentre os incontáveis mergulhos pelos caminhos de interpelação, de questionamento do homem em sua essência. A dimensão do homem infringe qualquer esforço de medida ou de cerceamento conceitual, pois, sem ponto de partida ou de chegada, esvai-se a tentativa de uma precisão científica. Nele, trilhamos algumas possibilidades de se pensar o homem enquanto desdobramento corporal. Veremos o corpo como empenhos de diálogo em conjunto com as obras de Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, o que não inviabiliza outros gracejos poéticos que evocam o pensamento e convocam a escuta do corpo. Trataremos do homem como corpo insólito por não se tratar de uma composição biofisiológica, mas da irrupção de um instante de humanidade. Um lampejo de existência não restringida aos discursos existencialistas, pondo em voga a liminaridade da vida em convívio com um outro que somos nós mesmos. Assim, entendemos que o insólito não está numa teoria categorizante, e sim no próprio acontecimento do homem. Eis uma questão que se coloca diante, ou melhor, entre as diversas tentativas de retê-lo em um corpo carnal.
O corpo é também uma questão por ser a travessia do ser em seu próprio “sendo”, isto é, na medida em que se é, o corpo incorpora o instante num tempo singular de ser, realiza-se como envio do real. Nessa ambiguização, corpo e homem se confundem e irrompem as fronteiras que separam as instâncias material e espiritual, evidenciando a plenitude do corpo em cada gesto. Portanto, de maneira não polarizada, o corpo se arrisca em ter o homem – e vice-versa – numa circularidade iminente que atravessa sua existência enquanto vida e morte, cosmos e caos, material e imaterial sendo um.
Enfim, a princípio estes são alguns dos textos que já vieram ou aguardam vir a público e, na medida que forem publicados, divulgarei aqui neste blog, esperando sempre a sua leitura e discussão de quem se dispuser a fazê-lo.


16 de dezembro de 2009

Quero ser pedra

     Lendo o livro Gramática Expositiva do Chão, do poeta Manoel de Barros, tive vontade de ser pedra. Pensei: “como fazê-lo quando já estou preso nesta jaula de carne, ossos e luxúria?”. A única solução para isto é ser poeta e criar um poema:

Pedra

Ser pedra
é estar descascado de conceitos,
sendo coisa nas coisas,
braço de mundo na pureza
do que ainda não caiu em palavras.

22 de novembro de 2009

Um olhar poético sobre o educar: da habitação à morte*


Educar é morar, residir permanentemente no devir de um caminho de apropriação. Neste sentido, educar não é dizer como, mas apontar a partir de uma existência o metamorfosear entre externo e interno: consumação.
É necessário que se rompa a tradição baseada na retórica vicejante da quase-incorruptível relação sujeito-objeto. Nesta perspectiva, há aquele que ensina assim como aquele que é posto a aprender. Há um alguém que conduz para a predileção do domínio e, para a outra parte, sobra apenas a afirmação ou a conquista de algo que não lhe faz sentido por não ser seu originariamente.
Educar é encorpar, fazer nosso o que já é nosso. Assim, um autoapropriar-se na travessia que se apresenta misteriosamente. No entanto, misterioso aqui não se reduz à ficcionalização metafísica de um modelo formal, mas conduz ao transbordamento de corporeidade. Pois o mistério é o arcabouço do porvir e, por desdobramento, o berço da educação. Tomar corpo não é aparentar um sistema orgânico. Corpo é mais do que organismo, pois não se reduz a sistemas. Podemos dizer ser a unidade em que qualquer antagonismo é deposto de seu lugar de oposição para acolher a dissipação de polaridades. Desta maneira, o corpo é um todo que se plenifica em cada detalhe de suas partes.
A educação virou discurso volitivo, sujeição política, externalização do outro no transeunte da língua. Porém, como dizer ao outro o que não lhe pertence? Tentativas são feitas e o caminho vai seguindo... Como dizer da felicidade de alguém se não somos o outro? Faz-se uma representação do que é mais aprazível e aceitável, ficando o educar, nesta dimensão, como a metáfora do horário nobre popular.
O verbo educar deveria ter o significado de trazer a experiência da escuta para nosso próprio, isto é, para nosso modo de ser. Uma observação profunda que leva a uma auto-observação, autoescuta, auto-olhar, enfim, toda a possibilidade de experiência singularizada. É como o poeta que se apropria de si em cada verso, em cada obra que lança ao horizonte da leitura.
Neste movimento de incorporação, ler é ser a autoexperiência da humanização e educar, a consumação da convergência das diferenças no diálogo. Mas, para que isso aconteça, é fundamental uma disponibilização do homem à abertura de si mesmo, pois o que mais nos assusta é a possibilidade de nos descobrirmos para além daquilo que nos foi determinado como a aparência do que somos.
A tomada de contas do que somos mora na educação. E isso parece distante de se conceber se olharmos pela janela da nossa aparência, já que a educação virou uma afirmação daquilo que não nos pertence. Um encadeamento esquisito de conceitos e fórmulas...
Por mais que se tente enquadrar o homem nos bons modos da exatidão científica, haverá sempre uma brecha para o que é mais radical na vida: a morte. E esta não está no fim da linha como se supõe a linearidade moderna de percepção do real, mas vigora em todo instante como possibilitadora de todo viver. Morte não é apenas fim biológico, mas possibilidade de vitalizar, de fazer viger a circularidade poética de existir, pois, como diz Clarice Lispector em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres: “É uma naturalidade morrer, transformar-se, transmutar-se. [...] Morrer deve ser um gozo natural. Depois de morrer não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso”. Portanto, educar é morrer.

