17 de julho de 2015

Waly Salomão e o oco do tempo



Deslizo,
oculto aqui,
vigiando o oco do tempo.

E confesso:

São dias vivendo no intenso fluxo de epifania. Somam-se a esses dias horas incontáveis de desusos da pele, nos quais a rede que alinhava pelos e poros se inventa como desfiladeiro para cânticos ternos. O corpo é um sacrossanto abismo de acontecimentos, o tempo abre seus segredos e deles saem resquícios de esquecimentos para edificar a unidade múltipla que encena o devir de suas faces.
Nos instantes que mediavam os dias de terceira agonia, a flagelação era o palco das catarses de numinosos nomes. O elo entre o vazio e o silêncio era a palavra que nunca fora pronunciada, e a cada tentativa de dizê-la, flores incandesciam das ventas dos olhares tortos, ornados em piscadelas ríspidas. O olhar não era necessariamente um ver, era a estética falida dos abraços perdidos em lembranças. Na atualidade das horas que teimam em correr, para ser corpo é necessário habitar o ver; para ser tempo, é fundamental imergir no oco do existir.
O ver habita o corpo, e este nem chega perto do imposto acúmulo epitelial onde memória é confundida com reminiscências de outroras vidas. O ver essencializa no corpo o ínfimo momento de morte, necessário para a fundação dos amanhãs. Assim, nenhum dia passa despercebido na teologia espúria dessas cantações verbo-carnais, nenhum toque é gesto quando o corpo não está presente. Afinal, o corpo não só está, é presença.
O gesto é uma existência ambígua e ubíqua desse corpo que se lança na acontecência de seus dias. O hoje não dá conta dos agoras, quando presentes num mesmo e íntimo instante. O oco do tempo se resvala por descaminhos:

Espaço ermo, parado.
Nada acontece. Nada parece acontecer.

Nisso que nada acontece, campos são floridos no dorso do susto. A dúvida é sempre a alcunha do porvir, pois viver em poesia torna o olho de quem vê em porta de entrada para latências. Num só fôlego, toda palavra é mundo e toda realidade se condensa no eriçar dos pelos, onde nuca e peito se entrelaçam em perpétua peregrinação ao amor. Um poema é escrito aos ventos e lido às cegas por quem já se lançou no ver. Mas, sem nos deixar enganar pelos campos verdes do que se expõe ao olhar, devemos colher desertos em nosso ensimesmar-se e nos unir ao contorno embaçado do que se percebe de retravés.
É possível dizer no pensar do corpo – sendo inteiro em seu agir para o nada – uma sentença certeira no alvo da palavra,

Mas algo flui, o irremediável
queimando todas as pontes de regresso.
Todo passado está morto;
só vige o que vem, o que surge.
Todas as coisas íntegras dilaceram-se
ou são dilaceradas.

A dor de ser esse exercício de mutabilidades ancora no corpo o irreversível retorno para o que se era. Ser é habitar a eterna fluidez de um caminho sem retorno, pois ao se tentar voltar, outro horizonte se refez, outra curva inclinou os joelhos ao céu, perfazendo a sagrada liturgia para o que se é. Todo caminho é ponte, toda encruzilhada é reconhecimento das vias que rasgam os pés de quem assume seu caminho.
O andarilho do verbo vigia o oco temporal, faz-se persona de suas máscaras ao atuar no espetáculo de seu próprio devir. A vida que lhe sai das retinas compõe a rede na qual se une em silêncio e nós, em bifurcações aurais de um tempo que lhe impõe existência; e o travestido de gente humana caminha observando

A velha senhora viajada,
detentora de recorde de milhagens,
temerosa das vacas do Ganges
depois de ter contemplado um berne
ao microscópio.
Berne que agora corrompe e torna pútrida
qualquer carne verde que ela vê
pois seu olho holografa
o esqueleto subjacente a todo corpo vivo.

O vigilante da existência se percebe parte de um todo. Cada costela encurva mundo, cada baque entre pele e músculos resvala fundos para antecedências ancestrais. O que se vê hoje não é agora. O que se funda doravante são infinitudes a olhos nus, são poemas a serem escritos, mas que se guardam no espaldar do tato, na fuga ilusória disso que se chama escrita, pois cada letra é, ao mesmo tempo, a corrupção do indizível e a assunção holográfica do presente instante do apropriar-se.
Toda carne é podre depois de um berne malfadado, todo vento é longe depois de um susto encarcerado. E nisso que se chama parte, cada todo é completo, cada árvore é floresta, cada gente é humana, cada segundo é tempo. E tempo não é algo que se vê externo, pois não há o dentro e o fora; só o oco, a unidade disso que se chama aurora.
Nenhum verso contém o poema. Versos são aberturas, convites a uma busca profunda pelo que se é. O poeta é um portal para disfunções líricas, pois nenhum verso ecoará igual. A cada leitura, um mesmo poema é reescrito num ritual de cocriação: recria-se o poema; recria-se o leitor; recria-se o mundo; inventam-se as dores necessárias para o parto do absurdo, e tudo isso neste exato momento. O leitor encarna as vozes do misterioso estrondo das veredas retraídas no aparecer do que se tenta agarrar, veredas que infiltram ânsia e furor de quedas para a imaginação de saltos.
O poeta é um vigilante, o oco do tempo toma sua atenção. O universo que existe para além de si também ocupa o que ele não sabe dele próprio. O transeunte que rouba seu olhar ao cruzar seu caminho passa a compor suas vistas durante o fluir de horizontes. Tornam-se o mesmo na diferença dos limites. O oco consuma o que não se sabe e aponta para a contínua reinfestação do que muda porque é vivo, porque morre. E nessa instância, corpos exercem o mesmo lugar no tempo e no espaço, porque qualquer delimitação científica, biofisiológica, é posta ralo abaixo como lágrima deixada em testa desenganada.

Viver em mudança.
O assoalho repleto das peles velhas das cobras
e do pelo felpudo das aranhas-caranguejeiras.

Pelo ver que derrama gestos em palavras desguarnecidas de fronteiras, o longe se torna cada vez mais aqui, compondo a complexa teia dos caminhos por onde o destino encarna. Então, o oco será uma busca constante, pois a cada vez que mãos forem lançadas ao inesperado do viver, o horizonte se alargará para além do salto.
A poesia é o chão onde o tempo se deita em amor com o homem, fertilizando voos, ruminando paragens, libertando o ver do olhar. O afeto que se funda nesse íntimo compõe isto que talvez se chame realidade, desafia a certeza a permanecer em sua linha reta. Afinal, a linha reta não existe! Ela é uma ilusão para fugir dos trejeitos tortos presentes no infinito flerte entre o poeta e a palavra.
Tais dizeres são confissões de um corpo lançado em sua própria incompletude. Mas ainda é preciso manifestar mais um tanto de existência, pois nada termina no limite do que aparece... os cânticos para os quais pernas se perdem atravessam limiares, habitam a permanência de tudo que muda...

Viver em mudança.
Que a sobre-humana poesia pica e envenena um
homem.

Sejamos esse homem.

Referência


SALOMÃO, Waly. “Vigiando o oco do tempo”. In: Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 253.