*Texto originalmente publicado na Revista Educação Pública.

3 de novembro de 2009

A invenção das ilhas – antologia poética de Virgílio de Lemos


No dia 27 de novembro agora, sairá em Maputo (Moçambique) o novíssimo livro de Virgílio de Lemos, intitulado A invenção das ilhas – antologia de Virgílio de Lemos. Com organização, posfácio e revisão de António Cabrita (poeta, autor de contos, crítico de cinema e de literatura) a antologia será publicada pela Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa.
Segundo o próprio Virgílio, esta obra trará poemas inéditos que não constam do livro Eroticus moçambicanus (1999), organizado por Carmen Tindó. A importância deste último foi a de apresentar ao Brasil a poética virgiliana, evidenciando a grandiosidade de versos que reúnem em sua musicalidade e inaugurabilidade uma alquimia de imagens, sons e cheiros próprios. É o que vemos, por exemplo, no poema:

A tragédia e a língua
(Ao Luiz de Camões e ao Fernando Pessoa)

Fora ou dentro, a língua é luz
da alma, sendo seu próprio corpo
vegetal. Na folha em branco
passeia-se o nada recriado.

Sol, sendo luar, no desvelar reside
o segredo do criar, e na paleta
esquecida, vive ainda o morto,
duplo mergulho no texto e na deriva.

E é face ao mesmo mar de teus anseios
que neste outro olhar recrio o gesto
e reconcilio a tragédia e a língua.

(Do livro Eroticus Moçambicanus, pp. 67-8)

Agora é esperar que A invenção das ilhas saia o mais rápido possível também aqui no Brasil e que sejamos presenteados tão logo com uma provável imensidão poética de vertigem e caos.
Enquanto isso, adianto aos amigos leitores o texto da quarta capa do livro:

Virgílio de Lemos, poeta, antropólogo e jornalista moçambicano nasceu em 1929 na ilha de Ibo.
Impulsionador do movimento literário moçambicano nas décadas de 40 e 50, foi um dos criadores da folha-de-poesia Msaho (contemporânea do movimento Négritude de Césaire e Senghor), que procurou enaltecer as culturas locais e criar uma poética moçambicana, em ruptura com os modelos literários impostos pela colonização.
Absolvido de um processo judicial por crime de desrespeito à bandeira portuguesa, devido a um verso escrito em 1954 pelo heterônimo Duarte Galvão. Virgílio de Lemos exilou-se, e em 1963 passou a viver e a trabalhar em Paris, onde foi um conceituado jornalista de televisão e rádio.
Destacam-se, na sua obra, escrita tanto em português como em francês, Poemas do tempo presente (1960), obra apreendida pela PIDE, L’Obscene Pensée d’Alice, Ilha de Moçambique: a língua é o exílio do que sonhas, Negra Azul, Eroticus moçambicanus, Para Fazer um Mar, L'Aveugle et l'Absurde, La saignée de l'indicible e L'Écart du temps.
Sendo um dos vanguardistas da lírica moçambicana e defensor do conceito do “barroco-estético” para as literaturas de língua portuguesa, tem uma escrita poética fragmentária, sintética, eivada de imagens surrealistas, e duma dimensão cósmica, perpassada pelo onirismo, as problemáticas existenciais e o erotismo; que nunca descura a fidelidade aos homens e o seu testemunho.